Dos ditadores ao terrorismo bombista. O debate aceso de João Ferreira e Ventura

António Cotrim / Lusa

Debate televisivo entre André Ventura e João Ferreira

O segundo debate das Presidenciais colocou, este sábado, o líder e candidato do Chega frente a frente com o candidato apoiado pelo Partido Comunista.

Transmitido pela TVI24, o frente a frente que opôs o candidato do Chega, André Ventura, ao candidato do Partido Comunista, João Ferreira, foi marcado por um ambiente tenso, com troca de acusações, muitas interrupções e um crescente elevar de tom.

O primeiro tema em cima da mesa foi o caso da nomeação do procurador europeu José Guerra. Se fosse Presidente da República, o líder do Chega não tem dúvidas de que “quer a ministra da Justiça, quer o ministro da Administração Interna já não estariam em funções”, considerando que se ainda estão “é muito por culpa do PCP e do Bloco de Esquerda”.

“Um Presidente da República que quisesse atuar, e não ser cúmplice do Governo, atuaria publicamente, porque é esse o papel de um Presidente da República. Um Presidente não serve para tirar selfies, nem para cortar fitas. Serve para assumir a legitimidade que os portugueses lhe deram”, afirmou, numa crítica a Marcelo Rebelo de Sousa.

O candidato apoiado pelo PCP começou por dizer que “em primeiro lugar, importa explicar, não só aos portugueses, mas também a André Ventura – que pelos vistos não sabe -, como é escolhido o procurador”.

De seguida, o eurodeputado considerou que “há um problema”, pois foram “fornecidas informações a Bruxelas que não correspondem com o currículo do procurador que foi escolhido”. Mas é necessário esclarecer se “houve intenção deliberada”.

“A ministra vai à Assembleia da República, se o André Ventura lá estiver, já sei que falta muito, pode fazer-lhe essas perguntas”, atacou o comunista, acrescentando: “Se impusesse a si próprio o critério de ‘quem mente vai-se embora’, o próprio André Ventura não estaria aqui a debater comigo“.

Sobre o diploma da eutanásia, que deverá chegar em breve a Belém, Ventura disse que convocaria um referendo, pois considera que “se deve ouvir os portugueses”, ao contrário do PCP, que “tem medo” de o fazer.

“Mas já que foi aprovada no Parlamento, e vai ser apenas debatida lá, há uma questão que é fundamental: Que a eutanásia esteja devidamente regularizada para que não se coloque os nossos idosos em perigo”.

João Ferreira, por sua vez, disse que “tende a compreender todas as posições” e que, como chefe de Estado, “respeitaria a vontade da Assembleia da República”, acrescentando que acha importante que “haja um amplo debate sobre o tema”.

O debate continuou com o tema da revisão constitucional proposta pelo Chega, nomeadamente a intenção de reduzir o número de deputados no Parlamento, medida que, na opinião de Ventura, serviria para mostrar que temos um “sistema político mais eficaz”.

Não precisamos de 230 deputados para absolutamente nada. Ninguém sabe quem é a grande maioria dos deputados. O ideal seriam 100 deputados. (…) Abordámos essa questão com o PSD e esperamos que isso seja cumprido ao longo do próximo ano”.

Ventura também defendeu a redução do vencimento de titulares de cargos políticos, e lamentou que o PCP tenha votado contra o “referendo para a redução de deputados e contra as propostas que acabavam com benefícios fiscais dos partidos”.

“O André Ventura também jurou que ia exercer o mandato de deputado em regime de exclusividade e manteve três salários“, atacou João Ferreira, que depois aproveitou para ler algumas partes do programa político do Chega, que considerou “inconstitucionais”.

“O André Ventura quer a redução do número de deputados porque defende o interesse dos grandes grupos económicos instalados. É ver quem financia as suas campanhas. Para defender estes sectores, já lá há deputados de sobra”, atirou.

Bomba atómica para dissolver o Parlamento?

Em resposta a esta questão, o candidato comunista foi claro: “Não abdicaria de nenhum dos poderes que o Presidente da República tem. Eles existem para ser usados“.

João Ferreira utilizaria, assim, a chamada “bomba atómica” caso se “confrontasse na sua ação aspetos fundamentais da Constituição”, como a saúde ou a educação, mas considerou que não houve nenhuma situação neste mandato de Marcelo Rebelo de Sousa que tenha justificado fazê-lo.

