Marcelo pede que se olhe para o passado, “sem temores nem complexos”

António Cotrim / Lusa

Marcelo Rebelo de Sousa durante a sessão solene comemorativa dos 47 anos da Revolução de 25 de Abril

O Presidente da República recordou, este domingo, o passado colonial de Portugal e pediu que se olhe para a História “sem temores nem complexos”, sem alimentar campanhas e combatendo intolerâncias.

Depois da intervenção do presidente da Assembleia da República e dos discursos dos partidos com assento parlamentar, coube a Marcelo Rebelo de Sousa encerrar a sessão solene comemorativa do 25 de Abril no hemiciclo.

O Presidente da República começou por falar sobre a “missão ingrata” que é “olhar para o passado com os olhos de hoje”, referindo-se à altura da História em que Portugal foi um colonizador, e com particular destaque para a Guerra Colonial. “Não podemos passar de culto acrítico a demolição acrítica“, declarou, citado pela rádio TSF.

Marcelo Rebelo de Sousa declarou que é preciso assumir o passado de Portugal, “com tudo de bom e de mau que tem” e recordou que os que combateram naqueles dias o fizeram por “por entenderem ou por os terem feito entender” que era o melhor para a pátria.

O Presidente pediu que se faça “história da História” e que se “retire lições de uma e de outra, sem temores nem complexos, com a natural diversidade de juízos própria da democracia”.

“Mas que se não transforme o que liberta, e toda a revisitação, por mais serena liberta ou deve libertar, em mera prisão de sentimentos, úteis para campanhas de certos instantes, mas não úteis para a compreensão do passado, a pensar no presente e no futuro.”

O chefe de Estado dedicou também uma palavra aos que fizeram a revolução, lembrando que “não vieram de outras galáxias”, que “foram estes homens, eles mesmos, não outros, os heróis daquela madrugada” e recordando que “souberam superar muitas das suas divisões durante a revolução e depois dela”.

Esses militares “transportavam consigo já a sua história, as suas comissões em África, uma, duas, três, alguns quatro”, e tiveram de optar ao serviço das Forças Armadas “entre cumprir ou questionar” e “entre aceitar ou a partir de certo instante romper”, enfrentando “situações em que a linha que separa o viver do morrer é muito ténue”, referiu.

O Presidente da República afirmou ainda que “os heróis naquela madrugada do 25 de Abril” “não eram, não tinham sido militares de alcatifa, tinham sido grandes militares no terreno”.

“Eis por que razão é tão justo galardoar os militares de Abril, tendo merecido já uma homenagem muito especial aquele de entre eles que, depois de ter estado no terreno, veio a ser peça chave na mudança de regime e primeiro Presidente da República eleito na democracia portuguesa, e que sempre recusou o marechalato que merecia e merece, o Presidente António Ramalho Eanes“, acrescentou.

“Nada como o 25 de Abril para repensar o nosso passado, quando o presente é ainda tão duro”, disse Marcelo, defendendo que, apesar de ser “difícil o juízo sobre a História recente”, é prioritário “estudar o passado e nele dissecar tudo”, cita o jornal Público.

“É prioritário estudar o passado e nele dissecar tudo, o que houve de bom e o que houve de mau. É prioritário assumir tudo, todo esse passado, sem autojustificações ou autocontemplações globais indevidas, nem autoflagelações globais excessivas”, sustentou.

“O 25 de Abril foi feito para libertar, sem esquecer, nem esconder”, lembrou o Presidente, querendo que os portugueses vivam esta data como “gesto refundador da História”, “sem apoucamentos injustificados, querendo muito mais e muito melhor”.

Não há, nem nunca houve, um Portugal perfeito. Mas também não há um Portugal condenado”, concluiu o chefe de Estado.

