Num debate cordial, foi na área da Saúde que Marcelo e Marisa mais divergiram

Pedro Pina / RTP / Lusa

Debate televisivo entre Marcelo Rebelo de Sousa e Marisa Matias

O primeiro debate das Presidenciais colocou, este sábado, o Presidente da República frente a frente com a candidata a Belém apoiada pelo Bloco de Esquerda.

Transmitido pela RTP, e moderado pelo jornalista Carlos Daniel, o primeiro frente a frente desta época de debates das Presidenciais começou em tom morno e com algumas palavras simpáticas entre os dois candidatos.

Marcelo Rebelo de Sousa começou por elogiar a adversária, sobretudo pelo seu papel na defesa do estatuto dos cuidadores informais e na defesa dos direitos humanos e nas relações externas. E o elogio foi repartido, com Marisa Matias a dizer que o Presidente teve um papel importante na visibilidade da questão dos trabalhadores informais.

Ambos concordaram que o papel do Presidente da República é “trabalhar para construir estabilidade”, tal como afirmou Marisa Matias, que disse ainda acreditar que “neste país temos as condições para poder ter entendimentos duradouros e estáveis“.

“É importante que este Governo dure até 2023. (…) Tive pena que o Orçamento deste ano não tenha sido aprovado com um entendimento mais alargado à esquerda, mas acredito que isso possa existir nos próximos. (…) O Presidente deve evitar crises políticas sempre. O Presidente deve ser um fator de estabilidade, com qualquer Governo”, frisou Marcelo.

Divergências na área da Saúde

Mas a candidata bloquista quis deixar bem claras as diferenças entre ambos, tendo considerado que o chefe de Estado “podia ter ido muito mais longe na área da Saúde e na proteção dos serviços públicos”.

“E a Lei de Bases da Saúde não foi cumprida na sua totalidade. O Presidente exerceu a sua influência mantendo os privados. E, ainda agora, nos decretos dos estados de emergência, nós continuamos a ver os privados – que a Lei de Bases da Saúde prevê que possam ser incluídos na resposta à crise -, mas mediante acordo, quando devia ser mediante os custos reais dessa prestação de serviços. Não podemos admitir sequer a ideia de negócio num contexto de crise sanitária e pandémica como aquela que estamos a viver”, afirmou.

Marcelo Rebelo de Sousa, por sua vez, lembrou que a questão da contratualização com privados e setor social foi resolvida com uma proposta do BE que permitia o recurso a meios privados em casos excecionais. “Nem ficou a proibição, nem a abertura total. Os partidos de esquerda votaram a favor e eu promulguei”, sublinhou.

Para o Presidente, o “problema surge na aplicação da lei” e lembra que “o Bloco de Esquerda se opôs às parcerias de gestão, às PPP. Opôs-se e ficou sozinho. Foi uma voz isolada no Parlamento.”

Questionado sobre a possibilidade do atual estado de emergência ser renovado apenas por uma semana, e não por 15 dias como tem vindo a ser habitual, o chefe de Estado diz estar mais inclinado “para oito dias apenas”.

A bloquista aproveitou a questão do estado de emergência para falar da desproteção laboral a que muitos portugueses ficaram sujeitos no contexto de pandemia.

“Não tenho dúvidas de que o Presidente tem preocupações sociais genuínas, mas a nossa forma de ver o mundo é diferente. As desigualdades são o centro das políticas que temos tido, são a regra e não a exceção. (…) O meu modelo de combate às desigualdades prevê acabar com o modelo de privilégios”.

Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que o país “está mais desigual com a pandemia”, mas disse que “os dois Governos tomaram medidas contra a precariedade, mas não se foi tão longe como era possível”.

Críticas ao caso do procurador europeu

Os dois candidatos concordam que o caso do procurador europeu é grave. O Presidente da República afirmou mesmo que “há três ou quatro pontos lamentáveis: atribuir uma qualidade que a pessoa não tem; dizer que dirigiu uma determinada investigação da UGT quando não dirigiu; o próprio diz que não liderou a equipa que investigou a Junta Autónoma das Estradas”.

“Como é possível haver uma nota interna enviada diretamente de um serviço para uma representação diplomática? É um tema sensível, (…) mas há um desleixo numa matéria que tem projeção internacional”.

A eurodeputada bloquista disse que é uma situação “muito grave” e que não consegue encontrar “nenhuma razão para se mentir em currículos”. “Acho que se deve exigir esclarecimentos”, acrescentou.

Questionada sobre os momentos mais baixos do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias elege o “silêncio” sobre a morte do cidadão ucraniano nas instalações do SEF no Aeroporto de Lisboa.

Marcelo rebateu-se neste ponto, dizendo que se manifestou desde logo em abril. No entanto, relativamente ao contacto direto com a família, admitiu que optou por não se sobrepor ao SEF e a toda a hierarquia do Estado. “Admito que foi uma decisão criticável, mas não achei bem substituir-me ao SEF e ao Governo”.

Para a bloquista, outro ponto negativo foram as ausências de combate pelos direitos laborais como, por exemplo, o alargamento do período experimental nos contratos de trabalho e a questão dos jovens.

“Tivemos jovens a trazer questões políticas super relevantes, como a questão climática, a questão das minorias, e eu não vi o Presidente a ir ao encontro dos jovens. Há muito o discurso de que os jovens não se interessam por política e que são desligados. Pelo contrário, eu acho que têm tido um contributo extremo.”

“Muito provavelmente o próximo PR está à minha frente”

No final do debate, Marisa admitiu ainda que “muito provavelmente o próximo Presidente” era a pessoa que estava sentada à sua frente, dizendo que essa questão “não é tabu”.

Questionada sobre a eutanásia, a bloquista utilizou o exemplo dos ganhos da Interrupção Voluntária da Gravidez para defender esse tema. “É uma questão de evolução e de progresso.”

O Presidente, por sua vez, diz que tem de ver o diploma, até porque “não há diploma ainda. “Espero que seja recuperado em janeiro, a tempo de chegar às minhas mãos”.

Uma das últimas questões foi se, noutro cenário, votariam um no outro. O chefe de Estado respondeu com um “depende”. A eurodeputada, pelo contrário, disse que não votaria no seu rival em circunstância alguma, a não ser que defrontasse, numa segunda volta, um candidato ainda mais à direita (não se referindo explicitamente a André Ventura). Cenário esse que, acredita a bloquista, “não se vai colocar”.

Na noite de sábado, também houve o debate “aceso” entre o candidato do PCP, João Ferreira, e precisamente o candidato do Chega, André Ventura.

Filipa Mesquita Filipa Mesquita, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Considero que o debate entre estas duas entidades foi muito fraco. Foi precedido de beijocas, de abraços e de sorrisos amarelos, e envolveu um discurso muito fraco, de ambas as partes. Não votaria no Martelo, muito menos na Azeitoneira de Condeixa.
    Ah… e esqueci o Ferreiro, que tem em casa um espeto de pau. Outro tolo que não tem cabedal para a presidência.

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