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Pequenas aldeias italianas correm o risco de ficar sem população devido à covid-19

Coshipi / Flickr

Vila de Sambuca, em Itália

Na semana passada, o governo italiano introduziu um novo confinamento para combater a propagação do coronavírus no país. A maior parte das medidas foram direcionadas para as grandes cidades, mas em todo o país há milhares de pequenas aldeias a lutar para sobreviver.

Itália conta com 8000 pequenas vilas, sendo que 70% destas têm uma população inferior a 5000 habitantes. Nestas cidades, o mais preocupante é o envelhecimento da população, pois é maioritariamente composta por idosos. Normalmente, nestas zonas, o nascimento de um bebé é tão raro que os sinos tocam cada vez que surge a notícia.

Para complicar ainda mais a situação demográfica das pequenas regiões, algumas delas foram declaradas “zonas vermelhas” devido ao novo coronavírus – o que significa que o risco de infeção é particularmente alto.

“A desertificação demográfica já havia afetado essas cidades antes da covid”, sublinhou Mario Alvano, secretário-geral da Associação Nacional de Municípios Italianos na Sicília. “São pequenas aldeias que já estavam destinadas a se tornarem cidades fantasmas em apenas algumas décadas, onde a taxa de natalidade é 30 vezes menor que a taxa de mortalidade. Agora a covid aumenta o risco de acelerar a morte da população”, diz Alvano.

A cidade de Galati Mamertino, na Sicília, que foi também designada como zona vermelha, viu 157 dos seus 2400 habitantes ficarem infetados. Os especialistas concordam que surtos deste tipo são o resultado da proximidade entre os habitantes da cidade, o que é típico da vida social nessas zonas.

Tullio Prestileo, médico do hospital Benfratelli, em Palermo, relembra que “nas pequenas aldeias, as relações entre parentes e amigos são intensas. Aqui a impressão de que um amigo ou parente pode nos infetar é muito menor do que nas grandes cidades. Muitas vezes acredita-se que a localização isolada das aldeias é uma forma de proteção contra a transmissão e que este é um problema urbano”.

No entanto, ao longo dos anos, na tentativa de ressuscitar alguma pequenas cidades, os dirigentes apresentaram várias estratégias.

No ano passado, o presidente de Sambuca (que tem apenas 5000 residentes) recebeu mais de 94 mil e-mails de todo o mundo, após anunciar publicamente a venda de casas abandonadas por 1 euro. Atualmente, Sambuca, na província de Agrigento, acaba de ser declarada “zona vermelha”, depois de um surto ter causado 130 casos positivos e 8 mortes.

“A venda das nossas casas por 1€ foi um gesto simbólico para trazer as pessoas de volta a Sambuca, porque as aldeias são feitas de pessoas e não de casas”, disse o vice-presidente da Câmara, Giuseppe Cacioppo.

Já Fabio Orlando, presidente do conselho municipal de Roccafiorita, destaca que “a morte de um dos nossos não é apenas um número. É uma perda de uma história, uma casa que fica abandonada e um caminho que está fechado e esquecido para sempre”.

Situada entre as florestas do Monte Kalfa, Roccafiorita é a mais pequena aldeia do sul da Itália. A idade média dos seus apenas 187 habitantes é de 60 anos. Aqui o vírus é visto com muito respeito pois se a covid-19 se espalhar pela população e tiver efeitos nefastos, a vila pode desaparecer.

Por enquanto, a ameaça de um surto em Roccafiorita foi evitada, depois de terem sido feitos testes em toda a população que deram negativo, avança o The Guardian.

Contudo, o medo do vírus permanece, até porque o hospital mais próximo com condições para acolher doentes covid fica a mais de 1 hora e 40 minutos da cidade.

Na aldeia, a luz no fim do túnel parece distante. Os habitantes idosos esperam por uma vacina, mas sabem que um inverno longo e árduo está por vir.

Um dos habitantes da vila, Salvatore Occhino, traduz este receio em palavras suas, através da escrita de um poema onde se pode ler o seguinte verso:

“Ora vi saluto tutti, Buonasera / Chi sopravviverà lo vedremo in Primavera”

(“Agora saúdo a todos, boa noite / Veremos quem sobrevive na primavera”).

  ZAP //

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