Atividade política está “salvaguardada”. Marcelo rejeita adiamento das eleições

Foto cedida pela RTP do debate televisivo entre os candidatos Vitorino Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, moderado pelo jornalista Carlos Daniel, nos estúdios da RTP, a 07 de janeiro de 2021

Num confronto sem discordâncias entre os dois candidatos, Marcelo Rebelo de Sousa e Vitorino Silva debateram sobre o adiamento das eleições, a importância do voto e as direitas que compõem o espetro político atual.

Durante o debate televisivo que ocorreu na noite de quinta-feira, na RTP 3, questionado sobre o adiamento das eleições devido ao agravamento da crise pandémica, Marcelo afirmou que se o número de casos diários de infeção continuar elevado, será necessário “ponderar um confinamento muito mais rigoroso”, exeto o encerramento de escolas, mas para isso serão “ouvidos os partidos”.

Respondendo a Vitorino Silva, de 49 anos, que repete a candidatura, o atual Presidente apontou para dois “dois cenários em cima da mesa”: o primeiro é o regresso a 5 ou 6 mil casos por dia, uma redução do número de casos; o segundo a continuação do ritmo elevado, podendo haver lugar “a um confinamento mais rigoroso”.

Contudo, continuou o chefe de Estado, este novo regime de contenção “salvaguarda a campanha eleitoral”, estando a atividade política protegida “em qualquer caso pelo decreto presidencial e pela sua execução”, podendo haver um “desconfinamento pró-voto”, com possibilidade de deslocação para votar.

Antes de convocar as eleições, “quando ainda não era candidato”, Marcelo indicou ter ouvido os partidos sobre esse tema, ao que recebeu “resposta unânime”, de que” não devia “ser adiada a eleição”.

Segundo Marcelo, era importante consultar os partidos nesta matéria porque, ao contrário das outras eleições, a Constituição “fixa os termos que determinam as datas possíveis da eleição”, sendo esta afixada em função do termo do mandato anterior do Presidente. Ou seja, para “haver um adiamento era preciso haver uma revisão constitucional”, passando esta pelos partidos com assento no Assembleia da República.

Vitorino, por sua vez, exemplificou com o caso de Ermesinde, onde passam “milhares e milhares de pessoas”, considerando ainda que “o povo vai ficar em casa porque tem medo”. “Imagine que não há 50% de votantes, é legitimo o Presidente da República ser eleito com menos de 50%?”, indagou, comparando ao que acontece com os referendos.

Sobre as garantias do Governo para que se possa exercer o poder de voto, Marcelo indicou que o Parlamento aprovou o voto domiciliário para os casos de confinamento profilático. A lei já está em vigor, com Marcelo apelando para que as pessoas se disponibilizem para recolher os votos de quem estiver em quarentena.

“Nunca em Portugal se viveu, em nenhuma eleição, uma situação tão difícil como aquela que estamos a viver agora em período pré-eleitoral”, rematou Marcelo.

Mudando de tema para a abstenção, Vitorino encara-a como o seu maior adversário, afirmando que o “voto é o maior património” e enaltecendo a importância dos jovens, indicando ainda que estes não estão afastados da política, mas sim dos políticos. “Nós somos os culpados por os jovens não se interessarem por política”, referiu, acrescentando que os de hoje são mais formados e que têm de ser incluídos na política nacional.

Na mesma linha da abstenção, Marcelo frisou que “as democracias vivem da participação, então há nada pior do que aqueles sistemas nos quais a abstenção vai subindo” e o distanciamento “entre políticos, responsáveis e o povo vai aumentando”. Recordou o seu passado de professor e o contacto com os jovens, concordando com o adversário na preparação que há entre os mais jovens hoje em dia.

André Kosters / Lusa

Vitorino disse ainda que o voto de Marcelo é “tendencialmente idoso”, e que o atual Presidente pode sair prejudicado com a “abstenção do medo”, enquanto o seu voto tem o voto de “sardinha e caviar, mais sardinha”.

“Estou sujeito a ter muito voto do PS”

Durante o debate, Vitorino recordou uma conversa com o antigo dirigente do Partido Socialista (PS), António José Seguro, admitindo que agora “está a gostar de Costa”. O candidato acredita que pode ganhar eleitoral socialista. “Eu tenho a certeza que o PS não vai votar Marcelo”, sublinhou.

“Quando percebemos que Ana Gomes o objetivo é ficar em segundo, um grande partido não pode ficar em segundo e eu estou sujeito a ter muito voto do PS”, esclareceu, frisando que “António Costa não quer que o Marcelo tenha 70% de votos”.

Respondendo a Vitorino, Marcelo afirmou que a sua “intenção não era fazer os dez anos em Belém” e que “foi a pandemia um fator determinante da recandidatura”. Provocando o opositor, a quem classificou como “um verdadeiro analista político”, disse que “até 2023 a legislatura deve durar, no que depender do Presidente deve durar”.

“Estamos numa pandemia, com uma crise social profundíssima, uma crise política em cima antes das eleições de 23 é má”. Depois disso, “o povo é quem mais ordena: elege esquerda é esquerda, elege direita é direita”, rematou o chefe de Estado.

Vitorino, se fosse “professor ou comentador” dava “nota 14” a Marcelo, lançou o desafio ao Presidente de fazer uma auto-avaliação. Em resposta, este último explicou que “o comentador Marcelo morreu no dia em que nasceu o Presidente Marcelo”. “Não voltarei a ser comentador”, garantiu.

Voltando a ter a palavra, Vitorino referiu que há “dois políticos muito carismáticos”, Marcelo e ele próprio, e há outro que “tem algo a ver connosco que também é muito popular: André Ventura”. “Há o só popular, que sou eu. Depois há o popular populista e depois o populista popular”, disse, sendo Marcelo o popular populista, “se calhar sem se aperceber”.

Quanto a fazer sentido discutir a política entre direita e esquerda, Vitorino notou que “ninguém, nestas eleições, vai votar na direita ou na esquerda”. “A direita e a esquerda não vão a votos”, realçou, dizendo que são “as pessoas” que vão a votos. “Na minha rua quando subo a casa fica à direita e quando desço à esquerda. Depende”, finalizou.

Já Marcelo, confrontado com as direitas que se candidatam nestas eleições, e com a direita “securitária” de André Ventura – a “direita do medo” -, indicou que “um populista diz o que as pessoas querem ouvir. Um Presidente da República às vezes precisa de dizer o que as pessoas não querem ouvir”. “Quem porventura queira aparecer como populista por vezes não aprecia que haja outros que sejam próximos do povo”, disse ainda.

Em tom de finalização, Vitorino atirou: “Há quem pense que tenho gurus e que trouxe uma grande equipa, uma agência”, mas não. Abrindo um conjunto de folhas, deu autorização a Marcelo que visse tudo: “Todos os meus pensamentos estão nestas folhas”. “Se não registar as ideias, elas evaporam”, sublinhou.

Numa pergunta direta sobre as sondagens, o chefe de Estado – que se recusou a pronunciar-se sobre o caso da ministra da Justiça e do procurador europeu, bem como da contenda entre António Costa e alguns membros do PSD – Marcelo respondeu que “até ao último instante ninguém ganhou. Sondagem só no dia seguinte”.

Vitorino concluiu que está confiante que “vai ter muitos, muitos votos”. Como “candidato do Norte”, prometeu fazer tudo para “nortear o país”.

Taísa Pagno //

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