Costa diz que Estado se curva “perante a memória” de Otelo. Mas BE condena ausência de luto nacional

Mário Cruz, António Cotrim / Lusa

O primeiro ministro, António Costa, e o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, decidiram não declarar luto nacional pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, Capitão de Abril. A líder do BE e o presidente da Assembleia da República já reagiram.

O primeiro-ministro disse esta terça-feira que “obviamente o Estado curva-se perante a memória” de Otelo Saraiva de Carvalho e que não há luto nacional por coerência com o decidido na morte de outros protagonistas do 25 de Abril.

“Há formas múltiplas de homenagear os nossos grandes. Obviamente, o Estado curva-se perante a memória do coronel Otelo Saraiva de Carvalho”, disse António Costa, lembrando as declarações e a presença “do próprio Presidente da República” no velório do militar de Abril, esta terça-feira, em Lisboa, e o comunicado que o Governo divulgou logo na manhã de domingo, dia em que morreu.

“Creio que é inequívoco a forma como o Estado homenageia o coronel Otelo Saraiva de Carvalho”, afirmou o primeiro-ministro aos jornalistas, momentos antes de entrar na capela da Academia Militar, em Lisboa, onde está a decorrer o velório de Otelo Saraiva de Carvalho e onde ouviu gritos a reclamar “luto nacional” de algumas das pessoas que aguardavam na fila.

O primeiro-ministro lembrou as declarações do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, duas horas antes, no mesmo local, quando afirmou que também não houve luto nacional pela morte de outros militares protagonistas do 25 de abril de 1974, que derrubou a ditadura do Estado Novo.

“Como comandante operacional, como disse o Presidente Eanes, foi uma figura proeminente da história de Portugal”, disse Marcelo referindo-se às palavras de Ramalho Eanes sobre Otelo de Carvalho.

“Já disse que há uma coisa certa, independentemente do juízo definitivo da História: Otelo Saraiva de Carvalho foi uma figura cimeira do 25 de Abril, que marcou a História de Portugal, a história presente de Portugal: foi um momento de viragem da ditadura para a democracia e a para a liberdade”, afirmou ainda o Presidente da República, citado pelo jornal Expresso.

Sobre o facto de não ser decretado luto nacional, Marcelo explicou: “Pesou o facto que figuras como Salgueiro Maia e Melo Antunes não mereceram essas homenagem, na altura não ocorreu, e para não abrir um debate sobre vários os nomes cimeiros – qual o nome cimeiro? – penso que foi isso que levou o Governo a não dar o passo”.

Sublinhando que Otelo Saraiva de Carvalho é uma figura “proeminente” na história do 25 de Abril, António Costa afirmou que “ninguém diminui” a sua “importância e relevância” — e disse que os jornalistas já tinham tido ocasião de esclarecer a questão do luto nacional com Marcelo Rebelo de Sousa.

“Como o senhor Presidente da República já teve ocasião de esclarecer, o Estado tem de procurar manter coerência e consistência relativamente à forma como homenageia aqueles que nos deixam”, afirmou.

O primeiro-ministro, que encontrou a mãe na fila para a entrada no velório de Otelo Saraiva de Carvalho, disse ter ido à capela da Academia Militar “prestar homenagem” a um homem a quem o país deve “esse momento único” e “inicial” de reconquista da liberdade e da democracia, “e uma figura que a esmagadora maioria do povo português respeita, admira seguramente” por esse momento.

António Costa disse ainda que tem também “um especial carinho” por Otelo Saraiva de Carvalho por uma história pessoal, de quando era criança e a sua mãe esteve em serviço na Guiné-Bissau.

Nessa época, Otelo Saraiva de Carvalho, então o oficial responsável pela assessoria de imprensa do general Spínola em Bissau, era “a única ponte de contacto” entre António Costa e a mãe, a jornalista Maria Antónia Palla, o que fazia com telefonemas às sextas-feiras, tendo também trazido cartas para o agora primeiro-ministro quando veio a Lisboa.

Catarina Martins condena ausência de luto nacional

A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, lamentou, no entanto, que o Governo não tenha decretado luto nacional pela morte do militar de Abril Otelo Saraiva de Carvalho, “um libertador” do país.

“Otelo Saraiva de Carvalho foi um dos obreiros do 25 de Abril, foi o estratega da operação militar que permitiu o 25 de Abril, que pôs fim ao Estado Novo, pôs fim à guerra, pôs fim ao colonialismo e abriu a porta da esperança da democracia, da liberdade em Portugal. Hoje Portugal está de luto, lamentavelmente o Governo e o Presidente da República não o entenderam, mas Portugal está de luto porque como muito bem disse [o ex-Presidente da República] Ramalho Eanes a pátria deve-lhe a liberdade, a democracia e isso ninguém pode recusar ou negar”, afirmou Catarina Martins, que falava aos jornalistas pouco antes de entrar na capela da Academia Militar.

“O facto é que o país está de luto porque perdeu um libertador, um dos homens que nos trouxe a liberdade e a democracia e digam o que disserem o Governo, o Presidente da República, isso ninguém pode negar e por isso Portugal está de luto porque esta é seguramente uma pátria que reconhece o valor daqueles que permitem a liberdade e a democracia”, acrescentou, sem ter respondido a mais perguntas dos jornalistas.

