Entre João Ferreira e Ana Gomes, a convergência acaba quando se fala da Europa

Pedro Pina / RTP / Lusa

O candidato presidencial apoiado pelo Partido Comunista e a candidata socialista, mas independente, debateram, esta terça-feira à noite, em mais uma ronda de debates televisivos no âmbito das eleições Presidenciais.

Transmitido pela RTP, coube ao jornalista Carlos Daniel moderar este debate, tendo começado por perguntar à candidata Ana Gomes se estaria disponível para uma convergência à esquerda, mesmo antes de 24 de janeiro, o dia das eleições.

A ex-eurodeputada socialista mostrou-se “disponível” para essa situação, até porque, considerou, “a convergência é sempre importante e temos visto como tem feito diferença nestes últimos anos em benefício do povo português” e, sobretudo, “quando a democracia está em causa e sob ataque”.

A candidata a Belém deixou claro que a pessoa que tinha à sua frente não era o seu adversário. “O meu adversário é Marcelo Rebelo de Sousa”, afirmou.

João Ferreira, por sua vez, considerou que também a sua candidatura é “um espaço de convergência”, e isso vê-se pelo apoio que tem recebido “de diferentes quadrantes e de pessoas de outros partidos”, mas a sua resposta foi mais ambígua relativamente à convergência de esquerdas pré-eleitoral.

O candidato comunista defendeu que não encontra noutros aquilo que a sua candidatura traz. “Esta candidatura tem princípios e valores que são insubstituíveis e que não encontro noutra candidatura, como o respeito pela Constituição.”

A antiga diplomata não podia “estar mais de acordo com essas marcas referenciais da nossa Constituição” e afirmou que não veio “brincar às eleições, nem fazer marcação de território”.

Ana Gomes confiante numa segunda volta

“Eu sempre disse que o PS devia ter um candidato da sua área. O PS tem uma contribuição do socialismo democrático que faz falta à democracia portuguesa. E é por isso que, na falta de um candidato, eu decidi avançar. Tenho comigo o PAN e o Livre, o que me dá muita honra e conforto. E tenho-me sentido muito apoiada por elementos do meu partido. A minha ambição é federar os que pensam como eu“, declarou.

Ana Gomes está confiante numa segunda volta eleitoral e, se isso acontecer, “tudo é possível, sobretudo se houver uma convergência progressista”. A jurista disse não ligar às sondagens, até porque acredita que “há muita gente que não votou no passado, designadamente jovem, que vai votar” desta vez.

Este é o tempo de reclamar este país. Os jovens têm de se implicar, este país é deles, como é dos mais velhos. Mas se os jovens não assumirem o controlo deste país, não passamos da cepa torta”, afirmou.

Na hora de avaliar o mandato do atual Presidente da República, a socialista considerou que Marcelo Rebelo de Sousa não foi, em muitos aspetos, “o Presidente que precisávamos”, nomeadamente nas questões laborais.

“Era preciso mais do que nunca valorizar o trabalho e criar emprego de qualidade, decente, bem remunerado. (…) A estabilidade política é importante, sobretudo quando há um Governo que está a tentar corrigir a pior herança do passado, designadamente o tempo da troika e um Governo mais troikista do que a própria troika. Ma, por outro lado, não é por si só o que conta de um Presidente. Espera-se muito mais”, apontou.

Ana Gomes apoiou-se numa das suas principais bandeiras, tendo destacado que a “magistratura de influência do Presidente deve ser exercida, desde logo, na Justiça”, competindo-lhe “garantir que são dispostos os meios para a justiça poder funcionar“.

A jurista também destacou o caso de “desautorização do Ministro da Administração Interna pelo diretor da PSP, no Palácio de Belém, tendo invocado uma conversa com o Presidente para anunciar uma reforma que obviamente estava fora da sua competência”. “Foi uma coisa tolerada não só pelo Governo, mas também pelo Presidente.”

Ao lado do candidato comunista, a antiga eurodeputada reforçou que também não gosta da ideia de se estar a “banalizar o estado de emergência”, dizendo que, se fosse Presidente, “teria pedido à Assembleia da República uma lei de proteção sanitária”.

