Governantes vacinados na próxima semana. Enfermeiros estão contra

Hugo Delgado / Lusa

A ministra da Saúde anunciou, esta segunda-feira, depois da reunião com a task-force responsável pelo plano de vacinação contra a covid-19, que os titulares de órgãos de soberania vão começar a ser vacinados na próxima semana.

Segundo o Diário de Notícias, que teve acesso ao despacho emitido pelo primeiro-ministro, entre as pessoas que começam a ser vacinadas na próxima semana incluem-se os titulares de órgãos de soberania e os deputados e os funcionários da Assembleia da República.

Mas também os elementos da Presidência da República, “as secretarias-gerais do Sistema de Segurança Interna e do Sistema de Informações da República, o chefe do gabinete do primeiro-ministro”, a Provedora de Justiça, os membros do Conselho de Estado, a magistratura do Ministério Público, os membros dos órgãos próprios das Regiões Autónomas e os presidentes de Câmara.

António Costa já enviou cartas aos órgãos de soberania para que sejam estabelecidas as devidas prioridades para a inoculação em cada um dos serviços.

“De modo a que se possa programar com precisão este processo é essencial definir, entre estes titulares, a indispensável ordem de prioridade, tendo em conta a limitada quantidade de doses disponíveis em cada semana”, escreveu o chefe do Executivo na carta enviada ao presidente da AR, Eduardo Ferro Rodrigues, a que o DN teve acesso.

Na missiva, Costa diz que também já estabeleceu prioridades dentro do Governo, “tendo em conta as competências na tutela de serviços essenciais, no combate à pandemia ou no exercício da Presidência Portuguesa da União Europeia”.

Assim sendo, o próprio primeiro-ministro está no topo dessa lista, seguindo-se os ministros de Estado, da Defesa, da Administração Interna, da Justiça, do Trabalho, da Saúde, do Ambiente e das Infraestruturas.

Só depois destes membros do Executivo surgem os secretários de Estado da Saúde e “os cinco secretários de Estado que exercem a função de coordenação regional no combate à pandemia”, bem como a secretária de Estado dos Assuntos Europeus e, posteriormente, os restantes governantes, cita o diário.

Depois da conferência de imprensa da ministra, os enfermeiros reagiram com indignação à decisão de colocar os titulares de órgãos de soberania nos grupos prioritários.

Não aceitamos que os órgãos de soberania sejam vacinados primeiro do que todos os enfermeiros que trabalham no SNS, em regime liberal ou em estabelecimentos de saúde privados. É inadmissível que aqueles que cuidam e estão em contacto direto com os doentes sejam preteridos em prol dos que exercem cargos políticos e que podem desempenhar as suas funções em regime de teletrabalho”, afirmaram os dirigentes da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros, citados pelo semanário Expresso.

“Não podemos permitir que os profissionais de saúde tenham de esperar até ao final de abril para receberem a primeira dose da vacina”, sublinhou ainda o presidente do conselho diretivo da Ordem dos Enfermeiros na região Centro, Ricardo Correia de Matos.

“Há milhares de enfermeiros, quer do SNS quer dos setores privado e social, que prestam serviços como trabalhadores independentes que, até ao momento, ainda não foram inoculados. Num momento em que a escassez de enfermeiros é assustadora, o Governo escolhe vacinar os seus próprios membros. Isto é inaceitável.”

“Não basta dizer que idosos vão ser incluídos no plano”

Na mesma conferência de imprensa, Temido anunciou que, tendo em conta os objetivos da Comissão Europeia, as pessoas com mais de 80 anos vão ser incluídas no plano de vacinação português.

A governante disse esperar que ainda esta segunda-feira, ou esta semana, a atualização do plano “fique concluída de forma a ter este novo grupo, que acresce aos que já estavam definidos”.

Em declarações ao Diário de Notícias, o professor catedrático jubilado e especialista em Saúde Pública, Constantino Sakellarides, e o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, defenderam que “não basta dizer que estas pessoas vão ser incluídas, é preciso ficar escrito, é preciso dizer como o vão fazer e com que vacinas”.

“Primeiro erram nos critérios, em segundo observam o que os outros países estão a fazer e não corrigem, em terceiro, e depois dos contínuos pedidos de peritos para reconsiderarem e discutirem a questão, mostram-se absolutamente intransigentes, e só ontem vêm dizer que vão alterar, devido à pressão social e política”, lamentou Sakellarides.

