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Testes aleatórios no meio da rua e robôs (quase) humanos. Os segredos do Ruanda na luta contra a covid-19

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Enquanto em alguns países possa ser difícil ser testado para covid-19, no Ruanda, a população pode ser testada aleatoriamente enquanto anda na rua – e é gratuito. E esse é o segredo do sucesso do país na luta contra a pandemia.

No Ruanda, os testes são gratuitos, podem ser feitos aleatoriamente e até há robôs a ajudar os profissionais de saúde. “Sempre que alguém está a conduzir um veículo, bicicleta, motocicleta ou mesmo a andar, é-lhes perguntado se desejam fazer o teste”, disse Sabin Nsanzimana, diretor geral do Centro Biomédico de Ruanda, citado pelo NPR.

O teste é voluntário, embora há quem diga que a recusa é mal vista. Autoridades de saúde em equipamentos de proteção individual administram o teste. A recolha de amostras, feita por um cotonete no nariz, e o preenchimento da papelada de informações de contacto demoram cerca de cinco minutos.

“Todas as amostras são enviadas nesse dia para o laboratório”, explicou Nsanzimana. “Temos um grande laboratório aqui em Kigali. Também temos outros seis laboratórios nas outras províncias.”

Apesar de ser classificado pelo Banco Mundial como um país em desenvolvimento e apesar dos seus recursos limitados, o Ruanda prometeu identificar todos os casos de coronavírus. Quem tiver um teste positivo é imediatamente colocado em quarentena numa clínica. Todos os contactos desse caso considerados de alto risco também ficam em quarentena numa clínica ou em casa até serem testados.

Os profissionais de saúde ligam ou visitam todos os contactos de alguém que tenha testado positivo. “Acreditamos que isso é importante para garantir que detetamos e rastreamos onde o vírus pode estar”, explicou.

O rastreamento abrangente de contatos é uma tarefa que sobrecarregou os países com muito mais recursos do que Ruanda. O salário per capita de Ruanda é de aproximadamente 1750 euros por ano. No entanto, todos os testes e tratamentos para o vírus são fornecidos gratuitamente.

Cada teste de diagnóstico custa entre 43 e 87 euros ao Governo. Para testar milhares de pessoas por dia, o Ruanda começou a usar um processo diferente, em que as amostras de entre 20 a 25 cotonetes nasais são colocadas num frasco que passa pela máquina. Isto permite que testem muito mais amostras ao mesmo tempo. Se obtiverem um resultado positivo, todos os cotonetes que foram inseridos no frasco inicial serão testados individualmente para identificar a pessoa infetada.

O sucesso do Ruanda também se deve à sua experiência em lidar com surtos de doenças infecciosas. O país está a usar sistemas e equipamentos que já possuía para combater o IVH.

Desde o registo do primeiro caso de covid-19 em março, o Ruanda, com 12 milhões de habitantes, registou cerca de 1.200 casos. “O Ruanda fez algumas coisas bastante inteligentes”, disse Sema Sgaier, chefe da Fundação Surgo, que lançou uma ferramenta de dados para analisar as tendências do covid-19 em África. “Uma delas é que o país respondeu muito cedo. Colocaram alguns dos bloqueios mais rigorosos em comparação com todos os outros países africanos”.

O Ruanda mobilizou também profissionais de saúde e da polícia e alunos universitários para trabalhar como rastreadores de contactos e configurou postos de comando nacionais e regionais para rastrear casos.

Além disso, o país está a usar robôs de tamanho humano nas clínicas covid-19 para medir a temperatura dos pacientes e fornecer suprimentos.

Tolbert Nyenswah, que dirigiu a resposta do Ministério da Saúde da Libéria ao ébola em 2014, dá nota positiva ao Ruanda. A forte liderança do presidente Paul Kagame, que Nyenswah diz que pode ser autoritária, foi eficaz durante esta crise. Quer o povo confie ou tema o Governo, os habitantes ouvem o Governo e seguem as ordens em relação a usar máscara, lavar as mãos e ficar em casa.

  ZAP //

 

4 Comments

  1. Testes aleatórios parece-me bem. Muitos podem estar infetados sem o saber e assim continuar a disseminar o vírus. Acho que se devia fazer o mesmo por cá. Eu ia fazê-lo de livre vontade.

  2. Ótima matéria!
    Muito interessante colocarem de 20 a 25 cotonetes no mesmo fraco e só testarem individualmente se esse conjunto se mostrar infectado!

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