O famoso “chá das cinco” de Jane Austen liga a escritora ao comércio de escravos

O famosa cerimónia de chá de Jane Austen vai ser submetida a “interrogatório histórico” sobre as suas ligações à escravatura, de acordo com o diretor de um museu dedicado à autora inglesa.

A casa da escritora na vila de Chawton, em Hampshire, onde escreveu “Emma” e “Mansfield Park” antes da sua morte em 1817, é agora um museu e local de peregrinação dedicado à sua vida e obra.

Contudo, de acordo com o jornal britânico The Telegraph, a equipa do museu está agora a reavaliar o papel de Jane Austen no “colonialismo da era regência”, numa altura em que surgem protestos do movimento Black Lives Matter em todo o mundo.

As ligações da autora de “Orgulho e Preconceito” com a escravidão através do seu pai, o Reverendo George Austen, que era administrador de uma plantação de açúcar em Antígua, serão destacadas em futuras exibições na propriedade.

O diretor do museu afirmou que o chá de Jane, uma cerimónia social chave na sua época e nos seus romances, também liga a escritora à exploração do Império Britânico. Segundo os especialistas, colocar açúcar no chá e usar algodão liga a autora aos produtos do império e do comércio de escravos.

“Este é apenas o início de um processo constante e ponderado de interrogatório histórico. O tráfico de escravos e as consequências do colonialismo da era regência afetaram todas as famílias de posses durante o período. A família de Jane Austen não foi exceção“, disse Lizzie Dunford, diretora do Museu da Casa de Jane Austen. “Como compradores de chá, açúcar e algodão, eram consumidores dos produtos do comércio e também tinham laços mais estreitos através de familiares e amigos”.

“Na Casa de Jane Austen, estamos em processo de revisão e atualização de todas as nossas interpretações, incluindo planos para explorar o contexto colonial do Império e da Regência da família de Austen e do seu trabalho”, continuou a responsável.

Jane considerava que “o chá era visto como uma bebida reconfortante, refrescante e recuperadora” e escreveu muitas cenas em torno do chá, numa época em que a bebida se estava a tornar “um motivo para ver os vizinhos”, de acordo com Jane Pettigrew e Bruce Richardson no seu livro “A Social History of Tea”.

Segundo biógrafos, Jane era a compradora de chá da família e costumava comprar chá da Twinings, uma marca de chá inglesa. A escritora e as irmãs eram clientes de Josiah Wedgwood, que fabricava porcelana fina usada para o chá.

Numa carta para a irmã Cassandra, Jane escreveu sobre “o prazer de receber, desempacotar e aprovar as nossas mercadorias de Wedgwood”.

Já Kim Wilson, no seu livro de 2011 “Tea with Jane Austen”, escreveu que “Jane era uma ávida amante de chá, pronta para atacar uma chávena de chá realmente boa.”

Jane mudou-se de Southampton para Chawton com a sua mãe e irmã em 1809, três anos após a morte do seu pai, e foi lá que reviu ou escreveu os seus romances mais famosos.

O novo trabalho no local refletirá o facto de que em 1760, 15 anos antes do nascimento de Jane, o reverendo Austen se ter tornado o curador da plantação de açúcar de Antígua do seu amigo da Universidade de Oxford, James Nibbs. Se Nibbs tivesse morrido cedo, Austen teria sido o responsável pela plantação e pelos seus escravos.

Embora a sua filha não tenha lucrado com o comércio de escravos, novas exibições no chalé informarão os visitantes sobre o contexto da sociedade regencial para a qual a família Austen se mudou, numa época em que a riqueza e o consumo diário de muitas famílias estavam ligados às atividades imperiais.

Pensar sobre o império e o comércio de escravos será incorporado “no planeamento de todas as nossas interpretações e narrativas futuras”, disse Dunford. “Acreditamos que este é um trabalho extremamente importante e esperamos partilhá-lo nos próximos anos”.

As exibições ainda estão a ser desenvolvidas, mas um painel intitulado “Black Lives Matter to Austen” (“Vidas Negras Importam para Austen”, em tradução livre) examinará como a escritora defendeu as visões abolicionistas e como essas simpatias e as ligações do seu pai com a Antígua alimentaram o seu romance de 1814 “Mansfield Park”.

“Jane Austen pertencia àquele grupo progressista da sociedade de onde vieram os ativistas antiescravistas William Wilberforce e Thomas Clarkson. Revela a sua consciência social na sua leitura e escrita”, lê-se.

Segundo o irmão Henry, o poeta favorito de Jane era o abolicionista William Cowper, cujas obras foram lidas por Martin Luther King.

Chawton, considerado o “mais valioso local de Austen”, atrai fãs dedicados de todo o mundo.

Maria Campos, ZAP //

PARTILHAR

12 COMENTÁRIOS

  1. Era da Estupidez imparável como em qualquer civilização em declínio… Mas quase sempre convictos de serem o progresso. Começo a achar que sito vai terminar numa guerra para se fazer uma purga deste cancro de estupidez. Haverá um genocídio para acabr com estes estúpidos todos.

    • De facto caro MMQ é a estupidez e o excesso dos “progressistas” que alimenta a reacção (leia-se contrarrevolução, reposição da verdade ou moderação social, como melhor se entenda), foi o que aconteceu na Rev. Francesa, na Guerra Civil de Espanha ou na queda da 1ª Republica. Mas como eles pretendem reescrever a História, não sabem nada acerca desta e, por conseguinte, caem sempre nos mesmos erros. Depois, também normalmente, dão-se mal e provocam calamidades ( a ascensão do Hitler, por exemplo, é fruta dos excessos socialistas na Republica de Weimar)

    • Os negacionistas da Escravatura não querem que se contextualize a Escravidão, querem branquear a era Imperial, período em que a europa enriqueceu à custa da mão de obra de escravos negros e depois ainda dizem erradamente que isso é reescrever a História. Shame on you!