“A questão que se coloca aqui não é o que foi dito, mas a forma como uma questão fundamental no combate à pandemia tem vindo a ser abordada. Não sei como é que uma task force se pode conservar depois de tanto erro“, disse ainda o professor catedrático, sublinhando que “é preciso um plano novo e saber como se vai fazer essa vacinação”.

Miguel Guimarães manifestou-se satisfeito com a decisão, uma vez que tanto a Ordem como outros profissionais alertaram, desde o início, para a idade como um critério fundamental para a vacinação.

“Os maiores de 80 anos são prioritários. São eles que estão a morrer. De acordo com os números divulgados, só 30% das mortes nos idosos dizem respeito a residentes em lares, as outras mortes ocorreram fora deste meio. Portanto, há que proteger esta população.”

O bastonário alertou ainda para o facto de se estar a dizer que “os profissionais de saúde do SNS e os residentes em lares estão vacinados, quando só uma parte é que está”. “Isto não pode ser”, atirou.

Miguel Guimarães diz que já enviou à ministra “uma lista com os nomes de mais de 6.500 médicos, uns que trabalham nos hospitais do Estado, mas que não têm vínculo com o SNS, outros que trabalham no setor privado, e que destes nem meia centena foi vacinada, e os outros não sabem sequer quando o vão ser“.

ZAP ZAP //

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22 COMENTÁRIOS

  1. Afinal a “task force” é de facto uma “corruption force”! Igual ao que temos tido durante estes anos de pseudo-democracia.

  2. O povo português é mt pacifico. Os politicos não são tão importantes quanto eles se julgam. Importantes são todos os trabalhadores da aérea da Saude (incluindo bombeiros transporte), os idosos, pessoas de risco independente da idade. Os politicos devem ser incluídos na população Geral, não são exceção.
    O povo que acorde e que não se deixe enganar por esta gente politica.

    • Lamento descordar, mas só num pais populista é que os governantes não são vacinados em primeiro lugar.

      Se um PM, PR ou ate mesmo um ministro fica infectado e morre deixa um vazio politico e que poderá levar o pais a um caos superior do que actualmente está, por exemplo na a aplicação de leis, controlo orçamental, pagamento de salários na FP, etc.

      Termos a mania do populismo, do politicamente correcto, e é o que tem levado ao estado em que estamos, medidas são aplicadas com base no que cai melhor para as sondagens em vez de forma pragmática e com vista ao bem geral.
      Finalmente tomaram uma medida como governantes … infelizmente penso que vai pecar por ser das poucas.

      • Se os enfermeiros ficam infetados e muitos podem morrer em contacto com os infetados, isso proporciona uma situação que poderá levar o país a um caos superior do que atualmente está. Estes é que são mais prioritários que os políticos.

        • Não discordo de todo, está claro que serviços de emergência tem de ser prioritários, mas dentro de prioridades, existem outros níveis.

          Se mil enfermeiros ficarem infectados podem ser substituídos, podemos inclusive pedir auxílio a países vizinhos se for caso necessário.
          Se o presidente ou primeiro ministro ficar incapacitado, esse pedido, ou mesmo contratar mais auxiliares fica impossível no imediato.

          Um país não pode ser gerido com coração e emoções, isso levou-nos ao estado em que estamos.
          Os nossos governantes foram eleitos para tomar as decisões que nós não gostaríamos de tomar, eles tem de ser essencialmente frios e pragmáticos.

          Se esta pandemia não for resolvida nos próximos meses, para o ano o resultado vai ser ainda mais catastrófico, o país vai ter um desemprego que era inimaginável o ano passado, significa um governo pobre e sem capacidade financeira, numa Europa também ela em dificuldades, não vamos ter capacidade de contratar mais auxiliares, equipamento ou mesmo vacinas, aí vamos ver realmente o custo de uma vida vs as vidas que custa a economia.
          O arruinar a economia, tudo porque os governantes foram incapazes de ser pragmáticos e perderam a capacidade de escutar todos os especialistas, olhando apenas ao lado emotivo levou-nos a isto que se vê.

