Desvio de avião pela Bielorrússia “só foi possível com o apoio do Kremlin”

Пресс-служба Президента России / Wikimedia

Vladimir Putin, presidente da Rússia, e Aleksandr Lukashenko, presidente da Bielorrússia

O sequestro do avião da Ryanair por parte da Bielorrússia só foi possível com o apoio dos serviços de inteligência do Kremlin, que nunca virou as costas ao Presidente Alexander Lukashenko, disse à Lusa uma analista.

Para Judy Dempsey – analista do grupo de reflexão Carnegie Europe e diretora executiva da publicação Strategic Europe – o recente episódio do sequestro do avião da Ryanair e a detenção do opositor do regime da Bielorrússia Roman Protasevich teve de contar com o know-how de logística dos serviços de inteligência russos.

A analista chega a esta conclusão por causa da complexidade da operação e também pelo contexto político de relacionamento entre os dois países.

“Não sabemos muito do que está a acontecer. Mas sabemos que Moscovo nunca virou as costas a Lukashenko, até porque Putin mantém a esperança de conseguir trazer a Bielorrússia para a esfera de influência da Rússia”, explicou Dempsey, em declarações à Lusa.

Esta especialista em política internacional considera que o gesto da Bielorrússia foi uma “aposta de alto risco“, porque resultou numa união de toda a comunidade internacional num protesto inequívoco, deixando o seu Governo à mercê de uma condenação quase consensual. “Este episódio uniu os 27 países. Porque perceberam que isto poderia ter acontecido com qualquer um deles”, explicou Judy Dempsey.

Nesse sentido, o caso não favorece os interesses de Moscovo, já que o Presidente russo sempre apostou numa estratégia de dividir a Europa, criando clivagens entre os diferentes países da comunidade, para reforçar a sua posição de ameaça. “Por isso é que comecei por dizer que ainda não conhecemos bem tudo o que se passou”, concordou.

A analista do Carnegie Europe também não acredita que Putin consiga fazer a união da Rússia e com a Bielorrússia, apesar do continuado “namoro” do Kremlin ou da pressão exercida através da dependência energética, particularmente do gás.

“Lukashenko não tem legitimidade política para atuar. Mesmo que Putin queira essa união dos dois países, não a vai conseguir com Lukashenko e não a vai conseguir com outro Presidente, porque o povo bielorrusso não está interessado nessa ligação”, disse Dempsey.

Mas a analista admite que Putin possa estar a criar um plano para a sucessão de Lukashenko. “Nesse caso, é preciso ter cuidado. Muito cuidado”, alertou a especialista, para quem este é o momento para a União Europeia (UE) desenhar uma estratégia para este problema e confrontar Lukashenko com os seus próprios problemas de legitimidade.

“As sanções económicas são táticas, não são decisões estratégicas”, defendeu Judy Dempsey, para quem a UE não está a agir com suficiente clareza e determinação.

Judy Dempsey considera que as autoridades europeias deviam apostar na transição de poder na Bielorrússia, em vez de usar uma tática de confrontação e de medidas sancionatórias. “Os europeus deviam estar a apoiar a mudança política na Bielorrússia, apoiando os movimentos políticos de oposição”, concluiu a analista.

Esta quarta-feira, o Presidente da Bielorrússia considerou que o país está a ser alvo de “ataques” que passaram os limites.

“Passaram muitas linhas vermelhas e os limites do bom senso e da moralidade humana”, disse Lukashenko aos membros do Parlamento, de acordo com a agência de notícias estatal Belta, citada pela AFP.

ZAP // Lusa

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10 COMENTÁRIOS

  1. Bem… O que para aqui vai de contradições… Primeiro que o “desvio” do vôo para Minsk não era possível sem apoio Russo. Contudo o avião pousou devido a um aviso de problema de segurança. Não me parece que fosse necessária a intervenção Russa para isto. Depois diz-se que a reacção europeia era contrária aquilo que tem sido a estratégia russa. Para que ia fazer a Russia uma acção que era evidentemente comtra a sua estratégia. Terceiro diz-se o que é ou não a vontade do povo da Bielorussia, mas não se aferiu de nenhuma forma minimamente fiável essa “vontade”.
    Então em que ficamos? Ficamos em que as tentativas de expansão até às fronteiras da Russia da UE e da NATO não se dentêm nem diante da contradição evidente. E apenas qualquer situação que aconteça é atribuida por estes “espacialistas” de organizações que nem procuram uma aparência de indepêndencia de análise…à Russia.

    • Já se percebeu que tens uma sinistra admiração pela Russia de Putin. Mas podias disfarçar um bocadinho a falta de isenção e objectividade no comentário.

      Não me digas que também precisas de um referendo na Crimeia para saber que a maioria do povo se identifica com a Rússia. Ou de um referendo na Catalunha para saber se a maioria da população é independentista.

    • “Contudo o avião pousou devido a um aviso de problema de segurança.”
      O quê?!
      Bem… com problemas graves andas tu…
      O avião foi sequestrado e obrigado a pousar em Minsk sem qualquer problema a bordo!
      .
      Claro que o Putin está metido neste acto de terrorismo levado a cabo pelo seu “pau mandado” da Bielorrússia!

    • Ó Carlos, seria bom aprender a escrever antes de vir aqui comentar (“comtra”?!!!”dentêm”????!!). Mas o que é isso Carlos?!
      Depois o Carlos desconhece as formas que o apoio Russo poderia configurar, nomeadamente a informação de que a pessoa em causa ia nesse voo! Já seria um bom apoio.

  2. Posso imaginar que a Rússia (o Kremlin) também teria apoiado as seguintes aterragens forçadas:

    2010 – voô França -México desviado para USA para prender um passageiro;
    2012- vôo de Moscovo para Damasco, desviado para a Turquia (por acaso membro da NATO) para inspeccionar a existência de equipamento militar;
    2013- Vôo que transportava o Presidente da Bolívia Evo Morales, não lhe tendo sido concedido utilizar os espaços aéreos da França, Espanha, Portugal e Itália é obrigado a aterrar na Áustria sob suspeita de transportar o Edward Snowden e poder ser preso;
    2016- Vôo da Ucrânia para a Biolorússia, obrigado a retroceder e aterrar na Ucrânia para prender passageiro Arménio crítico anti-Maidan.
    Só não me recordo é de ter visto ou ouvido qualquer denúncia ou protesto por parte da União Europeia ou/e dos Estados Unidos ou/e da NATO e as consequentes sanções por eles decididos sobre os responsáveis por estes desvios, aterragens forçadas e prisão dos referidos passageiros.

  3. Aquilo são como a unha com a carne, estão completamente ligados, só a morte os separará, portanto, não é surpresa para ninguém a cumplicidade dos dois em mais um ato terrorista, coisa onde são bons especialistas!

  4. Está na cara que o velho que ‘governa’ a Bielorússia não é exactamente ele, é apenas uma figura de estilo comandada pelo novo ‘czar’ da Rússia, onde, é este assassino envenenador, quem manda!

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