Ilha russa invadida por ursos polares famintos já foi um campo de testes nucleares

Nova Zembla é o arquipélago que foi invadido por 52 ursos-polares nos últimos dias, que procuravam comida, mas também é a região que ficou para a história como um dos palcos escolhidos pela ex-URSS para testes nucleares.

O arquipélago russo, composto por duas grandes ilhas, a de Severny, a norte, e de Yuzhny, a sul, separadas por um estreito canal, o estreito de Matochkin, e de um número considerável de ilhas adjacentes.

A Terra Nova, que se localiza entre o mar de Barents, a oeste, e o mar de Kara, a leste, conta hoje com pouco mais de quatro mil habitantes. É bem conhecida do povo russo desde o século XI, quando caçadores de Novgorod, uma cidade situada a 155 quilómetros a sudeste de São Petersburgo e a 552 quilómetros a noroeste de Moscovo, ali chegaram e se fixaram para continuarem a desenvolver a sua atividade.



A terra que antes foi de czares, de expedição e de caçadores foi também, segundo o Diário de Notícias, uma área tomada pelas tropas nazis durante a II Grande Guerra Mundial, de onde só saíram em 1944.

A partir de 1947, tornou-se um campo de testes nucleares, tal como outras regiões da ex-URSS e do mundo. Foi assim até ao início da década dos anos 1990, um ano antes do fim da União Soviética. Nesta altura, os movimentos antinucleares assumiram uma repercussão internacional tal que conseguiram que a ex-URSS cancelasse 11 dos 18 testes programados.

A URSS usou esta região do Ártico para realizar 224 testes nucleares entre 1955 e 1990. Um deles produziu a mais potente explosão humana da história, com a detonação, a 30 de outubro de 1961, da Bomba Tsar, com potência de mais de 57 megatons – o equivalente a 57 milhões de toneladas de dinamite.

Os cientistas calculam que a explosão foi três mil vezes mais potente do que a provocada pela Little Boy, a bomba lançada em 6 de agosto de 1945 em Hiroxima.

Foi um tempo que deixou marcas em muitas vítimas. Karipbek Kuyukov é uma delas. Numa entrevista à BBC, em 2017, conta: “Nasci sem braços. A minha mãe ficou chocada e foi um processo muito difícil para ela. Ficou dias sem conseguir olhar para mim.”

Kuyukov nasceu em 1968 e é filho de um casal que pertencia a um grupo de pastores nómadas, que foi retirado pelo Exército soviético apenas horas antes de um teste nuclear. “Os médicos disseram à minha mãe que se ela não me quisesse poderiam dar-me uma injeção para acabar com o meu sofrimento e com o dela“, explica.

As detonações foram realizadas em segredo absoluto pelo regime soviético. Muitos detalhes sobre este programa ainda permanecem desconhecidos e mantidos sob sigilo pelo governo russo.

“A minha mãe subia as colinas para observar as explosões. Dizia que era um espetáculo bonito, que começava com um flash e terminava com a subida ao céu de uma espécie de cogumelo. Segundos depois, tudo ficava escuro.”

Os habitantes daquela região eram examinados periodicamente por médicos do Exército da ex-URSS. Começaram a registar-se novas doenças, como cancro. Nalgumas zonas houve famílias inteiras que se suicidaram por não aguentarem os efeitos dos testes nucleares.

Quase 30 anos depois desta realidade, Nova Zembla é conhecida como uma das pérolas do Ártico e palco de inúmeras expedições. É habitada por pouco mais de duas mil pessoas, é ocupada por um dos maiores glaciares do mundo, e a maior ilha está desabitada.

Os habitantes voltaram a sentir insegurança nos últimos dias, fechando os filhos em casa. Os ursos-polares desceram até à sua terra. A Rússia já decretou estado de emergência. Nos últimos dois meses, a população tem sido assolada por ataques e invasões às suas casas.

A invasão está associada às alterações climáticas. Com o gelo do Ártico a derreter, os animais são obrigados a invadir a terra para procurar alimento e estão a passar por um período de carência alimentar. A região do Ártico está a aquecer duas vezes mais depressa do que o resto do planeta.

Em 2016, cinco cientistas russos estiveram sitiados durante algumas semanas numa estação meteorológica remota em Troynoy, a oeste de Nova Zembla, depois de um grupo de ursos ter cercado o local. A caça de ursos é proibida na Rússia, e a agência federal de Meio Ambiente rejeitou autorização para os abater.

Em Nova Zembla, os ursos perderam o medo dos agentes da polícia e dos sinais usados para os afastar ou conter, o que, segundo as autoridades locais, leva à necessidade de medidas mais drástica. Se todas as outras medidas falharem, o abate pode ser a única solução.

ZAP //

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