O vírus parecia controlado, mas Singapura deu um passo em falso

How Hwee Young / EPA

Singapura foi um exemplo no combate ao novo coronavírus. Ainda o surto não tinha nome de covid-19 e o país já tinha agido, mas bastaram três semanas para tudo mudar.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) teceu largos elogios a Singapura, que se tornou uma lição para todo o mundo no controlo do novo coronavírus. Agora, volta a sê-lo, mas não por bons motivos.

No dia 23 de janeiro, um turista chinês, vindo de Wuhan, pisou o solo de Singapura e o país não hesitou em agir. Perante a primeira ameaça do surto, que na altura ainda nem tinha sido batizado de covid-19, o Governo arregaçou as mangas e lançou uma campanha de testes, cujo objetivo era localizar os casos de infeção para, depois, os isolar.

No mês seguinte, os voos provenientes da China foram cancelados e a quarentena de 14 dias foi imposta a todos os turistas que quisessem entrar em Singapura.

A postura ágil e rápida do país, que em muito se deveu à experiência sombria da SARS, mereceu as atenções de todo o mundo e os elogios recaíam sobre Singapura sem precedentes, que rapidamente se tornou um caso de sucesso e um bom exemplo de governação.

Singapura parecia ter comprado um bilhete para o comboio do sucesso, e trilhava caminhos sinuosos mas frutíferos. Até ter descarrilado.

No primeiro dia de abril, o país somava 1.000 casos de infeção e três óbitos por covid-19, mas 19 dias depois os números tomaram outras proporções: esta segunda-feira, Singapura anunciou um número recorde de mais de 1.400 novos casos em 24 horas. Soma, agora, um total de 8.014 e o número de mortes subiu de três para 11.

Segundo o Observador, este país asiático deu um passo em falso. Depois de isolar os casos confirmados, Singapura recebeu vários habitantes de outros países que demoraram a tomar medidas preventivas e a economia que prosperava encheu-se de trabalhadores imigrantes, provenientes de países asiáticos pobres.

A somar a estes fatores, o facto de este vírus ser completamente desconhecido e ter mostrado um potencial de contágio muito mais forte do que se esperava, com doentes assintomáticos a disseminar o vírus.

Este fim de semana, o primeiro-ministro, Lee Hsien Loong, alertou que o número de trabalhadores imigrantes infetados pelo novo vírus aumentará drasticamente à medida que as campanhas de teste forem realizadas nas casas ou alojamentos lotados onde os trabalhadores imigrantes vivem, geralmente em condições insalubres.

Estas habitações não permitem a distância física necessária para conter a contaminação. Para reduzir este problema, foi criada uma equipa de resposta para transferir alguns trabalhadores para acomodações alternativas durante este período.

“Se tivéssemos sabido da rapidez de propagação do vírus, tínhamos feito as coisas de outra forma”, admitiu Lawrence Wong, ministro do Desenvolvimento Nacional.

A curva que Singapura conseguiu manter plana começou a crescer nos primeiros dias do mês. Agora, à semelhança do resto do mundo, a cidade-estado fecha-se em si mesma (novamente) e procura uma resposta para combater esta pandemia.

O exemplo feliz de Singapura deu esperança aos Estados Unidos e à Europa. Agora, a infelicidade traz consigo uma pergunta: será cedo demais para voltar à normalidade? Singapura acha que sim.

  LM, ZAP //

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