Os EUA estão em negação quanto ao fim do seu domínio mundial que já é certo, e que só vem agravar-se com as tarifas de Donald Trump. É o economista norte-americano Richard Wolff quem o diz.
Professor conhecido pelas suas críticas ao capitalismo contemporâneo, Richard Wolff considera que as tarifas impostas por Donald Trump a dezenas de países vão ter consequências graves para a economia dos EUA, e para os consumidores do país, levando a uma recessão.
Esta ideia foi expressa em entrevista ao programa de notícias independente “Democracy Now!“, que é financiado pelo público, sem depender de publicidade ou entidades institucionais, e que é transmitido em rádios e televisões dos EUA e também nas plataformas digitais.
Wolff diz que a estratégia do Presidente norte-americano assenta na ideia errada de que os EUA são “uma vítima” quando, na verdade, o país tem sido “um dos grandes beneficiários, nos últimos 50 anos, da riqueza económica” gerada pelo comércio global, “particularmente para as pessoas que estão no topo”, como Donald Trump.
“O fim do império americano”
Na percepção deste economista, “a economia americana está em sarilhos” e “o império americano está em declínio” há algum tempo. E acredita que as tarifas podem agravar a situação ao aumentar os preços para os consumidores, e ao provocarem retaliações de outros países.
“Os outros países não vão ficar sentados a ver” e “os EUA não têm o poder que tinham no Século XX“, analisa ainda Wolff.
Para Wolff é evidente que os EUA estão em “negação” quanto ao “fim do império americano”, notando que a hegemonia económica do país já não é uma realidade.
O economista entende que as sanções impostas à Rússia, no âmbito da guerra contra a Ucrânia, acabaram por fortalecer os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), reforçando as suas alianças económicas.
Com as tarifas, os EUA ficam ainda mais isolados e dão espaço aos BRICS para se assumirem como uma alternativa ao modelo económico que tem sido dominado pelos norte-americanos e pelos europeus, realça ainda Wolff.
“BRICS já são um bloco maior de poder económico”
A título de exemplo da perda de importância dos EUA na economia mundial, o economista nota que o Produto Interno Bruto (PIB) do país e dos seus principais aliados do G7 (Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Canadá e Japão) é de “cerca de 28% do input [recursos ou entradas] global”, enquanto o dos BRICS já é de “cerca de 35%“.
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul “já são um bloco maior de poder económico do que nós somos“, atira ainda Wolff, destacando que estes países representam metade da população mundial, e uma fatia significativa do crescimento económico global.
“Países de todo o mundo costumavam enviar os seus técnicos a Washington, ou Londres, quando queriam construir uma estrada ou expandir os seus programas de saúde, para procurar ajuda, e ainda o fazem, mas quando acabam, mandam a mesma equipa a Beijing, Nova Deli, São Paulo, e muitas vezes, conseguem um acordo melhor”, destaca ainda Wolff.
O economista salienta, assim, que “o mundo está a mudar” e realça que “os EUA poderiam lidar com isso, mas como com o alcoolismo, é preciso admitir que se tem um problema antes de se ficar numa posição de o resolver”.
“Vivemos numa nação que ainda não quer enfrentar onde é que tudo isto leva”, considera.
Wolff também tem notado o facto de os BRICS estarem a desenvolver sistemas financeiros alternativos, incluindo uma moeda internacional própria, para reduzir a dependência do dólar e contornar sanções impostas pelos EUA.
A ascensão dos BRICS marca um declínio claro da influência dos EUA, segundo Wolff. E com as tarifas, este bloco pode acabar por sair ainda mais fortalecido, com Canadá e os países da Europa a procurarem novas alianças comerciais.
Quem é Richard Wolff?
Richard Wolff é um economista e professor conhecido pelas suas críticas ao capitalismo contemporâneo, com vários livros publicados sobre o assunto.
Também é fundador da organização Democracy at Work, que promove modelos económicos alternativos, como empresas auto-geridas pelos trabalhadores.
Além disso, é apresentador do programa “Economic Update“, que é transmitido em mais de 120 estações de rádio nos EUA e em plataformas de streaming online, e onde discute temas como desigualdade económica, crise financeira e alternativas ao sistema capitalista.
Nasceu em 1942 nos EUA, e estudou em Harvard, Stanford e Yale, especializando-se em economia política e análise de classe.
Podemos esporadicamente não concordar, ou simpatizar com tudo o que o professor Wolff defende, mas recomendo vivamente aos interessados em economia, que o ouçam no Economic Update no Youtube, A peça do aeiou, refere aqui que estudou em Harvard, Stanford e Yale. Na verdade tem lecionado nestas instituições, além da City University of New York, Utah, e Sorbonne. O homem sabe do que fala.