Graça Freitas admite possibilidade de nova vaga em Portugal (e reconhece que pensou em desistir)

Mário Cruz / Lusa

A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas

Em entrevista à RTP3, a diretora-geral da Saúde lamentou os “números açambarcadores” de mais de 16 mil mortos e 800 mil casos associados à covid-19, em especial o drama vivido no último mês de janeiro.

Graça Freitas admitiu que Portugal pode voltar a enfrentar uma nova vaga da pandemia de covid-19 nos próximos meses, mesmo com a atual campanha de vacinação em curso e sublinhou que, se pudesse voltar atrás no tempo, alteraria algumas das medidas que foram tomadas no combate à pandemia.

“Uma nova escalada do vírus está em cima da mesa, mesmo com a vacina”, reconheceu numa entrevista à RTP3, sublinhando: “O vírus sofre mutações. Não estamos livres disso, apesar da vacina. E não sabemos quanto tempo vai durar a imunidade, se vai proteger contra novas variantes ou como vai funcionar a imunidade natural”.

Questionada sobre os critérios de avaliação que devem orientar a definição do plano de desconfinamento, Graça Freitas realçou a diversidade de metodologias adotadas entre os países e salientou que não existe uma “receita” única pela qual todos podem copiar. No entanto, não deixou de apontar a primazia de quatro critérios.

“Os quatro indicadores que estão a ser mais ponderados – e que não excluem outros – são: incidência cumulativa a 14 dias, taxa de positividade, ocupação de camas em unidades de cuidados intensivos e o Rt [índice de transmissibilidade]”, frisou. A este nível sublinhou que Portugal está com um Rt “baixo” e com “uma taxa de positividade inferior a 4%”, mas relembrou a situação preocupante em internamentos e confessou que ainda é preciso “baixar um bocadinho” a incidência.

“Temos de consolidar todos estes valores e esperar ainda que alguns deles melhorem. Gostaríamos que a incidência baixasse mais para termos mais conforto. É preciso ter alguma cautela. Estes desconfinamentos nos outros países também estão a ser faseados”, notou.

Entre as maiores preocupações do confinamento está o encerramento das escolas e as consequências que esta situação pode ter nos alunos, com Graça Freitas a vincar que “a cautela aconselharia a que fosse uma abertura faseada, começando pelos graus de ensino com alunos mais novos”, embora tenha assinalado que não é uma decisão da sua responsabilidade.

A responsável da DGS assegurou que está previsto o arranque da testagem nas escolas com a retoma das atividades letivas e que os rastreios podem ser alargados em função do que for encontrado, mas deixou uma mensagem aos especialistas que defendem a testagem maciça como a solução para o combate à pandemia: “Os testes não são tratamentos nem vacinas”.

Já sobre a vacinação, Graça Freitas reconheceu que “o primeiro trimestre vai ficar aquém das expectativas”, por força da falta de disponibilidade de vacinas, mas mostrou esperança no cumprimento da meta de 70% da população vacinada até final de agosto.

Neste sentido, e questionada sobre os casos de vacinação indevida, Graça Freitas preferiu enaltecer as virtudes do plano de vacinação, mas não escondeu alguma mágoa com o impacto destas falhas: “A vacinação tem tanta potencialidade e tem tido coisas que têm corrido tão bem, que tenho muita pena que episódios iniciais menos bons possam não ter feito ver todas as potencialidades que a vacinação tem.”

Quanto a um eventual alargamento da utilização da vacina da AstraZeneca a pessoas com mais de 65 anos, a diretora-geral da Saúde não exclui a revisão que já está a avançar em alguns países. “À medida que vamos tendo mais informação de outros países, não o pomos de parte, porque permite vacinar mais rapidamente grupos mais velhos”, disse.

“Aconteceu uma avalanche”

Depois de passar em revista um ano de pandemia, que considerou ter sido “muito intenso” e “trágico”, durante o qual assumiu ter tido “momentos” em que pensou desistir, Graça Freitas lamentou os “números açambarcadores” de mais de 16 mil mortos e 800 mil casos associados à covid-19, em especial o drama vivido no último mês de janeiro, em que Portugal bateu máximos de óbitos e infeções.

“Aconteceu uma avalanche. Juntaram-se alguns fatores importantes e, por vezes, não se consegue prever a sinergia dos fatores. Tínhamos uma nova variante a circular, que aumenta a velocidade de propagação, estávamos no inverno e tivemos temperaturas extremamente frias, mas não havia uma previsão com uma dimensão destas. O que esperaríamos era uma terceira onda um bocadinho maior do que a segunda. O rasto que deixou é devastador”, concluiu.

Questionada sobre o regresso dos eventos culturais, com ênfase para os festivais de Verão, Graça Freitas relembra que a Inglaterra está a equacionar realizar eventos com público, garantindo que Portugal estará atento às conclusões que resultarem destes testes.

Porém, deixa claro que ainda é “muito cedo” para dizer taxativamente se estes eventos se irão realizar: “Vamos ter ali [em Inglaterra] um laboratório, bem como em outros países. Conseguiremos ver como foi o impacto disso, espetáculos com muita gente”, afirma.

Relativamente ao futebol, a diretora-geral da Saúde elogiou o cumprimento de regras nos testes-piloto, não colocando um prazo para o regresso dos adeptos às bancadas.

Em Portugal, morreram 16.430 pessoas dos 806.626 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

ZAP // Lusa

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5 COMENTÁRIOS

  1. Esta senhora já desistiu há muito tempo. Se ela pensa desistir agora, não se vai notar nada, tal é a sua nulidade. Foi a tal abécula que dizia que não era preciso usar máscaras.

  2. “porque permite vacinar mais rapidamente grupos mais velhos.” (sic)
    Muito bem senhora ministra. O que interessa no seu curriculo é que nele conste que todos os velhos foram vacinados, independentemente de que essa vacina valha alguma coisa ou não. Já agora sugiro-lhe: Vacine toda a gente só com a água de diluição das mesmas. Vai ver, fica muito mais barato e dá para todos os velhinhos acima dos 65 anos e ainda sobra alguma para si…

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