Metade do Reino Unido pode estar infetado. EUA criam plano de 1,85 biliões para relançar economia

Maxim Shipenkov / EPA

O número de infetados pelo coronavírus no Reino Unido pode ser muito superior aos casos contabilizados pelas autoridades, revelou um estudo da Universidade de Oxford, sugerindo que o SARS-CoV-2 já pode ter contagiado até metade da população britânica.

Em declarações ao Financial Times, citado pelo Observador, os autores do estudo, especialistas que estudam a evolução de infeções, indicaram que, caso esta teoria se confirme, apenas uma pessoa em cada mil tem sintomas suficientemente fortes para procurar tratamento hospitalar. Para confirmar a suspeita, só mesmo fazendo o teste.

As conclusões deste relatório diferem das divulgadas pelo Imperial College London – usado pelo Governo britânico na criação das medidas de prevenção. De acordo com a investigação de Oxford, o coronavírus entrou no país em meados de janeiro e espalhou-se dentro das comunidades durante um mês, sem ser identificado.

Caso se confirmem as conclusões da Universidade de Oxford, o Reino Unido pode ser um caso de imunidade de grupo, em que houve um número suficiente de cidadãos infetados a ganhar imunidade ao coronavírus. Esta opção foi abandonada pelo primeiro-ministro Boris Johnson para que o  sistema de saúde britânico pudesse responder ao vírus.

Contudo, segundo o Financial Times, se os dados de Oxford forem reais, as medidas restritivas podem ser levantadas mais cedo do que é suposto. O estudo, contudo, ainda não foi revisto nem testado pelos pares e os cientistas não concluíram se o organismo humano ganha imunidade ao vírus após recuperar da infeção.

Plano de 1,85 biliões de euros para economia

O chefe da maioria republicana no Senado dos Estados Unidos (EUA) anunciou esta quarta-feira um acordo com os democratas e a Casa Branca de dois biliões de dólares (1,85 biliões de euros) para relançar a primeira economia mundial, atingida pela pandemia.

Segundo noticiou a agência Lusa, o plano terá de ser aprovado pela Câmara dos Representantes, cuja maioria é democrata, antes de ser promulgado pelo Presidente Donald Trump. “Após dias de intensas discussões, o Senado chegou a um acordo entre os dois partidos [democrata e republicano] sobre um plano histórico (…). Aprovaremos este texto ainda hoje”, afirmou o senador republicano Mitch McConnell.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os EUA caminham para ser o novo epicentro da pandemia, depois da China e da Europa. Como avançou o Expresso, os dados mais recentes apontam para mais de 53 mil infetados e 686 mortos no país.

Apesar dos números, Trump declarou que pretende “aliviar as diretrizes” de distanciamento social por volta da Páscoa, vislumbrando já “o fim da batalha histórica com o inimigo invisível”. O administrador de saúde pública dos EUA, Jerome Adams, sublinhou que a situação ainda irá piorar bastante no país antes de melhorar.

O novo coronavírus já infetou mais de 400 mil pessoas, das quais morreram cerca de 18 mil. Depois de surgir na China, em dezembro, espalhou-se por todo o mundo, o que levou a OMS a declarar uma situação de pandemia.

República Checa avança com geolocalização

A República Checa tornou-se na terça-feira no primeiro país europeu a anunciar planos para implementar uma ferramenta de geolocalização para combater a pandemia, um método de sucesso na Coreia do Sul que causa preocupações a outros países europeus, revelou a Lusa.

A medida anunciada pelo chefe de uma equipa de crise do Governo checo vai utilizar dados de localização em tempo real através de telemóveis, de forma a rastrear os movimentos de portadores do novo coronavírus e com quem entram em contacto. O lançamento da aplicação está previsto para abril.

Roman Pilipey / EPA

O objetivo é identificar em que locais as infeções estão a aumentar, como se espalham e quando as autoridades de saúde precisam de implementar quarentena ou outras medidas de confinamento, como forma de limitar a disseminação da covid-19.

A Grã-Bretanha, a Alemanha e a Itália estão entre os países que consideram utilizar dados individuais de localização na luta contra a pandemia, o que preocupa os defensores da privacidade, que temem que a vigilância omnipresente possa vir a ter uma utilização abusiva, na ausência de uma supervisão cuidadosa, com consequências potencialmente terríveis para a liberdade civil.

“Estes são tempos difíceis, mas que não exigem novas tecnologias não testadas”, disse um grupo de ativistas maioritariamente britânicos, numa carta aberta ao Serviço Nacional de Saúde do país, na qual acrescenta que essas medidas colocam em causa os direitos humanos e podem não funcionar.