João Ferreira deixa críticas ao mandato de Marcelo

O eurodeputado, por sua vez, foi bastante mais crítico relativamente à atuação de Marcelo, declarando que, em vários momentos, este se “afastou do compromisso de jurar cumprir e fazer cumprir a Constituição“.

“Não teria promulgado alterações à legislação laboral aprovadas na Assembleia por maioria que desorganizaram completamente a vida de muitos trabalhadores e deixaram os jovens perante uma situação de maior vulnerabilidade”, começou.

O comunista disse que também não teria vetado “uma lei que permitia a determinados inquilinos exercerem o direito de preferência sobre casas que eram de um grupo financeiro”, referindo-se ao caso com o grupo Fidelidade, nem “teria criado dificuldades a que nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto se consagrasse definitivamente o caráter público dos transportes públicos”.

João Ferreira disse ainda que “não teria vetado o apoio que a Assembleia da República conseguiu aprovar para os sócios-gerentes, que têm todo o direito a ele, pois fizeram descontos durante muitos anos para a Segurança Social”.

Convergência acabou nas questões europeias

Questionado por Carlos Daniel em como é que Portugal iria sobreviver, neste momento de crise, se estivesse fora da União Europeia, o candidato apoiado pelo PCP deixou claro que nunca defendeu esse cenário.

Eu não defendo a saída da União Europeia, defendo que o país não tem de aceitar, como tem acontecido, decisões que são claramente prejudiciais ao seu interesse”, declarou.

“Face a uma imposição, como a que veio de Bruxelas, de querer transformar uma Caixa Geral de Depósitos numa espécie de ‘caixinha’, acho que o Presidente da República tem de ter uma palavra a dizer. Ou quando vêm da UE orientações que pretendem tornar a TAP uma subsidiária de uma companhia de bandeira alemã, acho que o Presidente da República tem de ter uma palavra a dizer”, reforçou.

Foi então que começaram as claras divergências entre ambos. Ana Gomes declarou-se “profundamente europeísta” e está ainda “mais convicta hoje de que sem Europa nós não nos salvamos”.

“Há uma sinergia, um trabalho de partilha de soberania que não é perda de soberania, é soberania reforçada, que é absolutamente indispensável para a regulação a nível global”, afirmou a socialista, dando como exemplo concreto a questão fiscal e dos impostos.

“Graças ao euro, do qual João Ferreira quer sair, nós temos agora acesso ao Plano de Recuperação e Resiliência para nos ajudar a sair desta gravíssima crise. Vamos ter mutualização da dívida, que vai ter de ser paga com impostos europeus. João Ferreira tem estado no Parlamento Europeu a votar contra propostas como, por exemplo, um imposto sobre as grandes multinacionais digitais e ainda sobre as empresas poluidoras, que iriam financiar essa mutualização da dívida”, criticou.

Mas Ana Gomes foi mais longe e sacou das cartas que tinha na manga. “João Ferreira absteve-se no relatório sobre o escândalo LuxLeaks. Absteve-se e votou contra no último relatório sobre as questões fiscais. (…) A proposta de publicação de relatórios país por país, para as multinacionais dizerem o que têm de pagar de impostos em cada país. Você votou contra, ó João”.

O comunista replicou. “Aquilo que eu critico é a aceitação de formas de integração que colocam os países em pé de desigualdade na hora de decisão. Não aceito que seja a Alemanha a determinar aspetos fundamentais da nossa política económica. Não aceito que o nosso Orçamento do Estado, que antes de ser discutido e aprovado na nossa Assembleia, tenha de ir ao carimbo” europeu.

Na noite desta terça-feira, também houve o frente a frente entre o candidato do Chega, André Ventura, e o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal, Tiago Mayan Gonçalves, e o debate entre a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, Marisa Matias, e o candidato do RIR, Vitorino Silva.

Esta quarta-feira, estão agendados os debate entre Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura (SIC, às 21h00), entre João Ferreira e Tiago Mayan Gonçalves (TVI24, às 22h00) e entre Vitorino Silva e Ana Gomes (RTP3, às 22h45).

Filipa Mesquita, ZAP //

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