Ramalho Eanes defende que Otelo “tem direito a lugar de proeminência” na História

Presidência da República

Ramalho Eanes, antigo Presidente da República.

O ex-presidente da República Ramalho Eanes defendeu esta segunda-feira que Otelo Saraiva de Carvalho, falecido no domingo, tem direito a um “lugar de proeminência histórica”, apesar “da autoria” do que considerou “desvios políticos perversos, de nefastas consequências”.

“Para mim, e apesar de todas as contradições, o Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. E tem esse direito, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências, porque foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril, a mobilização dos jovens capitães, o comando da operação militar bem-sucedida”, defendeu o general Ramalho Eanes, num texto enviado à agência Lusa.

Ramalho Eanes assinalou que “há homens que, num momento histórico especial, se ultrapassam, ganhando dimensão nacional, indiscutível, porque souberam perceber e explorar uma oportunidade histórica única, e sentir os anseios mais profundos do seu povo”.

“Otelo é uma dessas personalidades. A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar”, sublinhou.

No mesmo texto, o ex-Presidente da República afirmou-se “magoado” e “surpreendido” pela morte do “Capitão de Abril”.

“Magoou-me, por se tratar de mais um amigo que parte. Surpreendeu-me, porque estive, recentemente, com o Otelo, no funeral da sua mulher, e achei-o, naturalmente, abatido, mas, aparentemente, com vigor e saúde”, disse.

Recordou que conheceu Otelo na Guiné-Bissau, onde o foi substituir na Direção da Secção de Radiodifusão e Imprensa do Comando-Chefe, remontando a essa época a amizade entre os dois.

“Tornámo-nos amigos. Foi, aliás, essa amizade que me levou a testemunhar em seu favor no julgamento a que foi submetido, apesar de muitos reparos e apelos para que o não fizesse”, lembrou.

Eanes evocou o amigo como “um homem bom, generoso, embora, por vezes, pouco prudente, pouco realista – contraditório, mesmo”, assinalando também a paixão que tinha pela representação.

“Até na vida real, esquecendo que a representação exige um espaço delimitado, em que tudo o que aí é normal não o é na vida real”, afirmou.

Otelo Saraiva de Carvalho, militar e estratego do 25 de Abril de 1974, morreu no domingo de madrugada aos 84 anos, no Hospital Militar, em Lisboa.

Nascido em 31 de agosto de 1936 em Lourenço Marques, atual Maputo, Moçambique, Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho teve uma carreira militar desde os anos 1960, fez uma comissão durante a guerra colonial na Guiné-Bissau, onde se cruzou com o general António de Spínola, até ao pós-25 de Abril de 1974.

No Movimento das Forças Armadas (MFA), que derrubou a ditadura de Salazar e Caetano, foi o encarregado de elaborar o plano de operações militares.

Depois do 25 de Abril, foi comandante do COPCON, o Comando Operacional do Continente, durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC), surgindo associado à chamada esquerda militar, mais radical, e foi candidato presidencial em 1976.

Na década de 1980, o seu nome surge associado às Forças Populares 25 de Abril (FP-25 de Abril), organização armada responsável por dezenas de atentados e 14 mortos, tendo sido condenado, em 1986, a 15 anos de prisão por associação terrorista. Em 1991, recebeu um indulto, tendo sido amnistiado cinco anos depois, uma decisão que levantou muita polémica na altura.

O funeral de Otelo Saraiva de Carvalho realiza-se na quarta-feira, no crematório de Cascais, em Alcabideche, estando em câmara ardente na Capela da Academia Militar, em Lisboa, a partir das 16:30 de terça-feira.

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38 COMENTÁRIOS

  1. Discordo de muitas das coisas que farão o legado de Ramalho Eanes, mas tenho que reconhecer que é um homem de honra, o seu retrato de Otelo neste comunicado, é quase perfeito, explica melhor que qualquer outro, a personalidade contraditória, mesmo volátil, de Otelo. E Eanes não se esqueceu e foi importante que o recorde, para a compreensão de tal personalidade, a sua paixão pelo teatro e a representação, os pais ao chamarem-no de Otelo, para além da genética, determinaram a sua personalidade de anti o outro Otelo.

  2. Na história do 25 de Abril contada localmente para consumo interno, não há margem para dúvida que o nosso General tem razão. Não nos podemos esquecer que o exército é a primeira de todas as organizações corporativas dos países.

    • Sr Esclarecimento. A história do 25 abril é conhecida em toda a Europa, África, América e Ásia. Ela não é contada localmente, até porque não terá entrado em sua casa. O sr. sabe o que são organizações corporativas? Deve saber bem até por colagem ao antigo regime, de que dá provas mais que suficientes. E é por causa do 25 abril, cujo símbolo maior é Otelo Saraiva de Carvalho, que o senhor tem a liberdade de até dizer as alarvidades mais soezes que entenda.

