Há luz ao fundo do túnel. PSOE conseguiu acordo preliminar com Podemos para formar Governo

Fernando Villar / EFE

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) conseguiu um acordo preliminar com o partido de esquerda Podemos para uma solução de Governo. Mas o PSOE ainda precisa de mais apoios para governar. PP e Vox já lhe viraram as costas.

O acordo preliminar entre o actual presidente do Governo, Pedro Sánchez, e o líder do Podemos, Pablo Iglesias, é anunciado pelo El País que cita “fontes socialistas”. De acordo com o jornal espanhol, o acordo prevê que Iglesias será vice-presidente do futuro Governo espanhol.

Esta solução terá sido acordada na segunda-feira à noite, esperando-se que os dois lideres a comuniquem aos jornalistas durante o dia de hoje.

O PSOE ganhou as eleições de domingo e continua a ser “o partido hegemónico à esquerda, sem contestação possível“. Foi desta forma que o ministro interino do Fomento, José Luis Ábalos, avaliou os resultados das legislativas, apesar de o partido ter perdido três assentos parlamentares (tem agora 120 deputados).

“Somos o único partido de âmbito nacional a conseguir representação nas 17 comunidades autónomas, o que nos converte nos únicos capazes de dar uma resposta política”, prosseguiu, embora destacando que tem que “assumir os resultados com humildade e com o realismo certo e necessário”, segundo noticiou o Expresso.

“Na campanha falou-se muito em desbloquear. Não sabemos quais vão ser os bloqueadores mas têm uma nova oportunidade”, lembrou, assegurando todavia que os socialistas não ficarão “à espera” e serão “pró-ativos”.

De acordo com o Expresso, o destinatário do recado era Pablo Iglesias. O líder do Podemos (agora com 35 deputados) e o primeiro-ministro em funções, Pedro Sánchez, não conseguiram chegar a acordo nas anteriores eleições, o que inviabilizou a tomada de posse do socialista e precipitou as quartas legislativas em quatro anos – as segundas só este ano.

Pablo Iglesias acusou a receção da mensagem e impôs as suas condições: um Governo de coligação com seis ou sete ministérios para o Podemos, incluindo um para o líder, ou seja, para ele próprio.

Mesmo tendo em conta as perdas (tem agora menos sete deputados do que aqueles que conquistou a 28 de abril), o Podemos continua a ter os assentos fundamentais para aprovar um Governo progressista e proporcionar uma maioria parlamentar estável, segundo um porta-voz do partido.

Quem já não será um “bloqueador” é Albert Rivera, que, ao início da tarde de segunda-feira, anunciou a sua demissão da liderança do Ciudadanos e o abandono da vida política e pública, vagando o seu lugar de deputado.

“Deixo a política em coerência com o que sou. Quero ser feliz”, disse. Mas não virou costas sem, também ele, deixar recados: “Como moderado, estou preocupado com o país que precisa agora de ser governado. Àqueles que têm de tomar decisões desejo sorte e muito sucesso. Que não se permita que este país volte ao tempo dos vermelhos [PSOE] e azuis [PP], ao sectarismo. É o momento de unir os espanhóis”.

“Não podemos integrar o discurso de extrema-direita”

O Ciudadanos ficou deslaçado, passando de 57 para 10 deputados e perdendo mais de dois milhões e meio de votos pelo caminho. O grande beneficiário foi o Vox, de Santiago Abascal, que viu os votos do Ciudadanos serem transferidos para o seu partido de extrema-direita.

O Vox mais do que duplicou o número de deputados (tem agora 52) e passou da quinta para a terceira força política em Espanha. Foi aí que José Luis Ábalos traçou a linha vermelha dos socialistas: “Não podemos integrar o discurso de extrema-direita”.

Ahora Madrid / Flickr

Pablo Iglesias, líder do Unidas Podemos

“O tabuleiro político continua com um elevado grau de incerteza quanto ao futuro da governabilidade do país. Um tabuleiro político que mostra muito poucas alianças possíveis e viáveis à partida”, comentou ao Expresso o consultor político espanhol Alex Comes, para quem “é praticamente impossível a tomada de posse de um primeiro-ministro numa primeira votação”.

“A não ser que haja uma grande coligação entre o PSOE e o PP, algo que parece altamente improvável vendo o panorama geral”, concedeu. Este cenário já foi afastado pelos socialistas. “Não vamos apostar num Governo de grande coligação, com uma direita que não assume a sua responsabilidade”, atirou José Luis Ábalos. E o PP deixou igualmente claro que não facilitará um Governo de Pedro Sánchez.

