Depois do ceticismo, UE abre as portas à vacina russa (mas só se esta se mostrar viável)

Misturar propaganda política e ciência, em especial em tempos de pandemia, pode dar mau resultado. A Sputnik foi prejudicada pela propaganda do Kremlin, mas os ensaios clínicos parecem justificar que venha a ser administrada na UE. E há quem já lhe abra as portas.

Angela Merkel entreabriu-lhe as portas da Europa, dizendo que “todas as vacinas são bem-vindas na União Europeia”. Já Josep Borrell, o Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, pediu em Moscovo à Agência Europeia de Medicamentos (EMA) que aprovasse a vacina russa Sputnik V, para se juntar ao arsenal europeu contra a covid-19.

“Se a vacina for de alta qualidade, porque não aprová-la, só porque é russa?”, questiona Kadri Liik, analista estónia do Conselho Europeu de Relações Internacionais (ECFR, na sigla em inglês), especialista em política russa e nas relações da Rússia com o Ocidente. “É melhor manter as coisas separadas. Seria errado pôr de lado a Sputnik V só porque a liderança russa se comportou de uma forma estúpida”, disse Liik ao Público.

Os primeiros comunicados de imprensa, e os próprios artigos publicados em revistas científicas ocidentais, foram recebidos com ceticismo. Um grupo de investigadores assinou mesmo uma carta em setembro onde manifestava a sua preocupação com a falta de informação nos artigos científicos publicados pelos cientistas russos sobre a vacina desenvolvida.

Sob essa chuva de críticas e desconfiança, o que faltava em credibilidade à vacina russa sobrava em propaganda – desde logo pelo nome, Sputnik, pedido emprestado ao primeiro satélite artificial, de fabrico russo. O “V” é de vacina, segundo o Fundo de Investimento Direto Russo, que faz a exploração e marketing da vacina.

No entanto, essa desconfiança atenuou-se, de forma acentuada, na semana passada, com a publicação, na revista médica The Lancet, de uma análise intermédia do ensaio clínico de fase 3 da vacina Sputnik V, em que esta apresentou uma taxa de eficácia de 91,6%.

“Estes últimos dados são muito completos e estão conformes aos padrões internacionais”, referiu Ian Jones, da Faculdade de Biologia da Universidade de Reading (Reino Unido), ao Público.

“É bastante claro que a vacina é eficaz e segura e pode juntar-se a outras vacinas na prevenção da doença da covid-19”, considerou o virologista.

O fabricante da vacina Sputnik V ainda não formalizou o pedido de aprovação da EMA, mas já várias vezes anunciou a intenção de o fazer. É com base nessa intenção, e no artigo na Lancet na semana passada, que satisfaz os critérios de qualidade internacionais, que um novo interesse começou a surgir – sobretudo num momento de escassez de vacinas no espaço europeu.

“Para a UE, a prioridade é garantir que as pessoas são vacinadas. Portanto, ao ser confrontada com os atrasos dos fabricantes ocidentais, este bloco está a começar a considerar a Sputnik V”, comentou Joanna Hosa.

“O objetivo da UE é mostrar esta vacina da forma mais neutra possível – mostrar que pode ser usada, desde que se demonstre que é eficaz e que tem uma avaliação positiva da EMA. Há uma tentativa de despolitizar a vacina”, explicou ao Público.

Porém, mesmo que a vacina russa venha a ser aprovada na UE, nunca será a solução para inundar o mercado europeu. Qualquer nova vacina “levaria quatro a cinco meses” para começar a produzir-se, e isso “num calendário ambicioso”, disse o administrador da Biologika, Jürgen Betzing, citado pela Deutsche Welle.

Por outro lado, para a Rússia, seria muito importante conseguir que a sua vacina fosse aprovada na UE, diz Kadri Liik. “Seria uma distinção de qualidade. Se só a conseguir exportar para países do Terceiro Mundo, isso é uma coisa. Se a UE a aceitar, isso mostra que conseguem produzir algo que é de nível mundial, refere.

A Sputnik V pode entrar no programa de vacinação ocidental, e mundial, de outra forma: conjugada com a vacina da AstraZeneca. É que ambas são do mesmo tipo – usam adenovírus inativados como veículos para transportar a proteína da espícula do SARS-CoV-2 para o interior do organismo.

ZAP //

 

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