      • Prezado, uma organização corporativa é uma organização que actua com “lógica de corpo”. Por esse facto ainda hoje se fala em “coroporação de bombeiros”. Quando me referi a história do 25/4, quiz referir a história completa, sem amputações, a que explica a “esquadra americana” e não a que a omite! Embora compreenda a sua catequese, não me atrevo a chamar-lhe alarve pela sua ignorância.

  3. Não sou grande admirador de Otelo por causa das FP 25 de Abril. A questão do Campo Pequeno nem sei se é mito. Mas de qualquer forma na pior das hipóteses, terá ficado pelas (más) intenções.

    Mas sou admirador incondicional de Eanes e do Grupo dos Nove. Se Eanes diz, pra mim é lei. Eanes tem razão quando diz que não podemos esquecer o que de bem Otelo fez, pelo que de mau terá feito também.

  4. Honestamente, penso que o Ex-Presidente Ramalho Eanes foi o melhor Presidente pós-1974. No entanto, creio que, neste caso em concreto, a amizade lhe toldou o discernimento. Otelo ficará na história, sim. Mas, na história das famílias que por via da sua (e correligionários) acção foram destruídas, seguramente que a sua memória se perpetuará! Herói do 25 de Abril ou não (e não sei se o 25 de Abril terá sido assim tão positivo como o pintam), a verdade é que essa acção (mesmo que admitindo-a como boa) não apaga as posteriores acções criminosas.

  5. Querem branquear a todo o custo o assassino que esse homem foi , como aliás sempre sucede quando morre alguém com conotações ao 25 ou à esquerda .
    Para mim o 25 foi um dos maiores desastres que podiam ter acontecido a Portugal , mas enfim … é o que temos

    • Salgado, és tu?!
      Enfim, mais um privilegiado que queria continuam a viver à grande enquanto a maioria do povo vivia na miséria e na ignorância…
      Desastre foi os amigos do regime salazarista não terem sido limpos no 25 de Abril, tendo ficado a minar o país até hoje…

      • Eu! Pois, isso foi o que Otelo pretendeu fazer juntando-se ao PCP na intenção de instalar uma ditadura comunista que essa sim, seria sem dúvida alguma bem mais feroz do que a de Salazar, não vale a pena vir seja quem for tentar branquear tais intenções por mais amigo que possa ser de tal personagem!

        • E não fiz qualquer referência ao Otelo (o Ramalho Eanes disse tudo); falei da ditadura salazarista e dos que viviam bem com ela.

          • E eu falo daqueles que pretenderam instalar outra ditadura bem mais feroz debaixo da capa da “liberdade”, só não vê quem não quer mesmo ver!

            • E o que tem essas “teorias” a ver com o Otelo?
              Quem diz que o Otelo se juntou ao PCP só pode viver numa realidade alternativa…
              Uns não querem ver; outros veem coisas que não existem!…

        • O Otelo juntou-se ao PCP?! Já tentou misturar água com azeite? O resultado é semelhante. Aconselho-o a rever a sua narrativa.

          • Pois é… como dizia o “outro”: não faltam por aí “ignorantes cheios de certezas”…
            Alguém dizer que “Otelo se juntou ao PCP para instalar uma ditadura comunista”, só mostra o seu total nível de alienação/ignorância!
            Qualquer pessoa minimamente informada (e só esses deviam ter o bom senso comentar – mas, a liberdade é mesmo assim) sabe que o Otelo NUNCA se juntou com o PCP; antes pelo contrário!!
            “Debitar cassete/narrativa” sem conhecer minimamente dos factos dá esse resultado…

            • Otelo não se juntou ao PCP. Desbravou o caminho, através de um revolucionarismo feroz, para que depois o PCP comandasse o barco, politicamente.

        • Muitos dizem que este homem foi maravilhoso, agora que faleceu… quando ainda estava vivo, se calhar, era “cabrão para aqui, cabrão para acolá”…

          • Foi maravilhoso para os da sua ideologia política, para outros foi um oportunista criminoso, pois é fácil ser herói quando se tem uns galões sobre os ombros e bem instalado na secretaria a dar ordens aos subalternos de avançarem para a linha da frente, andou por África, mas duvido que tenha assumido o comando de um pelotão em combate. Por cá teve outros mais sensatos e destemidos como Jaime Neves que assumiram o comando das tropas e lhe barraram o caminho para a instalação do comunismo.