A líder do BE estava acompanhada pelo fundador Luís Fazenda, uma das centenas de pessoas que passaram pelo velório de Otelo Saraiva de Carvalho.

Ferro respeita ausência de luto nacional

Também a presença do presidente da Assembleia da República se fez notar. Eduardo Ferro Rodrigues lembrou Otelo Saraiva de Carvalho como “o grande comandante” do 25 de Abril e disse respeitar a decisão do Governo de não decretar luto nacional pela sua morte.

“A grande imagem de Otelo é do grande comandante do 25 de abril de 1974”, disse Eduardo Ferro Rodrigues aos jornalistas, depois de ter estado no velório.

O presidente da Assembleia da República considerou que sem a ação de Otelo Saraiva de Carvalho, no comando das operações militares do 25 de Abril, Portugal não teria hoje a democracia que conhece e é essa “a grande imagem” do coronel, que morreu no domingo.

Questionado sobre se deveria ter sido decretado luto nacional pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, Ferro Rodrigues considerou que “não é uma questão que se coloque hoje” e lembrou que o militar não tem “qualquer papel na vida institucional portuguesa”.

“Tem o papel histórico que é por todos conhecido e para ele próprio seria uma coisa completamente marginal haver ou não” luto nacional, acrescentou.

“Quem decide o luto nacional é o Governo e eu respeito a decisão e respeito e compreendo que neste momento é uma questão que não se coloca”, sublinhou.

Eduardo Ferro Rodrigues afirmou ser “com emoção” que se despede de Otelo Saraiva de Carvalho, que disse ter conhecido bem nos anos que se seguiram ao 25 de Abril.

Há um luto de todos aqueles que viveram com ele a experiência do 25 de Abril e dos anos posteriores e depois há muita gente que ainda hoje não se considera suficientemente esclarecida, apesar de Otelo ter sido amnistiado e de ter havido vários depoimentos dele em que nunca reconheceu qualquer responsabilidade nas ações dramáticas das FP 25 e, portanto, aquilo que eu quero é lembrar o Otelo do 25 de Abril e mais nada. E é com emoção que me despeço dele”, afirmou Ferro Rodrigues.

Nascido em 31 de agosto de 1936 em Lourenço Marques, atual Maputo, Moçambique, Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho teve uma carreira militar desde os anos 1960, fez uma comissão durante a guerra colonial na Guiné-Bissau, onde se cruzou com o general António de Spínola, até ao pós-25 de Abril de 1974.

No Movimento das Forças Armadas (MFA), que derrubou a ditadura de Salazar e Caetano, foi ele o encarregado de elaborar o plano de operações militares e, daí, ser conhecido como estratego do 25 de Abril.

Depois do 25 de Abril, foi comandante do COPCON, o Comando Operacional do Continente, durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC), surgindo associado à chamada esquerda militar, mais radical, e foi candidato presidencial em 1976.

Na década de 1980, o seu nome surge associado às Forças Populares 25 de Abril (FP-25 de Abril), organização armada responsável por dezenas de atentados e 14 mortos, tendo sido condenado, em 1986, a 15 anos de prisão por associação terrorista. Em 1991, recebeu um indulto, tendo sido amnistiado cinco anos depois, uma decisão que levantou muita polémica na altura.

O funeral de Otelo Saraiva de Carvalho realiza-se esta quarta-feira, no crematório de Cascais, em Alcabideche.

ZAP // Lusa

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9 COMENTÁRIOS

    • O 25 de Abril de 1974 foi “comunismo e terrorismo”?
      Bem, para os salazarentos amigos da ditadura, foi…
      As “ovelhas” do Trump que invadiram o capitólio depois da derrota nas eleições americanas, também se queixam do mesmo…

  1. Nunca fui visita de casa, mas conheci o Otelo Saraiva de Carvalho. Desse conhecimento, uma certeza, se lhe dissessem que seria objecto de “luto nacional”, ele ficaria aflito e com sua linguagem muito informal, exclamaria: “Ó pá, isso seria o mesmo que fazer luto nacional pelo 25 de Abril!”. As coisas sºão o que são, Otelo foi o último símbolo do 25 de Abril, homenagear a sua figura e significa, seria o mesmo que adiar o luto pelo 25 de Abril, só que este cobarde governo do PS não teve a coragem e a honradez que Mário Soares teria tido em idênticas circunstâncias. Por isso, Soares era um animal político, também uma figura histórica e António Costa uma lesma. O 25 de Abril e Otelo foram cremados no mesmo dia, que descansem em paz.

  2. Soares era um não-proletário que tinha dô dos pobrezinhos e medo ao mesmo tempo.
    A social-democracia (não aquela do PSD) era uma resposta da classe não-operária para se o comunismo teria sucesso. Melhorava um pouco a miséria sem exagerar. Mas era paternalista e apenas diferente da misericordia por ser não-religiosa. A espera é de um sistema realmente para o bem das pessoas em geral. Se isso não vier, o desmoronamento das sociedades está prevista para a década dos quarenta

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