Mundo está a “falhar o teste” da pandemia (e para o aquecimento do planeta “não há vacina”)

European Parliament / Flickr

António Guterres

Em entrevista à Lusa, António Guterres, secretário-geral da ONU, disse que a covid-19 é um “teste” ao qual a comunidade internacional está a “falhar”.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, defende que “o maior desafio existencial” que o mundo enfrenta é a crise climática, alertando, em entrevista à Lusa, que “não há vacina para o aquecimento do planeta”. Sobre a pandemia da covid-19, o ex-primeiro-ministro português não é mais otimista: é outro grande desafio, que está a funcionar como “teste” à comunidade internacional, mas, infelizmente, o mundo está a “falhar”.

“O maior desafio existencial que enfrentamos é a crise climática. Não há vacina para o aquecimento do planeta”, disse Guterres, quando questionado sobre quais foram os outros grandes desafios, a par da atual crise pandémica do novo coronavírus, que enfrentou desde que assumiu a liderança da Organização das Nações Unidas (ONU) em janeiro de 2017.

Para Guterres, contudo, o desafio da pandemia, que se está a colocar à comunidade internacional neste momento, não está a ser superado.

“A pandemia de covid-19 constitui um grande desafio mundial – para toda a comunidade internacional, para o multilateralismo e para mim, enquanto secretário-geral das Nações Unidas. Infelizmente, é um teste que, até ao momento, a comunidade internacional está a falhar”, disse em entrevista, por escrito, por ocasião do 4.º aniversário da sua aclamação pelos 193 Estados-membros da Assembleia-Geral para o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a 13 de outubro de 2016.

“Morreram já mais de um milhão de pessoas e mais de 30 milhões foram infetadas, porque não se verificou um nível de coordenação suficiente na luta contra o vírus”, enfatizou o ex-primeiro-ministro português.

Isto mostrou “sem sombra de dúvida” a fragilidade do mundo atual, disse, lamentando a falta de demonstração de uma “solidariedade necessária” para com os países que, sem apoio, não podem sobreviver ao impacto económico e social da pandemia.

“Se não forem tomadas medidas fortes e coordenadas, um vírus microscópico pode empurrar milhões de pessoas para a pobreza e a fome, com efeitos económicos devastadores nos próximos anos”, sublinhou.

António Guterres disse ainda ter “orgulho” no trabalho desenvolvido “pela família das Nações Unidas” que se mobilizou para “salvar vidas, controlar a transmissão do vírus e aliviar as consequências económicas”.

“Enviámos equipamento para mais de 130 países, na ordem das centenas de milhão de unidades; proporcionámos educação a 155 milhões de crianças e formámos quase dois milhões de profissionais de saúde e comunitários”, referiu.

Mas, e apesar da gravidade da atual crise da doença, Guterres advertiu que a fragilidade global “é o verdadeiro desafio” que o mundo enfrenta, e essa “vai muito além da pandemia”.

“A crise climática já está a causar estragos em alguns países e regiões, e não estamos no caminho certo para implementar o Acordo de Paris [sobre as alterações climáticas]. Criminosos e terroristas estão a explorar ‘áreas cinzentas’ na regulação do ciberespaço. O regime de desarmamento nuclear está a enfraquecer e o risco de proliferação está a aumentar. A xenofobia e o discurso de ódio estão a envenenar o debate democrático”.

Portanto, a pandemia deve ser um sinal de alerta. A resposta exige unidade e solidariedade, que possibilite uma recuperação forte baseada em comunidades e economias resilientes e sustentáveis, e permita enfrentar os outros seríssimos desafios que enfrentamos”, concluiu.

“Não há vacina para o aquecimento do planeta”

Sobre o dossiê climático, o secretário-geral da ONU frisou que, nos últimos quatro anos, tem vindo a insistir para que os líderes de todo o mundo se comprometam seriamente com a aplicação do Acordo de Paris (sobre as alterações climáticas) e demonstrem ambição para ir mais além.

É que, disse, a crise climática é, olhando para a big picture, o maior desafio de todos e, para esse, não há vacina. “O maior desafio existencial que enfrentamos é a crise climática. Não há vacina para o aquecimento do planeta”, disse.

Assinado em dezembro de 2015 durante a conferência das Nações Unidas sobre o clima (COP21) na capital francesa, o objetivo principal do Acordo de Paris é limitar o aumento da temperatura média mundial “bem abaixo” dos 2ºC em relação aos níveis pré-industriais e em envidar esforços para limitar o aumento a 1,5ºC.

