Israel desenvolve terapia à base de ecstasy para tratar stress pós-traumático

O Ministério da Saúde israelita desenvolveu uma terapia à base de MDMA – o componente ativo da metanfetamina popularmente conhecida como ‘ecstasy’ – para tratar pessoas que sofrem de stress pós-traumático resistente.

Num entrevista sobre a nova terapia, Nachum Pachenick, um israelita de 46 anos, contou à NPR que viveu um pesadelo durante quase duas décadas, depois de ter sido abusado sexualmente e de desenvolver stress pós-traumático. O seu pesadelo acabou quando participou num ensaio para a criação da terapia com MDMA, em 2014.

O sucesso deste tratamento, que incluiu outros indivíduos, levou o Ministério da Saúde de Israel a aprovar um projeto-piloto para uma terapia assistida com MDMA, no qual foram incluídas pessoas com stress pós-traumático resistente a outras terapias.

Encorajados pelos testes desenvolvidos até à data, os terapeutas envolvidos no projeto esperam que o tratamento seja integralmente implementado no futuro, mas mais estudos são necessários para que tal aconteça, indicou a NPR.

Já em 2018, um grupo de investigação publicou os resultados positivos de um estudo desenvolvido nos Estados Unidos (EUA), sublinhando, contudo, que tal tratamento só deve ser feito de mãos dadas com a psicoterapia, sob supervisão profissional.

Durante esse estudo foram verificados 85 “eventos adversos” – incluindo ansiedade, dores de cabeça, fadiga e insónia -, relatados por 20 participantes. Não ficou claro, porém, se o MDMA era o responsável por tais sintomas.

wan mohd / Flickr

Nachum Pachenick participou da segunda fase de três estudos conduzidos em vários países, supervisionados pela Associação Multidisciplinar de Estudos Psicadélicos (MAPS). A organização espera receber, até 2021, a aprovação da Food and Drug Administration – responsável peço controlo e regulariazação de alimentos e medicamentos nos EUA.

De acordo com a psicóloga Keren Tzarfaty, responsável pela formação dos terapeutas da MAPS em Israel, os resultados das duas primeiras fases do estudo foram “extraordinários”. “Quando olhamos para essas pessoas um ano após o término do tratamento, vemos que 68% das que receberam a terapia combinada com MDMA não sofrem mais de stress pós-traumático”, disse.

As taxas de recuperação são “particularmente impressionantes” quando se tem em consideração o facto de “as pessoas que nos procuram terem tentado de tudo”, afirmou Keren Tzarfaty. “O seu tipo de trauma é resistente à medicação, à psicoterapia. Vêm até nós como último recurso”, frisou.

A terceira e última fase dos testes começou no segundo semestre de 2019, tendo a procura ultrapassado os 14 lugares reservados para os participantes israelitas. Como resultado, o estabelecimento médico em Israel decidiu operar o seu próprio programa-piloto, permitindo que dezenas de pessoas recebessem o tratamento, num ambiente controlado.

“O Ministério da Saúde de Israel decidiu tomar a medida humana e responsável de iniciar um projeto-piloto com 50 pessoas que sofrem de stress pós-traumático resistente a outros tratamentos”, disse Bella Ben Gershon, responsável pelo departamento de trauma. Para tal, Keren Tzarfaty ensinou 30 terapeutas israelistas a trabalhar com o MDMA.

O stress pós-traumático é desencadeado pela experiência de um evento tão traumático que não pode ser totalmente processado, deixando partes do cérebro em estado de hiperestimulação, prejudicando a sua elasticidade.

Como atua o MDMA em casos de stress pós-traumático

Os investigadores descobriram que o MDMA “remove todas as defesas, mas também cria muita compaixão pelos outros e por si mesmo”, indicou Ben Gershon. A droga pode proporcionar a alegria e a empatia que os que sofrem de stress pós-traumático precisam para começar a processar o seu trauma nas sessões de terapia, completou Keren Tzarfaty.

O tratamento inclui entre 12 e 15 sessões de terapia. Em duas ou três dessas sessões são utilizadas MDMA, administrado sob a forma de uma pequena pílula.

Embora o stress pós-traumático da maioria dos israelitas que participaram do ensaio tenha sido causado por agressões sexuais, o país também enfrentou uma série de conflitos, resultando em taxas relativamente altas do transtorno, informou Ben Gershon.

Keren Tzarfaty acredita que, devido a isso, o Governo tem “o dever moral de fazer o que puder para ajudar aqueles que sofrem com esse tipo de trauma”.

Os testes atuais com MDMA, uma substância criada em um laboratório em 1912, fazem parte do “renascimento” das pesquisas de substâncias psicadélicas e a sua aplicação na psiquiatria na última década.

Para Nachum Pachenick, os efeitos do tratamento foram dramáticos. “O processo colocou-me de volta nos trilhos e, de uma maneira mais profunda, trouxe-me de volta para casa, para mim”, contou. “Sou uma pessoa muito mais calma hoje. Tenho uma família que é muito querida, todas essas coisas eram muito instáveis ​​antigamente”, concluiu.

TP, ZAP //

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