Ómicron provoca escalada de novos casos (e pressiona DGS a mudar regras)

Miguel A. Lopes / Lusa

Pessoas à espera, numa fila, para fazer um teste de deteção à covid-19

Há especialistas a pedirem a adoção de uma nova abordagem para combater a pandemia de covid-19. DGS decide redução do tempo de isolamento nas próximas horas, mas há mais mudanças em cima da mesa.

A Ómicron surgiu em Portugal há um mês e já configura uma das maiores preocupações do país em termos epidemiológicos.

O reflexo da ameaça da nova variante, mais transmissível, transparece nos números dos boletins diários da DGS: esta quarta-feira, Portugal atingiu um novo máximo, com quase 27 mil casos positivos de covid-19.

Tanto a Direção-Geral da Saúde como o Governo têm sido pressionados a alterar as regras de combate à pandemia. Segundo o Público, a Ordem dos Médicos (OM) e vários especialistas insistiram na adoção de novas formas de abordagem da epidemia, tendo em conta o crescimento do número de novos casos.

Além da redução do período de isolamento, os especialistas propuseram, ao longo desta terça-feira, a libertação dos profissionais dos centros de saúde de atos administrativos e burocráticos, como a emissão de baixas, e a realização de uma campanha de informação e esclarecimento da população.

Graça Freitas respondeu esta quarta-feira à noite, na RTP3, com a garantia de que serão decididas algumas alterações “nas próximas horas”, nomeadamente a redução do tempo de isolamento para os infetados assintomáticos.

A DGS está também a ponderar fazer uma proposta para que as pessoas que não tenham sintomas, mesmo tendo testado positivo, fiquem “em autovigilância”, ligando para a linha SNS24 apenas se estes surgirem.

O seguimento das pessoas infetadas que estão em casa “compromete significativamente” todas as outras atividades assistenciais dos médicos de família, entende a OM e a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (ANMGF).

“A prioridade imposta aos médicos de família de acompanharem os ‘indivíduos covid-19’ positivos assintomáticos ou com sintomas ligeiros impossibilita o seguimento de doentes com maiores necessidades em saúde, como as pessoas com diabetes, doenças respiratórias crónicas e doença cardíaca, com impacto superior na morbilidade e na mortalidade”, explica a ANMGF.

Mudança da política de rastreio

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes defende a necessidade de uma “mudança de paradigma” que inclua, especificamente, a mudança da atual política de rastreio.

“Temos que perder a ilusão de que podemos fazer o rastreio exaustivo dos contactos, até porque já não o estamos a fazer. O meu colega Carlos Antunes [matemático] estima que haja 22 a 24 mil casos diários (média a sete dias) na próxima semana, o que significa que precisaríamos de cerca de dois mil rastreadores [para quebrar as cadeias de transmissão], quando temos cerca de 500”, explicou.

“Portanto, é irrealista pensar que vamos rastrear todos os contactos. Vamos pôr os pés na terra e definir prioridades, apostando, por exemplo, no rastreio dos contactos de pessoas idosas e fragilizadas”, acrescentou o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Por outro lado, para os níveis de novos casos estimados para a próxima semana, “precisaríamos de fazer cerca de 300 mil testes por dia e isto é incomportável”.

Carmo Gomes propõe, então, que as pessoas mais jovens e sem doenças crónicas que tenham tido contacto com um infetado façam autotestes e que, em caso de positividade, se isolem. Se o resultado for negativo, continuem “a sua vida normal”.

Segundo o Público, o especialista também recomenda a redução do número de dias de isolamento, a desmaterialização das baixas médicas, “uma campanha agressiva de esclarecimento da população” e o reforço da linha SNS24 para evitar a sobrecarga dos centros de saúde e dos hospitais.

Em relação à tese da imunização natural que defendeu em entrevista à Lusa, Carmo Gomes explicou que o pretendeu dizer é que “talvez faça sentido, atendendo à realidade, aos números, permitir que a Ómicron circule de forma controlada, não muito depressa, se se confirmar que não é tão patogénica como a Delta”.

“Já estamos a deixar que a Ómicron circule porque não conseguimos rastrear contactos e porque há pessoas que não conseguem marcar testes com rapidez, demoram dias”, entende o especialista, que defende também a monitorização do impacto na hospitalização, na doença grave e nas mortes.

  Liliana Malainho, ZAP //

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