      • Acorde!!! ninguém nega a escravatura, que a Europa enriqueceu a custa de escravos tal como os Estados unidos, Egito, Grécia, romanos etc… O problema é que nasceu uma corrente racista chamada “Black Lives Matter” que pretende cometer os mesmo erros do passado realçando uma raça em relação a outras perpetuando a descriminação entre seres humanos. Nenhum país deve ter vergonha da sua historia principalmente quando esses países souberem evoluir corrigindo esses erros e aceitando que ” All Lives Matter”

        • São brancos quem não entende o movimento social Black Lives Matter. Por serem brancos não têm legitimidade para se posicionarem nesta luta. É um absurdo pessoas brancas dizerem a negros que eles não são vitimas de Racismo. Quem sabe é vítima de Racismo é quem o sofre.

  2. Fico a aguardar o mesmo escrutínio e censura para quem usa NIKE, Primark, ApPle e afins que exploram crianças e adultos em países asiáticos….

  3. E eu espero que não se esqueçam de escrutinar tudo sobre os nossos trabalhadores que laboravam de sol a a sol, comiam pão duro e azeitonas e serviam os seus senhores que abusavam sexualmente de muitas dessas trabalhadoras, isto já no séc. 20 !

  4. Já agora, qualquer ditadura se impõe pela força de uns poucos que berram mais que a maioria, foi assim com os bolcheviques, foi assim com os fascistas e foi assim com os nacionais socialistas (sim, eles eram socialistas que não gostavam de comunistas, mas gostavam de fascistas porque se existe algo comum entre socialistas e fascistas é a possibilidade de enriquecer em enquanto no poder).
    Agora andamos com camadas de idiotas a berrarem para imporem as suas ideias às maiorias.

  5. Tanta injustiça para resolver no presente e andam a perder tempo a vasculhar, descontextualizada mente, o passado de pessoas que cá não estão para se explicarem. Deve ser conveniente para alguns que isto se continue a fazer enquanto, sossegadamente, continuam a explorar as matérias primas do planeta com recurso a mão de obra tão barata que é quase escrava.

RESPONDER

Novo Presidente do Irão promete tentar levantar as sanções económicas

O ultraconservador iraniano Ebrahium Raissi, que tomou posse hoje como Presidente, disse que vai tentar o levantamento das sanções impostas pelos Estados Unidos, mas não espera o apoio "dos estrangeiros" para melhorar a situação económica …

DGS encurta intervalo entre doses da vacina da Pfizer

O intervalo recomendado entre as duas doses da vacina Comirnaty, da farmacêutica Pfizer/BioNtech, contra a covid-19 passa a ser de 21 a 28 dias, segundo uma norma da Direção-Geral da Saúde publicada esta terça-feira. A norma …

Portugal regista 19 mortes e 2.076 novos casos de covid-19

Portugal registou esta terça-feira 2.076 novos casos de infeção por covid-19 e mais 19 mortes, segundo o boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS). De acordo com o boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS), registaram-se …

Disney obriga todos os trabalhadores a estarem vacinados contra a covid-19

A multinacional Walt Disney Company emitiu um comunicado onde exige que todos os seus trabalhadores sejam vacinados contra a covid-19. De acordo com o comunicado, citado pelo The Washington Post, os funcionários da maior empresa de …

Novo Banco afasta plano agressivo de saídas até ao final do ano

O Novo Banco afasta, até ao final do ano, a possibilidade de avançar com um plano mais agressivo de saídas de trabalhadores para cumprir as metas definidas por Bruxelas. De acordo com o Jornal de Negócios, …

Doença volta um ano depois a Wuhan e autoridades ordenam testes em massa

A cidade chinesa de Wuhan, no centro do país, anunciou hoje uma campanha de testes em massa à sua população de onze milhões de pessoas, depois de detetar três casos locais de doentes com Covid-19 …

Grécia com a pior vaga de calor dos últimos 30 anos. Governo pede à população para limitar consumo de energia

A Grécia está a ser atingida pela "pior vaga de calor" desde há mais de 30 anos, alertou esta segunda-feira o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, que apelou para que a população limite o consumo de …

É (quase) certo: melhor participação de sempre de Portugal em Jogos Olímpicos

Terceira medalha já igualou os dois melhores registos de sempre. Mas é muito provável que Portugal ainda conquiste, no mínimo, mais uma medalha. Claro que o título deste artigo é arriscado. Mas não é assim tão …

Tiago Barbosa Ribeiro formaliza candidatura à Câmara do Porto e diz ter "ótima" relação com Costa

Secretário-geral do Partido Socialista não esteve presente na apresentação da candidatura do Tiago Barbosa Ribeiro à Câmara Municipal, a qual só aconteceu depois da desistência de Eduardo Pinheiro, secretário de Estado da Mobilidade, por falta …

Portugal já recebeu os primeiros 2,2 mil milhões de euros do PRR

A Comissão Europeia desembolsou, esta terça-feira, 2,2 mil milhões de euros a Portugal referente ao pré-financiamento de 13% do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), num montante global de 16,6 mil milhões de euros. A primeira …