Boris diz que dar poderes à Escócia foi um “desastre”. Escoceses querem novo referendo de independência

number10gov / Flickr

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson

Boris Johnson assumiu que dar poderes de independência à Escócia foi “um desastre”. Depois de recusarem a independência em 2014, a maioria dos escoceses quer agora um novo referendo, tendo em conta a pressão de um não acordo no Brexit e a forma como o governo está a lidar com a pandemia.

O presidente britânico, Boris Johnson, assumiu que dar poderes de independência à Escócia foi “um desastre” e recusou entregar ao país poderes adicionais, avança o jornal The Guardian, esta terça-feira.

Durante uma videochamada com legisladores britânicos do partido conservador, Johnson descreveu a delegação de poderes à Escócia como “o maior erro de Tony Blair”, ex-primeiro-ministro do Reino Unido que governou o país entre 1997 e 2007.

Embora o governo tenha, mais tarde, enfatizado que os comentários se referiam à má gestão do Partido Nacional Escocês, os comentários de Johnson – que se encontra em isolamento profilático após ter estado em contacto com uma pessoa que testou positivo à covid-19 – não foram bem recebidos pelos escoceses, que querem um segundo referendo para alcançar a independência.

Referindo-se às expectativas de que a saída de Dominic Cummings, assessor de Boris Johnson, seria um sinal de uma administração conservadora menos abrasiva, o líder do Partido Nacional Escocês em Westminster, Ian Blackford, disse no Twitter: “Podemos parar a sua bola de demolição, chama-se de independência.”

Anas Sarwar, membro do Partido Trabalhista Escocês, acrescentou: “Boris Johnson foi um desastre (…) A verdade é que ele é a maior ameaça para o Reino Unido. No meio de uma pandemia, quando as vidas e os meios de subsistência das pessoas estão em risco, os nossos governos deviam estar concentrados em unir as pessoas e ajudá-las a superar esta crise.”

Um legislador britânico que fez parte da reunião disse ainda em declarações ao The Guardian: “Johnson disse que quer que abramos o máximo que pudermos no dia 2 de dezembro, mas que temos que reconhecer que o novo coronavírus é uma doença perigosa e desagradável que é preciso controlar.”

Além disso, o primeiro-ministro do Reino Unido terá dito que deixar a União Europeia “significa que devemos fortalecer e proteger a economia do Reino Unido com a [lei do mercado interno]”, contou a fonte do jornal britânico.

Escoceses querem a independência do país

Vale a pena guardar estes comentários do primeiro-ministro para a próxima vez que os conservadores disserem que não são uma ameaça aos poderes do Parlamento escocês – ou que apoiam a devolução de mais poderes” ao país, escreveu a primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon no Twitter, acrescentando que “a única forma de proteger e fortalecer a Escócia é com a independência”.

 

Num referendo que data a 2014, a independência do país foi rejeitada nas urnas, com 55% dos votos contra. No entanto, em 2016, Inglaterra e o País de Gales votaram para sair do acordo da União Europeia, enquanto a Escócia e a Irlanda do Norte se opuseram aos seus vizinhos diretos e optaram por se manter.

Em 2019, milhares de escoceses marcharam pela independência da Escócia e, agora, pedem um segundo referendo para a independência, que pode dividir o Reino Unido em diferentes partes.

De acordo com as opiniões recolhidas pela Reuters, a maioria dos escoceses apoia a independência do território, após observar a forma como o governo de Boris Johnson lidou com a pandemia do novo coronavírus e com a crise do Brexit.

  ZAP //

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14 COMENTÁRIOS

  1. É totalmente legítimo e estou convicto que desta vez ganham claramente os independentistas. Na última só não ganharam porque, se tivessem ganho, teriam de sair da UE. E mesmo assim foi quase empate. Neste momento é precisamente o contrário. Se não ganhar a independência… saem da UE juntamente com o burro do Boris.
    O Reino Unido vai desmembrar-se. E até poderá haver pressões no sentido de reunificar a Irlanda. Mas isso será um processo bem mais complexo do que o da Escócia.

    • Eles saem sempre da UE, seja como UK ou como novo país independente. COmo país independente terão de passar pelo longo processo de entrada na UE.

  2. Estas coisas nunca são lineares e pacíficas. Tenho uma grande ligação pessoal e profissional com a Escócia e também concordo que a Inglaterra tem uma postura arrogante e prepotente no chamado Reino (des)Unido. A Inglaterra e a Escócia são historicamente países distintos, apenas unidos mais recentemente há 300 anos. Culturalmente são totalmente diferentes, assim como em termos de mentalidade social. Uma forma de estar em sociedadade totalmente distinta dos Ingleses, tanto individual como colectivamente.

    Por um lado, a Escócia poder tirar mais partido da sua própria riqueza e produtividade sem estar dependente de decisões Londrinas, parece à partida boa ideia. Mas não deveremos esquecer que petróleo é coisa que quase já não há na Escócia. Não é particularmente rentável a sua exploração. Não existe nada que leve a crer que económicamente a Escócia melhore com a independência. Já politicamente, sim… A Escócia funciona melhor que a Inglaterra socialmente, a todos os níveis. Os apoios ao cidadão são mais genrosos e eficazes, o Estado Social funciona melhor e há um sentido de comunidade muito mais coeso. O NHS funciona melhor e é mais barato (nem se pagam taxas moderadoras). Os subsídios, benefícios e bolsas, etc… São mais generosas na Escócia. Não é permitido por lei cortar a luz a ninguém mesmo que não esteja a pagar (considerado bem essencial), enfim… A lista não termina.

    Portanto políticamente e socialmente, a Escócia seria um país melhor e mais justo. Economicamente, uma independência do Reino unido, estou certo que seria um grande embate inicial e alguma recessão, até que a Escócia desenvolvesse um modelo económico que lhe permite recuperar desse embate. Finalmente, a questão da saída da Escócia é sempre com a ideia de voltar à UE. Porém, a aceitação da re-entrada da Escócia ficaria sempre pendente de países como a Espanha, que querendo desencorajar os seus próprios movimentos independentistas, iria sempre vetar a entrada da Escócia para funcionar como exemplo. Esta coisa de terem de aceitar os países todos da UE para outro entrar… Tem de acabar. 75% de aprovação deveria chegar.

    • Concordo em grande parte. No entanto, penso que em grande parte, discordo de tudo. Estou de acordo com a questão de Espanha mas nem tanto com a questão dos nuestros hermanos. De igual modo, o NHS é melhor na Escócia mas também é melhor em Inglaterra. Quanto à economia, o petroil está a acabar-se mas a Escócia tem o whisky e os ingleses vão ter de ficar a mamar no gin.

  3. Isto não interessa. Desde quando é um império tem que contar com o bem bem estar da população das colónias? Mais uma razão para Boris acabar com semi independências se o National Health funcionar melhor aí !

  4. Que autoridade moral tem Boris Johnson para impedir, ou mesmo criticar a intenção de saida da Escócia do Reino Unido, depois de toda esta fantochada do Brexit?

  5. A paixão pelos colonialismos não terminou com a saída dos europeus de África, ela tem raízes bem mais profundas e dentro de portas.

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