Itália levou OMS a acreditar que o país tinha capacidade para responder à pandemia de covid-19

Alejandro Garcia / EPA

Menos de três semanas antes de ter sido confirmado o primeiro caso de covid-19 transmitido localmente em Itália, o país terá levado a Organização Mundial da Saúde (OMS) a acreditar que estaria pronto para enfrentar uma pandemia.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, os países vinculados ao Regulamento Sanitário Internacional – um tratado para combater a propagação de doenças – têm de apresentar uma auto-avaliação à OMS sobre o seu nível de preparação para uma emergência de saúde pública.

O último relatório italiano foi entregue a 4 de fevereiro do ano passado e garantia que o país estava muito bem preparado para uma emergência, atribuindo nota máxima (5 em 5) à categoria que afirma que o “mecanismo de coordenação de resposta de emergência do setor da saúde e o sistema de gestão de incidentes ligados a um centro nacional de operação de emergência foram testados e atualizados regularmente”.

No entanto, isso não era verdade. Ainda no ano passado, soube-se que Itália não atualizava o plano nacional para fazer face a pandemias desde 2006, o que pode ter contribuído para muito mais mortes na primeira vaga do que seria normal se esses protocolos estivessem em vigor – pelo menos mais 10 mil.

O relatório é, segundo o jornal britânico, essencial para a investigação em curso de procuradores italianos, que procuram perceber os erros que foram cometidos pelas autoridades do país durante a primeira vaga, na sequência de uma ação civil movida pelas famílias das vítimas da covid-19.

A primeira transmissão local de coronavírus em Itália foi confirmada no dia 21 de fevereiro de 2020 na cidade de Codogno, na Lombardia, e dois dias depois ocorreu um surto no hospital da cidade de Alzano Lombardo, em Bergamo.

Conte, que foi interrogado pelos procuradores em junho passado, disse ao The Guardian que, se convocado, estaria disposto a ser interrogado novamente, mas que fez tudo o que podia para gerir uma situação realmente difícil.

Giuseppe Ruocco, atual secretário-geral do Ministério da Saúde e antigo diretor-geral de saúde preventiva (2012-2014), terá confirmado que o plano para a pandemia não era atualizado há 14 anos, o que contraria as diretrizes da OMS.

Numa análise do documento, Pier Paolo Lunelli, um general reformado do exército que investigou o assunto, considerou 60 das 70 respostas fornecidas pelo país “infundadas”.

Segundo Lunelli, que entregou a sua análise ao Ministério Público, o documento é “um castelo de evidências que certifica o [nível de] despreparo com que” o país abordou a covid-19.

“Mentimos aos cidadãos italianos, alegando que estávamos prontos”, acrescentou Lunelli. “Pior ainda, tentamos enganar a OMS, a UE e os países europeus ‘providentes’, declarando possuir capacidades que, à luz dos factos, não tínhamos”, concluiu.

Até ao momento, Itália acumula perto de 96 mil mortes por complicações associadas à covid-19. De acordo com a plataforma Our World in Data, que se baseia em dados oficiais, estão em causa 1.587 mortes por cada milhão de pessoas, o que coloca o país no quinto lugar deste ranking.

Sofia Teixeira Santos, ZAP //

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