ONU acusa Vaticano de ocultar abusos sistematicamente

Tânia Rego / ABr

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A Organização das Nações Unidas (ONU) acusa o Vaticano de manter um “sistema de ocultação” de crimes sexuais contra crianças e de não colaborar com a Justiça, e pede que a Santa Sé revele a verdadeira dimensão dos casos envolvendo padres pelo mundo.

Hoje, o papado de Francisco enfrenta o seu primeiro grande teste internacional, ao ser examinado pelo Comité de Direitos da Criança das Nações Unidas sobre o que tem feito para proteger menores contra abusos sexuais.

O Vaticano admitiu a existência de abusos sexuais cometidos pelo clero contra crianças e alertou que os crimes “não podem ser ignorados por outras prioridades ou interesses”. Mas os relatores do processo querem mais transparência por parte do Vaticano. Sara Oviedo Fierro, relatora da ONU, foi uma das que lideraram o inquérito. Segundo ela, a Igreja mantém 200 mil escolas pelo mundo, com 50 milhões de alunos.

“O que tem sido implementado de facto? Quantas pessoas foram consideradas culpadas? Quantos padres foram entregues à Justiça?”, questionou.

Sara Fierro apontou que as sanções adotadas pelo Vaticano são vistas como não sendo da mesma magnitude do crime e que o “interesse do clero parece ser mais importante do que o interesse da criança”. “Existe um sistema de ocultação dos crimes”, afirmou.

A relatora acusa ainda o Vaticano de não estar a divulgar os números reais do problema. “Vocês estão dispostos a expor a dimensão do problema ao mundo? Vocês sabem o número de casos. Por que não difundir?”

Informação oculta?

Silvano Tomasi, núncio do Vaticano na ONU, nega que o Vaticano esteja a esconder informação. Segundo Tomasi, desde 2006, a Santa Sé publica o número de casos de abusos sexuais que chegaram até a Igreja. “Em 2012, temos informação sobre 612 casos de abusos sexuais, dos quais 418 envolvem crianças“, declarou.

O Vaticano, porém, admite que não tem e não publica o número final de casos de pessoas que tenham sido punidas ou colocadas na prisão. “O processo não é público”, declarou.

Entre 2006 e 2012, o Vaticano confirma que recebeu mais de 3 mil casos de abusos sexuais cometidos pelo clero. Mas não informa quantos foram punidos, nem se os responsáveis foram impedidos de praticar as suas missões religiosas.

Para Kirsten Sandberg, presidente do Comité da ONU, a falta de punição impera no Vaticano. “A maioria dos padres tem-se beneficiado da impunidade”, acusou. “As leis canónicas impõem o silêncio sobre as vítimas e existem inúmeros casos nos quais a Santa Sé recusou-se a colaborar com a Justiça local”, completou.

Ativista e vítima de abusos sexuais, Miguel Hurtado também contestou a avaliação do Vaticano: “Os dados estão escondidos. O Vaticano concentra todos esses dados. Publicá-los seria uma forma de prevenir novos casos.”

Silvano Tomasi alagou que a Santa Sé tem modificado as suas leis e, nos últimos meses, abriu um processo contra um funcionário por abusos sexuais contra crianças fora do território da Cidade do Vaticano. “Não há desculpas. Esses crimes não têm justificação nas estruturas da Igreja”, insistiu.

OMS

Usando dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o núncio do Vaticano indicou que 150 milhões de raparigas pelo mundo são alvo de abusos sexuais em diferentes instâncias da sociedade, além de 73 milhões de rapazes, numa tentativa de mostrar que o problema não é apenas da Igreja. Tomasi pediu que a ONU faça sugestões para “ajudar” na luta contra o problema e garantiu que novas medidas estão a ser tomadas.

“Os abusos são cometidos pelo clero e outros funcionários da Igreja. Isso é muito sério, porque estão em posição de confiança e devem proteger a criança”, disse. “Essa relação é de confiança e por isso é crítica”, acrescentou.

O Vaticano aderiu ao tratado que protege menores em 1990 e, em 1994, apresentou uma série de informações para a ONU. Mas passou a permanecer em silêncio até que, em 2012, voltou a dar satisfações à entidade.

A ONU pediu agora que o Vaticano entregue detalhes de todos os casos conhecidos de abusos sexuais contra crianças. O número estimado seria de 4 mil.

Mas a Santa Sé aponta que é responsável pela implementação do tratado de proteção a menores apenas dentro do seu território, a Cidade do Vaticano, onde vivem 31 crianças.

ZAP / AE

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