Porto escolhido para acolher Agência do Medicamento (com críticas de Lisboa)

Rui Moreira / Facebook

O presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira

O presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira

No final da reunião do Conselho de Ministros, realizada esta quinta-feira, a ministra da Presidência anunciou a candidatura do Porto para acolher a sede da Agência Europeia do Medicamento (EMA). Mas as críticas vindas da capital, que chegou a ser a única candidata no processo, não tardaram a chegar.

Segundo o anúncio de Maria Manuel Leitão Marques, esta é a cidade portuguesa que “apresenta melhores condições para acolher a sede daquela instituição” e de acordo com o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, também porque “está mais próxima do centro da Europa e do centro da Península (Ibérica)”.

Esta foi uma mudança de direção num processo que tem estado envolvido em polémica, depois de o Governo ter inicialmente decidido candidatar apenas Lisboa. Com o Norte a bater o pé, fonte oficial do Ministério da Saúde acabou por anunciar, em junho passado, que o processo de candidatura ia ser reaberto de forma a incluir também o Porto.

O Presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, já se mostrou satisfeito com a decisão do Governo. “Queria dar nota da minha satisfação por ter valido a pena levantar a voz. Queria saudar o Governo, o senhor primeiro-ministro e o ministro da Saúde que souberam em tempo olhar para o argumentário que o Porto tinha para apresentar e que apresentou”, afirmou nos Paços do Concelho aos jornalistas, citado pelo Diário de Notícias.

“Eu sei que muitas vezes voltar atrás nas decisões não é fácil, mas, quando assim é, devemos agradecer e salientar o mérito do Governo na decisão de reabrir um processo que parecia estar fechado”, disse ainda o autarca.

“Tudo faremos para que seja uma proposta ganhadora. Podemos apresentar uma candidatura musculada porque temos o trabalho feito. Agora temos de preparar uma grande candidatura para que isto não seja apenas uma questão nacional, para que se transforme numa opção vencedora a nível internacional, sabendo nós que há outras cidades muito fortes e outras grandes candidaturas”, declarou.

Medina diz que “processo não foi bem conduzido”

Numa entrevista ao DN e à TSF, que irá ser emitida no domingo, Fernando Medina não tem dúvidas de que esta mudança de planos se deve a uma “opção política”.

O autarca da capital refere que “Lisboa tem duas agências, o Porto não tem”, por isso, vê esta alteração “com naturalidade”. “Esperemos que seja uma candidatura forte, que seja para ganhar, que é o objetivo mais importante”, afirmou.

No entanto, deixa uma nota à forma como o executivo socialista gerou esta candidatura. “O processo não foi particularmente bem conduzido por parte do Governo. No início só havia uma escolha, que seria Lisboa, foi nesse contexto que se trabalhou. O Governo não se apercebeu de imediato que o Porto também reuniria as condições, apercebeu-se depois, neste momento”.

Funcionários da EMA queriam mudar-se para Lisboa

De acordo com o Expresso, o Presidente da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma) teve acesso aos resultados de um inquérito interno aos elementos da Agência Europeia do Medicamento e que a capital venceu nas preferências.

“Na semana passada, foi feito um inquérito interno e Lisboa saiu largamente vencedora comparativamente com Milão, Copenhaga, Lille e outras cidades concorrentes”, afirmou João Almeida Lopes ao semanário.

No entanto, apesar de ter confirmado a realização de vários inquéritos, o gabinete de comunicação da EMA afirmou ao jornal que “os resultados não foram publicados nem comunicados aos Estados-membros”.

Segundo o Expresso, os laboratórios desde sempre foram a favor da capital e a decisão tomada em Conselho de Ministros está agora a distanciá-los de fazer comentários. É o caso do diretor da Apifarma: “A nossa posição em defesa de Lisboa era clara mas a partir do momento em que o Governo tomou uma decisão não fazemos mais comentários”. Também o Infarmed explica que sendo “uma decisão política, não há comentários a fazer”.

“Lisboa teria mais hipóteses”

António Vaz Carneiro, diretor do Instituto de Medicina Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina de Lisboa, tem uma opinião diferente. Em declarações ao semanário, afirma que prefere a ‘cidade invicta’ porque é “a favor da descentralização” mas consegue admitir que Lisboa estava mais bem preparada.

O consultor acredita que “com Lisboa teríamos mais hipóteses” porque a cidade “tem muitos mais recursos por força do centralismo, o que dificulta o desenvolvimento mas que neste caso favorecia-a”.

“Tenho algumas dúvidas quanto ao acesso de deslocação de outros Estados-membros ao Porto, pois às vezes já temos viagens complicadas mesmo para Lisboa. Parece ter havido uma grande pressão do autarca do Porto”, afirma, por sua vez, João Goulão, que durante dois mandatos presidiu ao Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (uma das duas agências europeias com sede em Lisboa).

Além disso, o atual diretor do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências recorda que os parceiros internacionais do Observatório “gostam muito e Lisboa é um destino que a comunidade científica nesta área se habituou a frequentar“.

Portugal terá de comunicar oficialmente até 31 de julho a cidade candidata. A vencedora será conhecida em novembro, em Bruxelas. A Agência Europeia do Medicamento foi constituída em 1995 e vai sair do Reino Unido em 2019 por causa do Brexit.

ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. É impressionante como os políticos portugueses mudam de opinião do dia para a noite.
    Ontem o Porto não reunia as condições necessárias. Hoje passou a ser a cidade em Portugal com as melhores condições.
    O – passou a +.
    Serão os nossos politicos gente intrinsecamente desonesta? ou já sabem que a agencia não vem para Portugal?

    • Já fizeram isso numa escala pior, quando disseram que o aeroporto seria na OTA, com estudos fundamentados…

      E sim, a eles sabem que não vem para Portugal. É uma forma (mais uma) de passar a mão no pelo dos patéticos portugueses. Este governo gere muito bem este tipo de passagens de mão no pelo…

  2. Claro que não vem para Portugal a não ser que seja para mamar na grande teta portuguesa. Podiam ter aproveitado e ter escolhido uma cidade do interior, mas o interior só serve para arder e depois virem uns poucos viver ás contas dos peditórios de solidariedade

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