“Que os anos que faltam até ao meio século do 25 de Abril sirvam a todos nós para trilharmos um tal caminho, como a maioria dos portugueses o tem feito nas décadas volvidas, fazendo de cada dia um passo mais as glórias que nos honram e os fracassos pelos quais nos responsabilizamos, e bem assim no construir hoje coesões e inclusões e no combater hoje intolerâncias pessoais ou sociais”, apelou.

O Presidente salientou que quem faz este apelo “é o filho de um governante na ditadura e no império que viveu na que apelida de sua segunda pátria [Moçambique] o ocaso tardio inexorável desse império, e viveu depois, como constituinte, o arranque de um novo tempo democrático, charneira, como tantos portugueses, entre duas histórias da mesma História”.

“E nem por exercer a missão que exerce olvida ou apaga a História que testemunhou, como nem por ter testemunhado essa História deixou de ser eleito e reeleito pelos portugueses em democracia – democracia que ajudou a consagrar na Constituição que há 45 anos nos rege”, realçou.

A sessão solene na Assembleia pela República teve apenas 47 deputados nas bancadas, mantendo-se a distribuição feita em 2020: 19 deputados do PS, 13 do PSD, quatro do BE e quatro do PCP e um deputado de cada um dos restantes partidos (CDS-PP, PAN, PEV, IL, Chega) mais as deputada não inscritas Joacine Katar Moreira (ex-Livre) e Cristina Rodrigues (ex-PAN).

Quanto ao Governo, esteve representado pelo primeiro-ministro, António Costa, pelos ministros de Estado e da Economia (Pedro Siza Vieira), da Presidência (Mariana Vieira da Silva) e das Finanças (João Leão), bem como pelo ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, e pelo secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro.

O antigo Presidente da República, Ramalho Eanes, foi, pelo segundo ano consecutivo, o único ex-chefe de Estado a marcar presença, com Jorge Sampaio a declinar o convite por razões de saúde e Cavaco Silva por continuar “a respeitar as regras sanitárias”.

Também assistiu à sessão solene o presidente do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, que no ano passado faltou por opção, e três elementos da Associação 25 de Abril, incluindo o presidente, o coronel Vasco Lourenço, que esteve ausente há um ano.

Destaque para o incidente ocorrido quando os convidados saíam da cerimónia. Um homem que se manifestava em frente à AR ultrapassou as baías de segurança, tentou subir a escadaria e foi impedido por agentes da PSP.

Com um pendão onde se lia “Na isenção, a razão”, poucas dezenas de pessoas manifestaram-se em frente à Assembleia da República, gritando coisas como “Não à corrupção”.

A partir das 15h00, no antigo Picadeiro Real do Palácio de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa vai conversar com jovens e capitães de Abril. À mesma hora, mas em São Bento, António Costa inaugura uma escultura de Fernanda Fragateiro e pelas 17h30 atribui a medalha de mérito cultural ao músico Sérgio Godinho.

E, depois de um ano sem o tradicional desfile, este ano a Avenida da Liberdade terá dois, depois de uma polémica que levou a Iniciativa Liberal a organizar uma iniciativa autónoma.

ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Outra vez?? Deixe a África em paz!! A maior parte dos cidadãos portugueses já nem sabe o que isso é! Só mesmo os octagenários!! O passado está morto e enterrado!! Os portugueses não devem nada a África!! Só se for alguns políticos…!

  2. Uma Democracia, doente, imperfeita e injusta. Foi o que mais sobressaiu, durante os diversos discursos. Portanto seria mais adequado, para o Sr. Presidente de falar do Presente e não de dar uma aula de História, para isso existe o Sistema de Educação. Denunciar o que faz que este País não passa de um Paraíso para o Crime Económico, seria o que todos os Portugueses de Bem esperavam. Portanto, quanto a Mim, olho para o Futuro com a Vergonha do Presente e o Complexo de ser-mos apontados do Dedo por outros !….com a Esperança que Algo mude de vez para melhor, na nossa Democracia !

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