Na opinião de Ventura, esta Constituição “permite tudo a quem não quer fazer nada”. “E por isso sim, eu não gosto desta Constituição, (…) nunca escondi”, afirmou, acrescentando que o chefe de Estado devia ter mais poderes, por exemplo, “em matéria de escolhas ministeriais”.

“Este Governo já passou linhas vermelhas importantes como, por exemplo, os incêndios de 2017 e o caso Tancos. (…) Situações em que todos os portugueses notam, menos a geringonça, que as instituições estão colocadas em causa.”

“Ídolo de Kim-Jong Un”

Quando a moderadora do debate perguntou a que país iria João Ferreira primeiro, caso fosse eleito, André Ventura respondeu rapidamente no lugar do seu adversário: “À Coreia do Norte”.

João Ferreira deu destaque aos países com comunidades portuguesas expressivas, e aproveitou para responder ao líder do Chega: “Choca-me que André Ventura ande a desfilar com a líder da Frente Nacional“, um partido da extrema-direita cujos certos apoiantes, há uns tempos, “escreveram nas paredes de um clube de futebol português em França: ‘Morte aos portugueses'”.

Ventura contra-ataca, considerando que João Ferreira o “diverte muito”. “No seu site tem os regimes de Cuba, Coreia do Norte e Vietname como boas referências para criar sociedades socialistas. (…) Ataca-me com Marine Le Pen e Salvini quando o ídolo dele é o Kim-Jong Un. (…) Assuma o seu passado e o seu presente: defende ditadores“.

Questionado sobre se reverteria o apoio português a Juan Guaidó como Presidente da Venezuela, João Ferreira acha que “essa decisão caiu no ridículo neste momento”. “A esmagadora maioria dos países nas Nações Unidas não reconheceu essa fantochada. Portugal expôs-se ao ridículo“.

“Porque é que não é capaz de condenar a Coreia do Norte?”, questionou Ventura. “Eu defendo o direito de cada povo escolher livremente o seu destino. A mim cabe-me não decidir por eles, mas respeitar as escolhas que outros fazem”, respondeu o comunista.

“Quando um candidato presidencial acha que os norte-coreanos escolheram livremente o seu destino, quando têm um ditador como aquele, mostra bem que João Ferreira nunca devia estar nesta corrida”, atira Ventura.

No final do debate, o comunista acusou o líder do Chega de ter entre os seus principais apoiantes pessoas envolvidas “em processos de branqueamento de capitais, especulação imobiliária e de terrorismo bombista“.

Ventura devolveu as acusações, afirmando que o PCP é que convidou “terroristas colombianos” para a Festa do Avante! e lembrou que o Chega votou a favor da proposta que retirava apoios a empresas com sede em offshores e tentou ainda que a comissão de inquérito ao Novo Banco investigasse o financiamento de partidos políticos, como o PCP e outros. “O PCP votou contra. Só que isto os portugueses não sabem, ficam hoje a saber”.

Antes deste confronto, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, Marisa Matias, abriram a época de debates, na RTP, numa conversa morna e em que a principal divergência foi mesmo a área da Saúde.

Filipa Mesquita, ZAP //

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6 COMENTÁRIOS

  1. O desventurado do líder dos Cheganos não deixava o camarada Cassete João falar…!
    Para além de ter pinta de cigano, o homem é mal educado!
    Uma prepotência de argumentação!
    Imaginem a decisão em algo com o qual não concorda…
    O homem nãa se cala!
    Safa…!

  2. Nunca vi este Ferreira tão atónito como ontem, frente ao André Ventura. Ele, se pudesse fugir da frente dele, fazia-o. Estava nitidamente sem pedalada.

  3. Palas de ideologia vs palas de demagogia. Assim, Ventura ganha aos pontos! Continuo a achar que nenhum dos candidatos ainda percebeu como se derrota um demagogo. Para mim, as respostas às provocações de ventura só se ganham com a ironia. Ou seja, quem conseguir ser mais irónico do que ele.

  4. Quando dois palermas se procuram insultar mutuamente chamando palerma um ao outro, os dois têm razão. Debate empatado.

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