As autoridades checas disseram que vão usar os dados de operadoras móveis numa aplicação para telemóvel voluntária, no qual os movimentos das pessoas com resultados positivos do coronavírus vão ser mapeados, assim como as pessoas com quem se cruzaram nos últimos cinco dias, que serão contactadas por telemóvel para que sejam testadas.

Esta nova ferramenta marca um distanciamento substancial dos esforços existentes na União Europeia (UE), que se concentram em seguir o movimento das pessoas com dados agregados de localização, projetados para não as identificar.

Na segunda-feira, o diretor do Instituto Superior de Saúde de Itália usou o exemplo do modelo sul-coreano de geolocalização para combater a epidemia, afirmando que os asiáticos “conseguiram identificar e isolar os sujeitos em risco e criaram aplicações que permitiram aos cidadãos conhecer áreas de maior trânsito de pessoas contagiadas, de maneira a evitá-las”.

Ainda na semana passada, o Governo de Israel deu o passo mais extremo até agora, recorrendo à agência de segurança nacional Shin Bet para usar os dados de localização dos ‘smartphones’ para rastrear movimentos dos portadores do vírus nas duas semanas anteriores, utilizando dados dos históricos para identificar possíveis transmissões.

O esforço israelita e a recém-anunciada iniciativa da República Checa vão muito além do que os governos europeus estão a receber atualmente das operadoras de comunicação para identificar hotspots da doença e concentração humana.

Embora existam salvaguardas legais na maioria das democracias para proteger a privacidade digital, o perigo da covid-19 pode rapidamente levar os legisladores políticos a modificá-las. Na sexta-feira, a Autoridade Europeia para a Proteção de Dados aprovou a interrupção da privacidade durante a emergência de saúde pública.

A Polónia introduziu uma aplicação mais invasiva – as instruções dizem que é voluntário – para impor a quarentena de 14 dias a cerca de 80 mil pessoas. Os defensores de privacidade estão preocupados que o Governo a use para preencher um banco de dados com as fotografias localizadas geograficamente que obriga os utilizadores a tirar.

Os europeus estão a examinar atualmente o modelo sul-coreano de rastreamento, que envolve o uso de informações pessoais, como a imigração, transportes públicos e registos de cartão de crédito, além do rastreamento da localização por GPS.

O Governo de Seul divulgou tantos dados pessoais ostensivamente anónimos que detetives digitais foram capazes de identificar portadores do novo coronavírus com base em informações como os lugares que os pacientes visitaram antes de testarem positivo.

Franck Robichon / EPA

Algumas pessoas boicotaram negócios, estigmatizaram infetados e usaram dados para rastrear supostas infidelidades conjugais. Na sexta-feira, o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da Coreia do Sul disse estar a elaborar novas diretrizes para reduzir os abusos.

Índia em quarentena e Itália em colapso

Mais 1,3 mil milhões de pessoas ficaram na terça-feira em quarentena na Índia, depois de o primeiro-ministro Narendra Modi ter decretado o “isolamento total” durante 21 dias, referiu o Expresso.

Na Europa, a Itália regista 69.176 infetados e mais 743 mortes, totalizando 6.820 vítimas mortais. Um estudo sugere que os primeiros casos em Itália datam de 01 de janeiro, enquanto a Proteção Civil nacional diz que os infetados podem ser 600 mil.

Em Espanha, em apenas 24 horas, houve cerca de meio milhar de novas mortes. Há quase 40 mil casos de infetados e o número total de óbitos já ultrapassa os 2.800. O Ministério da Defesa pediu ajuda à NATO para combater o surto, solicitando assistência humanitária, nomeadamente para o fornecimento de material sanitário que escasseia no país.

Já em França, foi declarada quarentena até ao final de abril. Enquanto isso, na terça-feira, foi noticiado que cerca de seis milhões de máscaras destinadas à Alemanha desapareceram no Quénia.

Na província chinesa de Hubei, os residentes foram autorizados a sair de casa e os serviços de transporte ferroviário vão recomeçar a funcionar esta quarta-feira, com exceção de 17 estações na capital provincial de Wuhan. Um estudo secreto do Governo de Pequim alerta que a China pode ter muito mais infetados do que revelam os números oficiais.

A Venezuela reforçou as restrições à circulação de pessoas, Cuba colocou os turistas em quarentena, o Peru projetou quatro milhões antes de decretar o confinamento, as Filipinas aprovaram a emergência nacional e reforçaram os poderes presidenciais. Em África, o vírus já causou 58 mortes e há quase dois mil casos.

ZAP //

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