Bots nas redes sociais reforçam campanha de candidatos no Brasil

Tor Håkon / Flickr

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O uso massivo da Internet como veículo de propaganda dos candidatos às presidenciais do Brasil tem (mais) um lado negro. Uma análise feita pelo Laboratório de Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, a pedido da BBC, mostra que há perfis com características de robôs tanto entre os militantes da candidatura de Aécio Neves como de Dilma Rousseff.

Neste caso, os robôs – também conhecidos como bots – são perfis que reagem automaticamente a mensagens no Twitter, geralmente ao fazer retweet de publicações de outros utilizadores.

A recolha dos dados pelo Labic foi feita durante pouco mais de 18 horas, entre 22 e 23 de outubro, usando as hashtags #aecio45pelobrasil e #13rasiltodocomdilma, ambas usadas nos perfis oficiais dos candidatos.

“Foram 106 mil tweets com a hashtag de Aécio e 85,5 mil publicações com a de Dilma. Isso fez com que as duas aparecessem de manhã nos trending topics da rede social”, descreve Fabio Goveia, um dos coordenadores do Labic.

A atividade que fez com que as hashtags chegassem aos tópicos mais populares, no entanto, tem características suspeitas, de acordo com o investigador.

“Os perfis mais ativos do lado de Aécio e de Dilma fizeram entre 700 e mil publicações em pouco mais de 18 horas, a maioria retweets. É humanamente possível? Talvez sim, mas essas pessoas teriam que ter feito apenas isso durante toda a madrugada.”

A questão é que nem todos os perfis-robôs são flagrantemente falsos. “Alguns perfis são tão bem feitos que fazem publicações quotidianas e torna-se difícil saber se são falsos ou reais”, explica Fabio Goveia.

“Outra estratégia é pagar a pessoas reais para que os seus perfis, que já existem há algum tempo e têm um histórico de publicações normais, sejam administrados por um programa.”

Oficialmente, as duas campanhas negam que usem bots para espalhar as suas mensagens pela rede.

Repetição

A estratégia de usar bots para espalhar mensagens já é comum em campanhas de marketing de empresas, mas o especialista em marketing digital João Paulo Nogueira afirma que “nem é preciso ir tão longe”.

“Empresas maiores têm orçamentos grandes para marketing, mas muitos bloggers fazem isso – e eu posso até ensinar em 15 minutos como fazer isso de forma gratuita, usando ferramentas que existem na Internet”, explicou à BBC.

Para Nogueira, é possível que haja muitas pessoas a fazer com que os seus perfis atuem voluntariamente como robôs, mesmo sem ter um vínculo direto com as campanhas.

“Dá trabalho, mas há muitas pessoas que dedicam horas a espalhar mensagens na Internet sem ganhar nada com isso. Algumas têm motivação financeira, outras ideológica, e outras apenas gostam do desafio de fazer algo que parece impossível.”

Algumas características desses perfis, consideradas anormais em perfis reais, são:

  • Fazem um grande número de retweets – muitas vezes repetidos – em curtos períodos de tempo;
  • São monotemáticos;
  • Ficam mais ativos em momentos-chave da campanha de um partido, como comícios, caminhadas e debates;
  • Apesar de serem muito ativos, seguem poucas pessoas – nem mesmo as que eles mais retuítam.

O perfil @marcos_fpessoa, o mais ativo em prol de Dilma Rousseff no período analisado pelo Labic a pedido da BBC, tweetou 963 vezes entre 22 e 23 de outubro. Todos eles eram retweets com as hashtags usadas na campanha da presidente.

Na manhã da sexta-feira, ele passou a retweetar frases com #DesesperodaVeja, usada pela militância do PT nas redes sociais após uma denúncia feita pela revista na noite anterior.

Usando a ferramenta gratuita All My Tweets, disponível na Internet, a BBC viu que @marcos_fpessoa tem mais de 3 mil publicações desde que foi criado. Ao excluirmos os retweets da pesquisa, apenas uma mensagem foi publicada.

Já o perfil @ht_cec, o mais ativo em prol de Aécio Neves no mesmo período, tweetou 750 vezes no mesmo período, todas elas, também, com hashtags da campanha.

Além dos retweets, a ferramenta mostra cerca de 60 publicações aparentemente manuais do perfil, entre mais de 3 mil totais. Todas as mensagens “autorais”, no entanto, repetem frases da militância do PSDB. Algumas são apenas compilados de hashtags oficiais.

“Os números de tweets que observamos em todas as leituras são muito próximos dos dois lados. Parece haver um confronto em que um responde aos ataques dos outros. A estratégia de ataques é a mais predominante”, afirma Goveia.

Mudança de estratégia

A troca de ataques entre militantes do PT e do PSDB no Twitter durante os debates motivou o Labic a estudar a atuação dos perfis-robô nas campanhas.

“É algo que não abordávamos antes, mas começamos a perceber um mesmo tipo de redes recorrentes. Os gráficos que fazemos – que mostram as relações entre as pessoas no Twitter com base nas hashtags dos debates – estavam a ficar semelhantes”, explica Fabio Goveia

Na segunda volta, no entanto, a estratégia parece ter mudado. “Nos três últimos debates, percebemos que houve um número menor de robôs a atuar. Talvez a presença impositiva na rede possa ter criado uma impressão negativa entre os eleitores”, diz Goveia.

Isto quer dizer que os perfis com comportamento anormal têm usado menos as hashtags oficiais dos eventos transmitidos na TV, como #DebatenaBand e #DebatenaRecord, e concentrado as suas atividades com as palavras de ordem das campanhas oficiais.

“Usar somente as hashtags das campanhas é um modo de permanecer oculto, misturado na multidão de pessoas que estão a participar naquela conversa, mas continuando a produzir um grande volume de mensagens”, explica o especialista.

Oficialmente contra os bots

Apesar do possível envolvimento voluntário de pessoas na criação de perfis teleguiados, João Paulo Nogueira afirma que a prática também não seria difícil para as campanhas do PT e do PSDB.

“Tenho muitos amigos que trabalharam como freelancers nessas eleições, a fazer precisamente isso, para agências de publicidade que são contratadas pelas campanhas, mas não querem vincular os seus nomes a esse tipo de ações”, afirmou.

Uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada a 30 de setembro, ligou uma série de perfis falsos à conta de um publicitário cuja empresa recebeu dinheiro da campanha do PSDB. Ele afirmou que é vítima de uma “estrutura colossal” criada por terceiros para retweetar as suas mensagens no Twitter.

A campanha de Aécio Neves afirma que a mobilização de seus militantes nas redes sociais “é feita de forma orgânica com a participação dos diretórios estaduais” e que não usa robôs nas suas ações.

“Quando a equipa responsável pela coordenação do perfil oficial do candidato à Presidência da República Aécio Neves identifica o uso de robôs, informa ao Twitter para que sejam tomadas das devidas providências”, afirmou, em nota à BBC. A campanha não soube informar, no entanto, quantos perfis já foram denunciados.

A coordenação da campanha de Dilma Rousseff, por sua vez, disse ser “terminantemente contra a utilização de artificialidades nas redes para promover ideias ou questionar adversários” e denunciar “a utilização de robôs e perfis fakes na campanha tucana”.

“A campanha à reeleição de Dilma nas redes vem sendo e será sempre pautada por uma postura de incentivo ao debate aberto e democrático sobre os projetos de país que estão colocados à escolha dos eleitores”, disse, em resposta à BBC.

ZAP / BBC

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