          Por isso escrevi que finalmente tomaram uma medida com lógica ao invés do cair no populismo.
          Agora, se faz falta vacinar todos os deputados!!! Ai a minha opinião muda, a medida deveria ser apenas a governantes essências e com funções no combate à pandemia.

          Enfim … é a minha opinião, vale o que vale.

  3. (…) E os grupos de risco?!
    Estes grupos estão: Doentes renais que fazem hemodiálise; asmáticos; diabéticos; problemas respiratórios graves, e muitos outros problemas de saúde a exigir uma especial atenção na prioridade da vacinação.

    A Assembleia da Répública deverão ser os últimos. Temos deputados em excesso. Isso todos os portugueses sabem.
    Haja bom senso!

  4. Só os enfermeiros? O país inteiro está contra. Os nossos políticos não souberem prevenir a 2ª vaga, apesar de avisados, somos o pior país do mundo em número de mortos por milhão de habitantes, já morreram mais pessoas, em menos de um ano, do que na guerra colonial toda e vamos premiar os responsáveis por esta catástrofe?

  5. A isto chama-se LIDERANÇA. O capitão do navio é o primeiro a fugir e com ele a corte real. Liberdade e Democracia ????? Portugal, portugal, por onde vais tu…

  6. Os enfermeiros deviam era perguntar porque razão a vacina não está a ser fabricada por mais laboratórios.
    A pfizer fabrica um milhão de vacinas por dia. Imaginemos que temos 3, 4 ou 5 empresas em Portugal a fabricar um milhão de vacinas por dia. Em 11 dias tínhamos as vacinas para toda a população. Nem que demorasse um mês, mas tínhamos já por esta altura vacinado todos os que quisessem ser vacinados.
    Isto só não é feito porque não querem. Também deviam perguntar porque andam a prolongar a pandemia.
    Todos sabemos porquê, mas gostava que nos dissessem na cara.

  7. O Presidente da República, o PM e os líderes dos partidos ainda vá, como não são muitos, agora o presidente da assembleia? estar lá ou não, nem se dá pela falta, e Deus nos livre de ele ter de substituir o PR.
    Deputados? Funcionários?, pelo amor de Deus… são todos substituíveis num instante.
    O Conselho de Estado pode perfeitamente trabalhar online.
    A malta que trabalha, que desconta e que lhes paga o ordenado? fica para o fim?
    Davam as doses aos que realmente estão em contacto com a infecção, pessoal hospitalar, bombeiros que transportam doentes, militares que fazem desinfecções ou substituem pessoal infectado.
    Polícias? não são prioritários, não estão em contacto com infectados.
    O vírus não entra nos lares por email, o pessoal deve ser vacinado antes dos idosos.
    Professores devem ser prioritários e provavelmente outros que me esqueci…

    • Pois… para complicar tudo, caríssimo Manel,
      têm-se verificado grandes atrasos na produção das vacinas. Vacinam uma pessoa de cada vez, enquanto que os outros países já vão adiantados. Qual é o impedimento? Se existem vacinas, ELAS TÊM QUE SER UTILIZADAAAAAS, mesmo que a quantidade não consiga fazer sorrir um burro com jóias.

  8. Os Médicos e Enfermeiros que saiam para a rua mostrar o descontentamento político, já que o bom senso não impera. A formação de um médico ou de um enfermeiro não pode nem deve ser uma barreira para o fazer sair de casa, baixar o nivel para se igualar a um político não pode nem deve ser encarado (vergonha) há que mostrar a a essa gentinha que senta o rabo nas cadeiras bem almofadadas no parlamento que o lugar deles resume-se ao que ele realmente é. Prioridade a quem de direito e quem está na linha da frente.

  9. Para quê tanta demagogia? A verdade, como se tem visto, aliás, é que não havendo para já vacinas para todos, nem possibilidade de vacinar todos ao mesmo tempo, irá sempre surgir desacordo sobre os critérios adotados. Contudo, a sugestão da OMS “80-80-80”, ou seja, vacinar 80% dos profissionais de saúde e 80% dos séniores com idade igual ao superior a 80 anos o mais depressa possível parece-me correto pelos efeitos que se obtêm: proteção dos profissionais da saúde e da faixa etária mais afetada e com maior mortalidade. A consequência mais imediata seria uma menor pressão sobre os serviços de saúde o que, no plano de gestão pandémica, me parece bem.

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