Colecção de quadros confiscados encontrados na Alemanha inclui obras inéditas

colecção privada / wikimedia

O Homem Desesperado, auto-retrato a óleo de Gustave Courbet (colecção privada / wikimedia)

O Homem Desesperado, auto-retrato a óleo de Gustave Courbet (colecção privada / wikimedia)

A colecção de mais de 1.400 obras de arte encontrada num apartamento de Munique por investigadores alemães após uma vistoria de rotina oferece um tesouro para os historiadores de arte e inclui trabalhos desconhecidos de mestres da pintura, como Marc Chagall e Henri Matisse.

Agora, as autoridades enfrentam um desafio: identificar as obras, determinar a sua situação legal e encontrar os seus legítimos proprietários, muitos dos quais foram presos pelo regime nazista. Até ao momento, uma análise preliminar avaliou apenas cerca de 500 das peças da colecção.

A colecção inclui trabalhos de mestres do século 20, como Pablo Picasso, Max Liebermann e Ernst Ludwig Kirchner, além de trabalhos anteriores de artistas como Henri de Toulouse-Lautrec, Gustave Courbet, Auguste Renoir e Canaletto. Também foram encontradas obras bastante mais antigas, como uma gravura da crucificação de Cristo do século 16, da autoria do mestre alemão Albrecht Duerer.

Não está claro quantas dessas obras poderão estar sujeitas a devolução aos proprietários anteriores à Segunda Guerra Mundial. Em Augsburg, o promotor Reinhard Nemetz afirmou que os investigadores descobriram “evidências concretas” de que a colecção inclui tanto obras que os nazistas classificaram como “arte degenerada” e confiscada de museus alemães em 1937 ou imediatamente a seguir, assim como outros trabalhos que podem ter sido confiscados a particulares. Os nazis frequentemente forçavam coleccionadores judeus a vender as suas obras de arte a preços penosamente baixos a revendedores alemães, ou simplesmente confiscavam as obras.

“Arte degenerada” eram trabalhos abstractos ou “modernos” que o regime de Adolf Hitler acreditava serem uma influência subversiva para o povo alemão. Muitos desses trabalhos foram vendidos mais tarde para enriquecer o regime. Um especialista em arte que está a trabalhar com os promotores do caso afirmou que tais vendas são legalmente válidas, mesmo se for descoberto que outros trabalhos na colecção possam eventualmente pertencer a sobreviventes do regime nazi ou seus herdeiros.

A historiadora de arte Meike Hoffmann, especialista em “arte degenerada” da Universidade Livre de Berlim, ofereceu um vislumbre de algumas das obras de arte da colecção durante uma apresentação de slides feita na entrevista desta terça-feira com os promotores do caso. Hoffman mostrou trabalhos que afirmou não serem conhecidos dos estudiosos, ou conhecidos apenas de documentos sem qualquer foto que possa fornecer uma ideia de como seria a obra. “Tais casos são de alta importância para os historiadores da arte”, disse Hoffmann.

Entre as descobertas, há uma pintura de uma mulher sentada feita por Henri Matisse,  confiscada pelos nazis a um banco na francês durante a Segunda Guerra Mundial, em 1942, e que não consta do catálogo dos trabalhos do artista, disse a historiadora. Especialistas estimam que a obra terá sido produzida em meados dos anos 1920. Um guache de Marc Chagall de uma cena alegórica também não está entre os trabalhos listados do artista, e não há informação sobre a sua origem. Outras obras, como um auto-retrato desconhecido do artista alemão Otto Dix e uma gravura de Ernst Ludwig Kirchner deram nova amplitude ao que se sabia sobre esses artistas, disse Hoffmann.

Um trabalho de Courbet de uma menina com uma cabra, anteriormente na lista das suas obras, foi parar à coleção através de um leilão em 1949, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma obra de Franz Marc, intitulada “Paisagem com cavalos”, foi identificada como oriunda de um museu de arte de Moritzburg, na Alemanha.

Outras obras que integram a colecção descoberta em Munique são uma pintura do alemão Max Liebermann, intitulada “Dois cavaleiros na praia” e um auto-retrato do pintor expressionista alemão Otto Dix, totalmente desconhecido até agora, que pode ter sido pintado em 1919.

Descoberta

O apartamento, num distrito na região de Munique, foi descoberto em fevereiro de 2012 na sequência de uma fiscalização casual de passageiros que faziam o trajecto Zurique-Munique de comboio em 2010.

Um dos passageiros, o octogenário Cornelius Gurlit, cujo pai, Hildebrand Gurlit, tinha comprado os quadros nas décadas de 1930 e 1940, levantou suspeitas suficientes para que fosse dado início a um processo fiscal preliminar contra o suspeito.

A Alemanha tem investigado fraudes tributárias há vários anos após registos bancários furtados terem mostrado que milhares de cidadãos alemães tinham contas bancárias na Suíça.

As 121 pinturas emolduradas e outras 1.285 sem moldura foram encontradas num quarto do apartamento, onde estavam “profissionalmente guardadas e em condições muito boas”, afirmou Siegfried Kloeble, chefe do escritório de investigações fiscais em Munique. Segundo Kloeble, uma empresa especializada levou três dias para retirar as pinturas do apartamento, mas as autoridades não informaram onde as obras de arte estão a ser guardadas.

O promotor Reinhard Nemetz, responsável pela investigação de crimes de colarinho branco, defendeu o silêncio prolongado das autoridades a respeito da descoberta, por questões de segurança. “A nossa primeira preocupação é saber se um crime foi cometido”, disse o promotor, ressaltando a “posição legal extremamente complexa” do caso. Segundo ele, a atenção pública em relação ao caso é “contraproducente” para as investigações.

MA / Agência Estado / Associated Press / Dow Jones.

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