O alcance de tal meta está assente na aplicação de medidas que limitem ou reduzam a emissão global de gases com efeito de estufa, nomeadamente uma redução até 2030 de, pelo menos, 45% nas emissões globais em relação aos níveis de 1990 e também uma neutralidade carbónica antes de 2050.

Estamos a fazer muito pouco, muito tarde, como provam as consequências de furacões, inundações, incêndios florestais e secas a que temos vindo a assistir. Precisamos de uma mudança radical para responder com seriedade e rapidez acrescidas face ao que tem sido feito até agora”, prosseguiu. Sobre o Acordo de Paris é de referir que os Estados Unidos, um dos maiores emissores mundiais de gases com efeito de estufa, anunciou em junho de 2017 a saída deste acordo climático.

Apesar das palavras de alerta, António Guterres admitiu, no entanto, que constata que “existem sinais de mudança positivos”, “não apenas a nível governamental, mas também nas empresas, nas cidades e da parte de líderes regionais”. “É essencial que a COP26, que se realizará em Glasgow no próximo ano, seja bem-sucedida e que todos os nossos esforços se orientem pela ciência”, referiu.

A 26.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP26), que pretendia relançar o Acordo de Paris (após o anúncio da retirada norte-americana), estava prevista para este ano em Glasgow (Escócia, Reino Unido), mas por causa da pandemia da doença covid-19, e à semelhança de outras reuniões internacionais, foi adiada e está prevista para novembro de 2021.

Lusa // Lusa

PARTILHAR

RESPONDER

ROUGHIE. Planador subaquático observa silenciosamente os mares (sem perturbar a vida selvagem)

Os veículos subaquáticos autónomos tornaram-se ferramentas versáteis para explorar os mares. Porém, estas ferramentas podem ser prejudiciais para o meio ambiente ou ter problemas em movimentar-se em espaços confinados. Uma equipa de investigadores da Purdue University, …

Igreja cipriota pede que a música "demoníaca" da Eurovisão seja cancelada. Governo rejeita

El Diablo foi a canção escolhida para representar o Chipre no festival da Eurovisão, que terá lugar em Roterdão, em maio. A música cipriota da Eurovisão está a causar polémica. A Igreja Ortodoxa do Chipre pediu, …

Cientistas propõem que indústria da moda pague "royalties" pelo padrão leopardo

Cientistas de Oxford, no Reino Unido, propõem que a indústria da moda comece a pagar royalties pelo uso do padrão que imita a pele de leopardo, para tentar ajudar a reverter o declínio deste felino. "O …

André Ventura foi reeleito presidente do Chega com 97,3% (e deixou recados ao PSD)

André Ventura foi reeleito este sábado, com 97,3% dos votos nas eleições internas para a presidência do Chega. O presidente demissionário do Chega foi reeleito este sábado com 97,3% dos votos, percentagem que considerou legitimá-lo para …

Uma das maiores camas do céu. JetBlue revela a nova classe executiva do Airbus A321neo

Uma das maiores camas no céu deverá estrear dentro de alguns meses, quando a JetBlue começar a voar com os seus A321neo de Boston e Nova Iorque a Londres. No dia 26 de fevereiro, a norte-americana …

Putin diz que Internet pode destruir a sociedade se não for regida pela moral

 Internet pode destruir a sociedade a partir se não não for regida por valores e leis da moral, considerou Vladimir Putin. O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, advertiu que a Internet pode destruir a sociedade a …

China torna-se o primeiro país do mundo a ter mais de mil multimilionários

A China tornou-se o primeiro país do mundo a ultrapassar a marca dos mil multimilionários, tendo neste momento um total de 1058 pessoas que têm a sorte de poder fazer parte desse grupo restrito. De acordo …

Gil Vicente 0-2 Porto | Vida fácil para o “dragão” em Barcelos

O FC Porto venceu o Gil Vicente em Barcelos, por 2-0. Pepe e Corona saíram ao intervalo com problemas físicos. O Porto foi a Barcelos conquistar três pontos de forma tranquila, perante um Gil Vicente que …

Na Índia, o comércio ilegal de burros está a crescer. A sua carne é considerada afrodisíaca

Viagra? Não, a população do estado de Andhra Pradesh, na Índia, tem um novo método para aumentar o desejo sexual: carne de burro. Esta crença está a fazer com que o comércio ilegal de carne …

Com as fronteiras fechadas, companhia aérea australiana lança "voos mistério"

A companhia aérea australiana Qantas anunciou “voos mistério”, nos quais os passageiros não fazem ideia para onde vão, numa tentativa de atrair mais clientes. As fronteiras internacionais da Austrália estão atualmente fechadas e parece improvável que …