Bairros de lata são incubadoras de covid-19, mas ninguém ajuda os milhões que lá vivem

Bairros de lata, como as favelas, são consideradas incubadores de covid-19. No entanto, pouca atenção lhes tem sido dada na resposta à pandemia.

Tendo devastado algumas das cidades mais ricas do mundo, a pandemia do novo coronavírus está agora espalhar-se pelas megacidades dos países em desenvolvimento. Áreas urbanas em expansão no Brasil, Nigéria e Bangladesh estão a ver infeções por covid-19 aumentarem rapidamente.

Dada a trajetória mortal em comunidades marginalizadas de Nova Iorque e Londres, os coronavírus podem muito bem devastar cidades muito mais pobres.

Particularmente preocupantes são os bairros de lata que abrigam cerca de mil milhões de pessoas – uma em cada sete pessoas na Terra. Caracterizados por direitos de propriedade inseguros, habitações de baixa qualidade, serviços básicos limitados e falta de saneamento, estes assentamentos informais agregam fatores de risco que aceleram a propagação da infeção.

No entanto, uma recente investigação mostra que muitos moradores de bairros de lata e assentamentos irregulares não estão a receber a ajuda necessária para sobreviver à pandemia de covid-19.

Densidade e pobreza

A sobrelotação é uma das razões pelas quais os bairros de lata são conhecidos como incubadoras de doenças. Os assentamentos informais são tipicamente 10 vezes mais densos que as áreas vizinhas da mesma cidade.

O bairro de Dharavi, no centro de Mumbai, por exemplo, tem cerca de 97.000 habitantes por quilómetro quadrado, em comparação com as 11.500 pessoas por quilómetro quadrado noutras partes da cidade. É muito mais difícil praticar o distanciamento social, em casa ou na rua, em locais tão apertados.

Além disso, a maioria dos bairros urbanos mais pobres do mundo carece de água potável e casa-de-banho privada, tornando um desafio as práticas que salvam vidas, como lavar as mãos. Para chegar ao trabalho, muitas pessoas nos bairros de lata viajam atoladas em carrinhas e autocarros por longas distâncias, vetores perfeitos para doenças.

Por várias razões – entre elas, baixo acesso a serviços de saúde – as pessoas que vivem em assentamentos informais também sofrem desproporcionalmente de condições de saúde subjacentes, como obesidade, diabetes e hipertensão. Todos estes problemas podem agravar doenças respiratórias como a covid-19.

No Brasil, que está rapidamente a tornar-se um epicentro global de covid-19, pelo menos 1,5 milhões dos 6,7 milhões de moradores do Rio de Janeiro vivem nas mil favelas da cidade.

Muitos moradores das favelas não têm água canalizada nem os recursos para comprar sabão. Mas o governo do Brasil, que nega a gravidade do seu surto, está a oferecer muito pouca ajuda pandémica. Isto deixou as organizações comunitárias a fornecer alimentos e produtos de higiene aos mais pobres do Rio de Janeiro.

Centenas de moradores de favela já testaram positivo para a covid-19. Porém, com 90% das  camas de cuidados intensivos ocupadas, aqueles que sofrem de doenças graves têm poucas chances de obter atendimento de emergência adequado.

As consequências económicas da covid-19 também são devastadoras para as pessoas mais pobres. Nas favelas do Rio, onde os moradores geralmente ganham menos de 5 euros por dia, mais de 70% das famílias relatam um declínio de rendimento desde o surto de coronavírus.

Uma melhor solução

Um estudo publicado em abril na revista científica Journal of Urban Health recomenda que os países em desenvolvimento que enfrentam surtos de doenças infecciosas priorizem o fornecimento de água, alimentos e materiais de saneamento para os seus moradores mais pobres.

Economistas também aconselham a fazer pagamentos em dinheiro para as famílias mais pobres e interromper as ordens de despejo.

Para trabalhar em áreas onde a confiança no governo é baixa, todas estas medidas devem ser sustentadas por um forte programa de comunicação que envolva líderes de bairro credíveis, rádio, redes sociais, anúncios de TV e mensagens telefónicas.

As pandemias globais exigem respostas globais. Mas lugares como o Rio de Janeiro enfrentam desafios diferentes na luta contra o coronavírus do que, digamos, Lisboa ou Nova Iorque. A resposta de saúde pública também deve ser diferente.

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