“Ainda não tivemos uma overdose de mortes?”. Espanha realiza primeira tourada desde o confinamento

José Natal

A primeira tourada espanhola desde o confinamento, que decorreu a 17 e 19 de julho em Ávila, a 85 quilómetros de Madrid, contou com metade do público habitual, numa altura em que aumenta o debate sobre a proibição desta prática.

“Ainda não tivemos uma overdose de mortes e dor nos últimos meses?”, indagou Carmen Ibarlucea, do grupo de direitos dos animais “La Tortura No Es Cultura”, que filmou a tourada em Ávila, juntamente com a Animal Guardians, um grupo de campanha global, citado pelo Independent na quarta-feira.

“Retornam às touradas e, impiedosamente e sem lágrimas, exigem mais dinheiro público para torturar e ver um herbívoro pacífico a morrer. Enquanto isso, nós, a maioria social, estamos agora a pedir uma verdadeira cultura de paz e solidariedade”, referiu a ativista.

O grupo apontou para uma pesquisa da Ipsos MORI, realizada em 2016, no qual concluiu-se que menos de um em cada cinco espanhóis entre 16 e 65 anos apoiam touradas, enquanto 58% são contra. Outra pesquisa, da Electomania, divulgada em maio deste ano, mostrou que 47% dos entrevistados são a favor da proibição, 18% opõem-se à mesma e um terço é neutro.

Com uma batalha cultural atualmente em andamento na Espanha sobre o futuro das touradas e o seu financiamento, os defensores dos direitos dos animais associam a diminuição de pessoas em Ávila com uma diminuição do apoio público.

“O ‘lobby’ das touradas está há meses a pedir dinheiro público e a exigir poder realizar touradas”, disse Marta Esteban Minano, diretora internacional da Animal Guardians. “E o que aconteceu? Foi um fracasso total, os supostos fãs não responderam”, notou.

Com a retirada constante de investimento em publicidade, a prática tornou-se amplamente dependente das vendas de bilhetes. E sem a garantia do apoio do Governo espanhol, os empresários e beneficiários desta prática têm exigido nos últimos meses milhões de euros em financiamento e subsídios para sobreviver.

Em junho, manifestações pró-touradas ocorrerem em várias cidades. “Agora temos um governo em Espanha que vê o coronavírus como uma oportunidade para eliminar completamente as touradas”, disse ao New York Times o toureiro peruano Andres Roca Rey, durante um protesto em Sevilha.

Independentemente da sua orientação política, o Governo espanhol tem “uma obrigação constitucional de apoiar as touradas, porque é a espinha dorsal da cultura espanhola”, indicou ao Times Juan Pedro Domecq, vice-presidente do sindicato dos criadores espanhóis.

Contudo, a prática é já financiada pelos governos locais e nacional e um grande número de herdades e de escolas de touradas recebeu dezenas de milhões de euros através da Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia (UE), que tem como objetivo subsidiar a produção de alimentos e recompensar práticas sustentáveis.

De acordo com os documentos revelados pela associação veterinária AVATMA, quase um terço das herdades de touradas beneficia de subsídios públicos.

Marta Estaban Minano instou a Comissão Europeia a “introduzir a condicionalidade necessária para que nenhuma herdade receba fundos caso crie animais para touradas, a menos que tenha um plano de reconversão para eliminar a criação de animais destinados às touradas nos próximos cinco anos”.

Enquanto isso, os números do ministério da cultura espanhol mostram uma tradição em declínio, com o número de touradas a cair quase dois terços desde 2007. Em maio, mais de 800 organizações lideradas pela La Tortura No Es Cultura assinaram uma carta que apoiava o reinvestimento de recursos públicos em indústrias transitórias, para fornecer aos trabalhadores uma alternativa viável.

“Os números falam por si: estatisticamente, em Espanha, aqueles que rejeitam as touradas são uma grande maioria. A Inglaterra proibiu em 2005 a caça à raposa. A China proibiu os cães reprodutores para consumo humano há apenas um mês”, frisou Carmen Ibarlucea.

“As tradições não são imutáveis, refletir e tomar decisões que nos tornam cada vez mais humanos é o caminho que devemos escolher. Essa é a verdadeira tradição que devemos honrar”, acrescentou.

Na semana passada, manifestantes protestaram em frente do Ministério do Trabalho, consternados pelo facto de esta prática não ter sido incluída na ajuda de emergência durante a pandemia, informou o El Pais.

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