João Ferreira recusa saúde “à la carte”. Vitorino Silva diz que “a vida não tem preço”

Pedro Pina / RTP / Lusa

O candidato presidencial apoiado pelo PCP e o candidato do partido RIR tiveram o seu frente a frente, este sábado à noite, na última ronda de debates televisivos no âmbito das eleições Presidenciais.

No dia em que se soube que o primeiro-ministro, António Costa, convidou os candidatos à Presidência da República a participarem por videoconferência na reunião com epidemiologistas, agendada para terça-feira, o candidato Vitorino Silva confirmou não ter sido contactado.

Se não me convidarem, não vou. Tenho ouvido pela comunicação social que alguns candidatos já foram convidados, talvez não tenham o meu contacto”, respondeu o candidato do RIR (Reagir, Incluir e Reciclar) ao jornalista Carlos Daniel, o responsável pela moderação do debate transmitido na RTP3.

Questionado sobre se há alternativa ao confinamento, e numa altura em que os números da pandemia não param de subir, o candidato nortenho, mais conhecido por Tino de Rans, considerou que “não podemos matar as pessoas, nem a economia”.

Tem de haver um equilíbrio e temos de nos sentar todos à mesa para ir à procura desse equilíbrio”, declarou, destacando que “ainda estamos a tempo de adiar as eleições“.

“Os idosos nos lares estiveram presos estes meses todos, não puderam sair no Natal e, agora, querem libertá-los um dia para irem votar. Temos mesmo de ter muita responsabilidade porque o património que existe são os idosos, ainda temos muito para aprender com eles. Não podemos deixá-los para trás”, afirmou.

João Ferreira, por sua vez, disse que tende a “recusar esta dicotomia entre saúde e economia” porque, normalmente, “quem encara as coisas desta forma acaba por não fazer tudo o que é necessário para proteger a saúde e por prejudicar ao mesmo tempo a economia”.

O candidato a Belém apoiado pelo Partido Comunista destacou “a necessidade de prosseguir a vida” e afirmou que “não há confinamentos gerais”, lembrando que, “no período do chamado confinamento entre março e abril, houve milhares de trabalhadores que nunca confinaram”.

“De outra forma, não chegariam às prateleiras dos supermercados as coisas que todos os dias necessitamos. Na agricultura, nas pescas, na indústria, na limpeza e na higiene urbana, na comunicação social… Houve inúmeros setores da atividade económica que não confinaram, que não pararam”, enumerou.

O comunista lembrou que o país chegou a este cenário “já com estado de emergência” e que “há medidas de proteção que continuam por adotar”, nomeadamente nos locais de trabalho, nos lares e nos transportes públicos.

Sobre os novos apoios anunciados pelo Governo, João Ferreira fez um balanço negativo, tendo considerado que foram “insuficientes”, “reduzidos” e “preferencialmente direcionados para quem menos precisava deles”.

Saúde não pode ser “uma escolha à la carte”

Sobre a intervenção dos privados nesta crise pandémica, o eurodeputado afirmou que isso nunca esteve em causa, mas quis destacar o “comportamento de alguns grupos económicos nesta área”, dando para isso um exemplo concreto.

“Visitei há pouco tempo o hospital de Penafiel, que como sabemos esteve sobre grande pressão. Pude ouvir testemunhos da administração do hospital, nomeadamente o que se tentou fazer para conseguir a colaboração de algumas unidades de saúde privadas, e testemunhei as dificuldades encontradas”.

O comunista disse que houve “indisponibilidade da parte dos privados de arcar com tudo aquilo que era mais complicado e que não assumisse a perspetiva de lucro“. O candidato lembrou que, neste momento, não há só covid-19 e que “houve resistências claras em assumir áreas mais complexas”.

“Temos instrumentos [requisição civil], desde logo na Lei de Bases da Saúde, que permitem ao Estado usar toda a capacidade instalada. E acho que, numa altura destas, os portugueses não aceitariam que recursos públicos servissem para sustentar grupos económicos que fazem negócio com a doença. Ou seja, essa capacidade instalada deve ser utilizada, agora não é aceitável que haja da parte dos privados uma escolha à la carte, sempre numa perspetiva de terem lucro e não de assegurar a resposta que é necessária”.

