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Entre a pandemia e os preços da energia, Marcelo alerta que chumbo do OE criaria “mais um problema”

Rodrigo Antunes / Lusa

O Presidente da República reiterou, esta sexta-feira, que deseja evitar uma crise política criada por um eventual chumbo do Orçamento de Estado, porque “só juntaria um problema” à pandemia e à subida dos preços dos combustíveis.

“Eu desejava e desejo, esperava e espero, que o Orçamento passe, não tanto por questões de pormenor, mas porque olho para o mundo, olho para a Europa, vejo que a recuperação está a começar, vejo que a pandemia está em muitos casos, aqui mesmo [no Reino Unido], a voltar, vejo que a situação se está a agravar, vejo que os preços da energia estão a subir. Vejo, portanto, muitos problemas no horizonte“, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas, após uma visita à exposição retrospetiva das obras da artista portuguesa Paula Rego, no museu Tate Britain.

O chefe de Estado acrescentou de seguida: “Uma crise política só juntaria mais um problema aos problemas que temos e por isso desejava e desejo, esperava e espero que seja possível ter um Orçamento”.

“Não é por acaso que na nossa história política não há muitos casos de um Orçamento chumbado”, enfatizou.

Marcelo Rebelo de Sousa mostrou-se convicto de que no início da próxima semana será possível saber se os partidos chegaram a um entendimento com o Governo para deixar passar o Orçamento, que vai a votação na Assembleia da República na quarta-feira.

O Presidente afirmou que não pretende voltar a chamar os partidos, e que tem acompanhado “à distância” os contactos as reuniões partidárias para desbloquear a situação.

“Esse é o momento de um diálogo entre partidos e partidos e Governo. O Presidente da República agora aguarda para ver o epílogo desses contactos e ver o sentido da votação”, vincou.

“Não podemos ter recaídas, seriam fatais”

Também hoje, mas numa conversa com o seu homólogo angolano, João Lourenço, por videoconferência, transmitida na quarta edição do Fórum Euro-África, Marcelo defendeu que Portugal tem de “superar bem” esta crise provocada pela pandemia, sem “ter recaídas”, que “seriam fatais”.

“Se tudo correr bem, daqui a um ano ou menos de um ano estaremos a discutir cada vez mais o pós-pandemia. E é esse o grande desafio de quem está a participar neste fórum hoje: não se esquecer de que é preciso superar bem a pandemia, não podemos ter recaídas. Não podemos ter recaídas, seriam fatais”, reforçou.

O chefe de Estado considerou que “não se pode perder tempo” na recuperação económica e social e que essa “é uma das lições da pandemia”.

“Para recuperarmos e darmos um salto qualitativo, na transição da energia, na transição do digital, nas formas de financiamento do futuro económico a curto prazo, em novos estatutos e novas formas de investimento – e aí a imaginação dos empresários, da sociedade civil é crucial – não se pode perder tempo“, disse.

No início desta conversa com o Presidente de Angola, Marcelo Rebelo de Sousa assinalou que “boa parte do mundo ainda está em pandemia”, o que apontou como “uma questão prévia fundamental quando se fala de desenvolvimento económico, desenvolvimento social”, que “muitas vezes se não compreende, sobretudo na Europa”.

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“Em muitos países europeus, nomeadamente do Leste europeu, em muitos países africanos, asiáticos, americanos, nomeadamente latino-americanos, a pandemia existe. Existe e condiciona o arranque económico, o arranque social”, referiu, acrescentando mais à frente: “Hoje ainda estamos a discutir esta realidade, porque ela está aí”.

Dirigindo-se aos “empresários, gente do mundo do trabalho, responsáveis públicos” participantes neste fórum, o Presidente da República chamou a atenção para “o atraso na recuperação de grandes economias”, como a República Popular da China, “que está a produzir para o mercado interno, mas ainda não está a exportar o que exportava”, os Estados Unidos e “vários países e economias importantes na Europa”.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, “isso que está a ocorrer, e está a ocorrer um pouco por todo o mundo, tem a ver com o facilitar-se, considerar-se que o problema da pandemia está ultrapassado”.

Por outro lado, no plano da saúde pública, no seu entender “não se pode facilitar na testagem”.

“Para o funcionamento das escolas, para o funcionamento da atividade económica, para certas reuniões mais amplas às vezes familiares ou outras de natureza socioprofissional ou social, a prática da testagem – naturalmente não da forma intensiva com que aconteceu em fases anteriores – é muito importante, para irmos monitorizando a evolução da situação”, defendeu.

Partilha de vacinas “ainda é insuficiente”

O chefe de Estado considerou ainda que a partilha de vacinas contra a covid-19 “ainda é insuficiente” e afirma que a União Europeia e Portugal querem acelerar o processo.

“Eu devo dizer que este esforço internacional, quer da comunidade internacional como um todo, correspondendo ao apelo do secretário-geral das Nações Unidas António Guterres, quer na União Europeia, ainda é insuficiente. A Covax tem feito muito em termos de objetivos, mas a concretização tem sido insuficiente. No caso africano é patente isso, mas é à escala global”, considerou.

“No que respeita à União Europeia, a ideia é acelerar o processo. E, no caso português, continuar a acelerá-lo no futuro próximo.”

“Tudo o que seja apelar na comunidade mundial e na UE a maior solidariedade, a maior rapidez, a maior eficácia é muito importante, porque todos dependemos de todos“, defendeu.

Sobre esta matéria, o chefe de Estado começou por dizer que a União Europeia “foi, a seguir à Ásia, a segunda realidade atingida” pela pandemia de covid-19 e que “teve um arranque complicado, na primavera do ano passado”.

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“Mas rapidamente percebeu que estamos perante um fenómeno global em que tem de haver solidariedade internacional“, prosseguiu Marcelo Rebelo de Sousa, “e daí ter fixado quanto à partilha de vacinas uns milhões apreciáveis, 335 milhões, para distribuição, na sua maioria via Covax”.

“Portugal tomou a iniciativa de, primeiro relativamente a um milhão de vacinas, e agora tem a meta de três milhões de vacinas, privilegiar naturalmente os Estados irmãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). E com algumas exceções, poucas, duas ou três exceções, naturalmente tem concentrado aí a sua energia”, referiu.

No seu entender, “a nível europeu tem havido assimetrias, isto é, desigualdades: há países com contributos mais fortes, há países com contributos mais fracos, atendendo à sua situação interna”.

O Presidente da República apontou as vacinas como “a solução possível para o controlo da pandemia” de covid-19: “Não há outras soluções para já. Esta tem sido a solução”.

“E onde há uma cobertura massiva de vacinação isso nota-se na vida das sociedades. Não resolve o problema como uma varinha mágica de um momento para o outro, mas dá uma ajuda decisiva à resolução”, assinalou.

  ZAP // Lusa

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