Talibãs anunciam que querem mulheres no governo. Rússia, China e Irão dispostos a conversar

Nawid Tanha / Lusa

Apesar de se mostrarem mais moderados, os talibãs continuam a preocupar muitos afegãos, especialmente mulheres. Num comunicado à nação, Joe Biden respondeu à situação causada pela saída das tropas ocidentais.

Segundo avança a Associated Press, os talibãs declararam que querem que mulheres integrem o novo governo, mas não especificaram que medidas vão aplicar nesse sentido.

Esta intenção foi proclamada por Enmullah Samangani, membro da Comissão Cultural do Emirado Islâmico, na televisão do estado, que foi controlada pelos talibãs no Domingo.

O comunicado surge numa tentativa de acalmar os ânimos, depois do caos instalado no aeroporto de Cabul com a tentativa de fuga de centenas de pessoas que se agarraram aos aviões que iam para os Estados Unidos. Pelo menos sete pessoas morreram.

Muitos residentes da capital afegã ficaram em casa com medo depois do grupo islâmico ter assumido o controlo do país. Quando anteriormente controlaram o Afeganistão, os talibãs faziam uma interpretação literal da lei de Sharia, o que obrigava as mulheres a ficar em casa e foram introduzidos castigos como apedrejamentos.

O responsável diz que “o Emirado Islâmico não quer que as mulheres sejam vítimas” e que devem integrar “o governo de acordo com a lei de Sharia”. “A estrutura do governo ainda não completamente clara, mas com base na experiência, deve haver uma liderança totalmente islâmica e todos os lados devem juntar-se”, explica.

Apesar da mensagem mais moderada dos talibãs, muitos afegãos continuam com medo e cépticos. A equipa de futebol feminina do Afeganistão inclui-se neste grupo. Khalida Popal dirige a equipa nacional e tem recebido chamadas de outras jogadoras preocupadas.

“Tenho encorajado a que apaguem os perfis nas redes sociais, apaguem fotos, que fujam e que se escondam. Isto parte-me o coração porque estes anos todos temos trabalhado para aumentar a visibilidade das mulheres e agora estou a dizer-lhes que se calem e que desapareçam. As vidas delas estão em perigo“, afirma à AP numa entrevista.

Aos 34 anos, Popal vive na Dinamarca, depois da sua família ter fugido quando os talibãs conquistaram Cabul em 1996. Há vinte anos, regressou ao Afeganistão e viveu num campo de refugiados no Paquistão. Agora, mal consegue compreender a rapidez com que o governo afegão caiu.

“A minha geração tinha a esperança de reconstruir o país, melhorar a situação para a próxima geração de mulheres e homens no país. Então, comecei com outras raparigas a usar o futebol como uma forma de dar mais poder às mulheres e meninas”, revela.

Popal ajudou a expor os abusos sexuais que ocorriam na liderança da federação afegã e teve de procurar refúgio na Dinamarca em 2016 quando recebeu ameaças por se referir aos talibãs como os “inimigos”.

Agora, mostra-se desiludida com o abandono da comunidade internacional às mulheres. “Abandonaram-nos porque já não tinham mais interesses nacionais. É isto que as minhas raparigas que estão a chorar e mandar mensagens me dizem. Porque é que não nos disseram que iam sair desta forma? Pelo menos podíamos ter-nos protegido”, acusa.

Num discurso à nação, Joe Biden respondeu à queda do governo do Afeganistão e confessou que aconteceu mais rápido de que os americanos tinham previsto. “Demos-lhes todas as oportunidades para determinar o seu próprio futuro. Não pudemos dar-lhes a vontade de lutar por esse futuro”, disse.

Biden reforça que “as tropas americanas não podem e não devem combater e morrer numa guerra que as forças afegãs não estão dispostas a combater por si próprias” e justifica novamente a decisão de retirar as tropas com a defesa dos interesses dos EUA.

“Depois de 20 anos aprendi que nunca houve um bom momento para retirar as forças norte-americanas. Nunca se supôs que a missão no Afeganistão fosse construir uma nação. O nosso único interesse nacional vital no Afeganistão continua a ser hoje o que sempre foi: prevenir um ataque terrorista na pátria norte-americana“, reforça.

Sobre as preocupações com os direitos das mulheres, o presidente americano garante que vai continuar “a erguer a voz pelos direitos básicos do povo afegão, das mulheres e das meninas”.

Rússia, Irão e China sentam-se à mesa com talibãs

Segundo avança o Público, a Rússia, a China e o Irão estão dispostos a reunir-se com um representante talibã e os três países mantêm as embaixadas abertas em Cabul.

Esta notícia surge depois do porta-voz do grupo radical, Mohammad Naeem, ter apelado numa entrevista à Al-Jazeera que “todos os países e entidades” se sentassem à mesa de negociações para resolver “quaisquer questões”.

A Rússia já tinha recebido uma delegação talibã em Moscovo em Julho e a China também já tinha criado laços com o grupo antes. O governo chinês afirma estar disposto a colaborar com o grupo na reconstrução do país.

“Os talibã têm expressado a expectativa de desenvolver boas relações com a China e de ver a China a participar na reconstrução e desenvolvimento do Afeganistão. Apreciamos essa vontade. A China respeita a vontade e a escolha do povo afegão”, anuncia o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês.

O embaixador russo, Dmitria Zhirnov, vai reunir-se com um representante do novo governo talibã esta terça-feira, depois de Moscovo já ter criado “contactos de trabalho” com o grupo radical. O embaixador russo na ONU, Vassely Nebenzia, afirmou que “não vale a pena entrar em pânico”, numa reunião do Conselho de Segurança.

No caso do Irão, o novo presidente, Ebrahim Raisi, afirma que o “fracasso militar” dos Estados Unidos traz “uma oportunidade para restaurar a vida, a segurança e uma paz duradoura no Afeganistão”.

O diplomata Mohammad Javad Zarif, que foi Ministro dos Negócios Estrangeiros e acompanhou a situação no Afeganistão, vai continuar em contacto com o presidente. O Irão vai também construir abrigos em três províncias no leste para afegãos que cheguem ao país.

  AP, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Agora não há que ter medo de ataques terroristas, isso, não passa de fantasia. Todos esses talibãs vão praticar a democracia, com boas relações diplomáticas e de cooperação com a China e a Rússia, de momento.
    A “Rota da Seda” e a produção e comércio da heroína estarão em pleno desenvolvimento, sem embargo e sem bloqueio, pois, o Afeganistão será Livre e Democrático.
    A palavra “Al Qaeda” já está abulida neste artigo e deixará de ser utilizada nos meios de comunicação de todo o mundo…
    Deixaram de andar fugidos, desceram as montanhas e têm um Estado, um País…
    Nova ordem, com certeza.
    Temos, todos, de aceitar isto, sem medo.

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