Numa segunda votação, em que Pedro Sánchez só precisaria de uma maioria simples para ser investido, “o PSOE necessitaria dos votos favoráveis – ou da abstenção – do Podemos, Más País [uma dissidência do Podemos], ERC [Esquerda Republicana da Catalunha] e PNV [Partido Nacionalista Basco]”, referiu o consultor.

Mas a ERC já exigiu a um Pedro Sánchez que negoceie “a autodeterminação e a amnistia” dos líderes independentistas recentemente condenados, caso queira que o partido facilite a sua investidura. Em causa está a condenação pelo Supremo Tribunal de Espanha de nove dirigentes catalães a penas entre os nove e os 13 anos de prisão.

Sem detalharem planos, mas assegurando que os têm, os socialistas pedem aos restantes partidos “generosidade” e “responsabilidade” para que os deixem governar. “Estaremos em condições para, muito em breve, fazermos uma proposta de diálogo”, garantiu a vice-presidente do Governo em funções, Carmen Calvo, em declarações à rádio Cadena SER.

Fernando Alvarado / EPA

Albert Rivera, ex-líder do Ciudadanos, durante uma manifestação em Madrid

Neste ponto, com uma porta entreaberta do PSOE ao Podemos e ao Ciudadanos, Alex Comes não deixa de lembrar o agora ex-partido de Albert Rivera, que “passou de roçar a vice-presidência de um Governo, num hipotético pacto com Sánchez em abril, à demissão do líder hoje mesmo de todos os seus cargos”.

“Votaremos contra qualquer Governo do PSOE”

O futuro continua a ser “uma incógnita”, reforçou o consultor, e “dependerá também do peso que o Vox terá no novo tabuleiro político”. O partido anunciou que vai recorrer ao Tribunal Constitucional para apresentar “aquelas leis com que não concorda, fazendo um terrível trabalho de oposição e colapsando o sistema judicial espanhol”.

Ana Isabel Xavier, professora e investigadora da Universidade Autónoma de Lisboa e do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, não faz uma leitura “alarmista nem catastrófica” do resultado dilatado da extrema-direita.

“O Vox tem beneficiado de uma dupla dinâmica. Primeiro, da falta de clareza de Sánchez sobre o projeto de futuro para a Catalunha, que, até agora, tem ido apenas no sentido de incorporar no Código Penal um novo delito para proibir, de uma vez por todas, a celebração de referendos ilegais. Segundo, do descrédito generalizado da direita protagonizada tradicionalmente pelo PP. Abascal acaba por se assumir não só como a direita alternativa (ao PP), mas também como o protagonista de um nacionalismo mais moderado, em comparação com Iglesias, assente na ordem constitucional e numa democracia consolidada”, referiu a investigadora ao Expresso.

Santiago Abascal demarcou-se de qualquer “responsabilidade” quanto à governabilidade. “Os espanhóis votaram em nós para fazermos oposição. Nós votaremos contra qualquer Governo do PSOE”, frisou na segunda-feira o líder do Vox.

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O líder do Vox, Santiago Abascal

Voltando ao bloqueio, Ana Isabel Xavier considera que os partidos que menos condições têm para o protagonizar são o Ciudadanos, entretanto sem líder, e o Unidas Podemos. “Qualquer força de bloqueio por parte destes dois partidos reforçará a sua irrelevância política, embora o que os separa seja muito mais do que o que os une”, disse.

E rematou: “Iglesias quer servir de ponte entre independentistas e socialistas mas moderação não é apanágio do Podemos”.

O PP, que saiu reforçado como segundo partido político (passou de 66 para 88 deputados), só reunirá a sua comissão executiva esta terça-feira para discutir os resultados eleitorais. Contudo, o seu líder, Pablo Casado, já fez questão de lamentar a saída de Albert Rivera do Ciudadanos, enquanto o secretário-geral dos populares, Teodoro García Egea, sublinhou: “O PP não fará de Sánchez presidente [do Governo] em caso algum”.

Taísa Pagno ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. Este Sanchez dizia, na anterior eleição, que nem dormiria se tivesse que aceitar o líder do Podemos, numa coligação governamental. Agora, foi logo a correr à procura dele, para fazer um acordo de governo. Então agora já pode dormir ? Estes gajos querem o poder a qualquer custo ! Grandes parasitas.

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