Prémio Sakharov para Nadia e Lamiya, yazidis escravizadas pelo Daesh

Ali Ferzat / Parlamento Europeu

As iraquianas yazidis Nadia Murad e Lamiya Aji Bashar sobreviveram à escravidão sexual pelo Daesh e tornaram-se porta-vozes das mulheres vítimas de violência sexual

O Parlamento Europeu atribuiu esta quinta-feira o Prémio Sakharov 2016 de Liberdade de Expressão a duas ativistas da comunidade yazidi do Iraque, Nadia Murad Basee Taha e Lamiya Ali Bashar, escravizadas sexualmente pelo autoproclamado Estado Islâmico durante meses.

A escolha foi feita hoje em conferência de presidentes da assembleia europeia, reunida em sessão plenária em Estrasburgo, anunciou o grupo político dos Liberais (ALDE), que propôs os nomes de Nadia e Lamiya para a edição deste ano do Prémio Sakharov.

Nadia Murad e Lamiya Aji Bashar foram escolhidas pelos esforços na defesa da comunidade yazidi e das mulheres que sobrevivem à escravidão sexual às mãos dos jihadistas do Estado Islâmico, tendo-se tornado porta-vozes da sua comunidade na denúncia dos crimes de guerra e genocídio perpetrados pelo Daesh.

Ambas são oriundas de Kocho, uma aldeia iraquiana que foi tomada pelo Estado Islâmico em 2014, com centenas de mulheres e raparigas yazidis a serem raptadas e escravizadas sexualmente pela organização extremista.

Histórias de vida

Nadia e Lamiya são defensoras públicas da comunidade yazidi no Iraque, uma minoria religiosa que tem sido objeto de genocídio por militantes do EI. Em 3 de agosto de 2014, o EI assassinou todos os homens da aldeia de Kocho, cidade natal de Lamiya Aji Bashar e Nadia Murad, em Sinjar, no Iraque. Após o massacre, as mulheres e as crianças foram escravizadas. Todas as jovens foram raptadas, compradas e vendidas várias vezes e exploradas sexualmente.

Durante o massacre de Kocho, Nadia Murad perdeu seis dos seus irmãos e a mãe, que foi morta juntamente com oitenta mulheres mais idosas consideradas como não tendo qualquer valor sexual.

Lamiya Aji Bashar também foi explorada como escrava sexual, juntamente com as suas seis irmãs. Foi vendida cinco vezes entre os militantes e forçada a fabricar bombas e coletes suicidas em Mossul depois de os militantes do Daesh executarem seus irmãos e seu pai.

Em novembro de 2014, Nadia Murad conseguiu fugir com a ajuda de uma família vizinha, que a retirou clandestinamente da zona controlada pelo Daesh, permitindo que seguisse para um campo de refugiados no Norte do Iraque e depois para a Alemanha.

Lamiya Aji Bashar tentou fugir várias vezes até escapar finalmente, com a ajuda da sua família, que contratou passadores locais. Ao fugir da fronteira curda para território controlado pelo governo do Iraque, uma mina terrestre explodiu, matando duas pessoas das suas relações e deixando-a ferida e quase cega.

Felizmente, conseguiu escapar e acabou por ser enviada para tratamento médico na Alemanha, onde se juntou aos seus irmãos sobreviventes.

Desde a sua recuperação, Lamiya Aji Bashar tem trabalhado ativamente na sensibilização para a situação da comunidade yazidi e continua a ajudar mulheres e crianças que foram vítimas da escravidão e das atrocidades do EI.

Prémio Sakharov

O prémio deverá ser entregue a 14 de dezembro em Estrasburgo.

Os outros dois finalistas na edição deste ano do Prémio Sakharov eram o jornalista turco Can Dundarn, detido depois de o jornal que dirige ter noticiado o alegado contrabando de armas dos serviços de informações do país para rebeldes na Síria, e Mustafa Dzhemilev, líder tártaro na Crimeia (território ucraniano anexado pela Rússia), que defende os direitos humanos e das minorias há mais de 50 anos.

O Prémio Sakharov da liberdade de pensamento, no valor de 50 mil euros, foi entregue em 2015, ao blogger saudita Raif Badawi, que cumpre uma pena de dez anos de prisão por “insultos ao Islão”.

Nelson Mandela e o dissidente soviético Anatoly Marchenko (a título póstumo) foram os primeiros galardoados, em 1988.

Em 1999, o galardão foi entregue a Xanana Gusmão (Timor-Leste) e, em 2001, ao bispo Zacarias Kamwenho (Angola).

“Violação como meio de destruição”

Em 2015, Nadia apresentou ao Conselho da Segurança da ONU um relatório sobre os crimes cometidos pelo Daesh, num discurso que emocionou o mundo.

“O Estado Islâmico não veio para matar as mulheres e as raparigas, mas para nos usar como despojos de guerra, como objetos para serem vendidos ou para serem dados de graça”, disse no seu discurso.

“O Daesh tinha uma intenção, destruir a identidade yazidi pela força, violação, recrutamento de crianças e destruição de locais sagrados que capturaram”, afiançou ainda.

Nadia Murad denunciou a violência usada pelo grupo terrorista “especialmente contra as mulheres yazidi”, recorrendo à “violação como meio de destruição” para assegurar que “nunca mais voltarão a uma vida normal”.

Em setembro, Nadia Murad tornou-se a primeira vítima de crimes de tráfico humano a ser nomeada Embaixadora da Boa Vontade da UNODC, a entidade das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. A iraquiana, de 23 anos, foi designada como Embaixadora para a Defesa da Dignidade dos Sobreviventes do Tráfico de Seres Humanos, depois de ter conseguido escapar a três meses de cativeiro às mãos dos terroristas do Daesh.

“Nadia sobreviveu a crimes horrendos. Chorei quando ouvi a história dela”, assume o secretário-geral da organização, Ban Ki-Moon. O seu papel enquanto embaixadora da ONU foca-se “em aumentar a consciência em torno da difícil situação das inúmeras vítimas de tráfico”.

Poucas semanas depois, foi anunciado que Amal Clooney, considerada uma das advogadas especializadas em direitos humanos mais competentes do mundo, iria representar a jovem iraquiana num processo contra a organização terrorista Estado Islâmico em tribunal.

“Não há como combater uma ideia assim. Acho que uma das formas de punir o Estado Islâmico é expondo as suas atrocidades e corrupção. E uma forma de fazer isso é com o julgamento”, disse a advogada numa entrevista.

Em outubro de 2016, o Conselho da Europa homenageou-a com o Prémio dos Direitos Humanos Václav Havel.

ZAP / Lusa

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