O PS não mente, mas engana. E “quem semeia ilusões, colhe greves”

Mário Cruz / Lusa

O presidente do PSD, Rui Rio (D), acompanhado pelo líder parlamentar do partido, Fernando Negrão

O presidente do PSD, Rui Rio, acusou nesta quarta-feira o Governo de “enganar os portugueses” e de “vender gato por lebre”, defendendo que é essa atitude que tem gerado “um surto brutal de greves”.

“O povo diz que quem semeia ventos colhe tempestades, eu diria que quem semeia ilusões, colhe greves. Estas greves são o resultado de quem vendeu uma realidade que é virtual e não corresponde ao que o país é capaz de dar”, acusou, numa intervenção antes do jantar de Natal do grupo parlamentar do PSD, na Assembleia da República.

Num discurso de cerca de 40 minutos, Rui Rio apontou três marcas principais que considera caracterizarem os três anos de governação socialista: falta de estratégia de crescimento económico, degradação dos serviços públicos e ser um Governo que “engana os portugueses“.

Dizendo querer “ser preciso com as palavras”, o líder social-democrata fez questão de distinguir mentira de engano. “Este Governo vende gato por lebre, engana quando promete e não cumpre”, acusou, apontando como exemplos promessas do executivo como a descida dos impostos sobre os combustíveis, a baixa do IVA da eletricidade ou a contagem do tempo de serviços dos professores.

Em todas estas matérias, Rio considerou que o Governo não mentiu “mas enganou” os portugueses, e recorreu a uma quadra do poeta popular António Aleixo para ilustrar o seu pensamento. “‘Para a mentira ser segura e atingir profundidade, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade’. É isto a base da política de comunicação do PS”, acusou.

Perante o grupo parlamentar social-democrata, com que tem tido por vezes uma relação tensa, Rui Rio sublinhou que “não há outra possibilidade de alternativa à governação atual que não passe pelo PSD”. “Aquilo que eu espero é que o tal Ano Novo de 2019 seja o momento em que nós, mais uma vez na nossa história, vamos honrar as nossas responsabilidades e ser capazes de construir essa alternativa para Portugal”, apelou.

Sobre a onda de greves, Rio considerou que representa “um falhanço precoce” da política do Governo, já que acontece apesar deste ter tentado “comprar a paz social em nome do próximo ato eleitoral”. “É de esperar que no futuro quem cá estiver vá ter problemas sérios de convulsões sociais, porque a política não foi orientada para a frente”.

Antes, o líder parlamentar do PSD, Fernando Negrão, acusou o Governo de falta de sensibilidade social e de sentido institucional e apelou também a que todos estejam “unidos à volta do líder do partido” para as três eleições do próximo ano.

No início do seu discurso, Rio tinha recordado um outro jantar de Natal na Assembleia da República, há exatamente 17 anos, poucos dias depois de ter vencido a Câmara do Porto e Pedro Santana Lopes a de Lisboa. “Que este jantar possa ser a mola impulsionadora para podermos daqui a uns meses ter vitórias não tão estrondosas, mas vitórias reais“, desejou o líder social democrata.

De presente de Natal, Rio recebeu de Negrão uma coletânea dos discursos do fundador do partido Francisco Sá Carneiro — a prenda oferecida também aos deputados — e, apenas para o líder do partido, uma coletânea dos seus próprios discursos enquanto foi deputado entre 1991 e 2001. “O Dr. Rui Rio foi um deputado combativo, que não deixava nada para trás e que, quando era preciso responder, respondia sempre. Tenho a certeza que melhor que ninguém compreende o nosso trabalho de todos os dias”, afirmou o líder parlamentar.

PSD vai apresentar projeto próprio de Lei de Bases da Saúde

Também nesta quarta-feira, o presidente do PSD anunciou que o partido vai apresentar um projeto próprio de Lei de Bases da Saúde, considerando que não é preciso fazer “nenhuma revolução” em relação ao diploma atual. No jantar de Natal do grupo parlamentar do PSD, Rio acusou o Governo de ter “piorado substancialmente o Serviço Nacional de Saúde” em três anos de governação.

“Mais importante de que se é mais público ou privado ou mais social, é que se sirva as pessoas e ao preço o mais económico que se consiga. O que temos é de cumprir a Constituição: as pessoas terem acesso ao SNS e de forma tendencialmente gratuita. E por isso o PSD vai também apresentar o seu projeto de lei relativamente à Lei de Bases da Saúde”, anunciou Rui Rio.

Para o líder social-democrata, “não é preciso fazer nenhuma revolução ao que é a lei atual”. “É preciso modernizar a lei atual e adaptá-la às circunstâncias atuais”, disse, recordando que o atual diploma tem 28 anos.

O Governo apresentou na semana passada a sua proposta de Lei de Bases da Saúde. PCP e BE também já apresentaram projetos e o CDS-PP também já anunciou a intenção de o fazer. Na sua intervenção perante os deputados do PSD, Rui Rio apontou a saúde como o setor onde os portugueses mais sentiram o que classificou de “degradação dos serviços públicos”, que apontou como uma das marcas da governação socialista.

“Não vou dizer que deram cabo do SNS, porque já tinha problemas em 2015, mas vou dizer que pioraram substancialmente o SNS, está hoje muito pior do que estava em 2015. Isto é rigorosamente verdade, não há ninguém com coragem para dizer o contrário”, afirmou. Para essa degradação, considerou, contribuiu a redução das 40 para as 35 horas semanais também no setor da saúde. “Os enfermeiros estão a trabalhar as mesmas horas, mas sai mais caro porque é preciso pagar horas extraordinárias. Se não pagam, colhem greves”, exemplificou.

O presidente do PSD apontou a ferrovia como outra das áreas em que mais se nota a degradação dos serviços públicos e aconselhou o Governo a “não arriscar nem mais um bocadinho”, sob risco de ser responsabilizado se acontecer “uma desgraça”.

“O Estado como um todo tem falhado e a resposta tem de ser dada pelo Governo”, defendeu, apontando a recente resposta da Proteção Civil no acidente com um helicóptero do INEM em Valongo como outro exemplo e o assalto a Tancos como “o mais grave porque feriu a segurança do Estado”.

“É absolutamente inequívoco que estes três anos degradaram os serviços públicos em Portugal”, concluiu, num discurso de cerca de 40 minutos, onde frisou apenas “apresentar factos” e não se querer “esticar nem um centímetro” nas acusações que fez ao Governo.

ZAP // Lusa

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