    • O 25 de abril foi um golpe comunista que só se concretizou porque o regime anterior estava em declínio. Quanto a este revolucionário Otelo, há sempre um maluco que se destaca nas forças armadas. À época, calhou-lhe a ele, ser o emblema desse estatuto. Um homem destes, é tudo: herói, terrorista, promovido, despromovido, condenado, indultado.

      • Eheheheee… tinha que aparecer um destes…
        Veem comunistas em tudo e em todo o lado…
        Agora, para estes “iluminados”, até o Biden ou a Merkel são comunistas.

  6. joão, o regime estava exangue, as colónias eram disputadas entre a URSS, os EUA e a China, os portugueses estavam lá para morrer e, quando saíram, ficaram lá os nativos a cumprir essa função. A coragem e ousadia de pessoas como Otelo Saraiva de Carvalho e Salgueiro Maia fizeram o regime cair de um único golpe. Seria muito pior se fosse uma coisa a arrastar-se em décadas de ódio e violência.

    • Alexandre Valente: Jamais se iria arrastar por décadas, o regime por cá estava em vias de transformação e poder-se-ia ter chegado a um consenso em se ter optado pela independência durante um determinado prazo, salvaguardando os interesses nacionais nas colónias e evitando as pilhagens praticadas o que seria benéfico para todos. O que se veio a passar em seguida foram milhares de mortes em Angola e Moçambique entre fações rivais e o retrocesso em todas as ex-colónias no seu desenvolvimento, Moçambique é atualmente a prova disso mesmo e a prova de que todos eles sabem muito bem praticar terrorismo, mas péssimos como exército. As mortes continuam e a miséria aumenta. A própria África do Sul, que foi símbolo do progresso em África está a ser vítima da nossa ausência nesse continente.

  7. Ena pá, tantos saudosistas !!!!
    Devem de estar bem na vida a custa de
    outros tantos , nunca souberam o que era este País , noutros tempos .
    Pela parte que me toca , lutei a minha maneira , a desfavor , do poder de então. Nunca fui filiado e recusei sempre as atividades , para que fui convocado na Mocidade Portuguesa , nem na União Nacional , mas o partido do atual governo , tem muitos simpatizantes, que o foram .
    Goste-se ou não, não podemos esquecer ,o que estes homens fizeram .
    Sem interesses pessoais e dando uma grande lição de humildade , agora que muitos interesses, desvirtuaram o fato, ainda agora , continuamos a assistir , alguns , atacantes que se esquecem , de que foi depois da Abril de 1974 , que comecaram a deixar de passar necessidades , e ainda estão
    a atacar , tudo está mal feito , mas noutros tempos , quando ou antes , de dizerem mal do governo de então , já estava o cabo da guarda , ou outro bufo , a avisar a Legião ou a Pide , do fato . Mas a memoria é muito curta !
    Muitos até fazem de conta , que nem pertenciam nem ouviram falar dessa gente .Desde padres , e outros acólitos,
    todos estão esquecidos .
    Cuidem-se

    • José Fonseca, estás a falar assim porque o 25 de abril transformou-te de um homem pobre, de grandes privações, no regime anterior, para um homem moderno, a viver bem, com quase tudo na vida, que este pós vinte e cinco de abril te está a oferecer e à tua família.

    • José Fonseca, pelo que relatas deves continuar mal na vida, quanto a desinteresses pessoais terminaram todos em generais, mas não certamente aqueles que foram mandados para a linha da frente e sujeitos a dar o corpo às balas, não fosse o 25 de Novembro estaríamos agora a viver como na Coreia do Norte ou Cuba, estes é que são os factos e não fatos porque esses seriam possivelmente agora todos iguais à moda do Mao Tsé Tung!

      • “não fosse o 25 de Novembro estaríamos agora a viver como na Coreia do Norte ou Cuba…”
        Como é que, em 2021, alguém ainda insiste em espalhar esta “cassete”?!
        Semelhante disparate só pode ser comparado com aquele que diz que, na Segunda Guerra Mundial, se não fossem os americanos, estaríamos todos a falar alemão….

        • Este Eu! está completamente perdido do juízo. Para obter ainda alguma racionalidade, já deve ser tarde. O tempo não perdoa. De certeza que este indivíduo não esteve por cá no tempo do assalto comunista aos quarteis.

        • Eu! A tua coerência em política deve estar ao mesmo nível das intenções do Otelo em libertar este país, os teus altos e baixos em avaliação política denotam algum desequilíbrio mental!

          • Não tenho coerência politica – apenas comentei factos históricos (e actuais).
            Mais desequilíbrio mental do que alguém que diz que o Oleto se juntou ao PCP?!
            Não é fácil…

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