Já na opinião de Vitorino Silva, “se o Estado não consegue salvar vidas, até se pode pagar mais um bocadinho” para garantir que haja quem o faça, porque “a vida de uma pessoa não tem preço”. O candidato do RIR lembrou que “o lucro é uma coisa natural” e que não tem “nada contra os privados”, nem contra o público, com o qual nunca teve problemas. E concordou com o candidato que tinha à sua frente: “Se é preciso mais gente, é preciso meter mais gente.”

“Não gosto dos extremos porque se tocam”

Sobre a visão que tem para o país, João Ferreira admitiu que “há um Portugal que está por cumprir”, que é o que “resultou da revolução de Abril” e que “ficou plasmado na Constituição, na qual se encontra a visão de um país livre, desenvolvido, justo e soberano”.

“Há quem me chame o candidato da Constituição e eu tenho gosto nisso. (…) Não há democracia sem os direitos que lá estão, nomeadamente, o direito ao trabalho, à saúde, à educação, à cultura, à habitação e a um ambiente de qualidade”. Mas o comunista também lembrou que “não há direitos sem desenvolvimento” e que “é o desenvolvimento que dá conteúdo aos direitos”.

Questionado sobre se há algum país que o inspire, o candidato negou, dizendo que nunca procurou “modelos noutros países para importar”, até porque “cada povo deve construir os seus próprios caminhos”.

Já Tino de Rans, não teve dúvidas. “Se me dessem a oportunidade de escolher, eu dizia que gostava de ter nascido em Portugal, de ter vivido em Portugal e de morrer em Portugal. Não há melhor país do que este, sou muito feliz aqui“, atirou.

Sobre o aparecimento e crescimento do Chega em Portugal, o candidato do RIR lembrou que o seu partido é representado por uma roda e que, para esta poder girar, não pode ter extremos. “Eu não gosto dos extremos. E não faço distinção entre extremos de esquerda ou de direita, porque os extremos tocam-se.”

Vitorino Silva recordou ainda afirmações recentes do líder e candidato do partido de extrema-direita para destacar a diferença entre ambos. “André Ventura disse que não será o Presidente de todos os portugueses. Eu serei o Presidente de todos os portugueses, até do André Ventura.”

Colocada a hipótese de dar posse a um Governo com o Chega, o ex-presidente de junta de freguesia, calceteiro de profissão, comparou a Constituição à carta de condução, considerando que o Presidente é “o polícia que está ali a zelar e a fazer cumprir”.

“Imagine eu ter carta de condução, quando vou a conduzir tenho de respeitar os sinais. O partido Chega tem o alvará, se cumprir e respeitar os sinais… Agora, se não respeitar os sinais, claro que não toma posse. Tem é de respeitar os sinais.”

O candidato comunista foi muito mais longe na resposta, lembrando que tem “noção do que são os poderes presidenciais e que não deixaria de usar nenhum deles”. João Ferreira afirmou ainda que “tudo faria para que não se chegasse a uma situação em que um partido dessa natureza estivesse em condições de ter essa influência governativa”.

“No cumprimento da Constituição, partidos dessa natureza, que se aproveitam, vivem, manipulam e instrumentalizam o descontentamento da população, não teriam o caule de abertura para crescerem”, declarou.

Dando como exemplo a situação ocorrida nos Açores, o eurodeputado afirmou que “teria tido uma iniciativa diferente daquela que teve Marcelo Rebelo de Sousa”, ou seja, teria dado “indicações ao representante da República para chamar o partido mais votado a formar Governo”. “Isso não aconteceu, como sabemos”, rematou.

No final do frente a frente, Vitorino Silva aproveitou para questionar o moderador da RTP sobre o porquê de o terem deixado, inicialmente, de fora dos debates. “Era um grande erro se eu não tivesse vindo. Valeu a pena estar aqui, esta foi a prova de que ninguém deve ser deixado para trás. Tenho a certeza que muita gente aprendeu com a minha vinda aos debates, porque o povo também fala e tem alguma coisa a dizer”, rematou, lançando ainda o repto ao adversário para aceitar um debate no Porto Canal.

Na próxima terça-feira, dia 12 de janeiro, os sete candidatos à Presidência da República vão encontrar-se num debate conjunto, que vai ser transmitido pela RTP, a partir das 22h00.

Filipa Mesquita, ZAP //

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