Igreja da Cientologia acusada de abuso infantil e tráfico humano em nova ação judicial

James Maskell / Flickr

Igreja Internacional de Cientologia

Uma mulher que afirma ter sido criada como cientologista e ter servido como governanta do líder da religião processou a Igreja, acusando-a de tráfico de pessoas, trabalho forçado e abuso infantil, entre outros crimes.

De acordo com o Tampa Bay Times, citado pelo All That’s Interesting (ATI) na quinta-feira, no processo aberto em Los Angeles, nos Estados Unidos (EUA), a mulher – identificada como Jane Doe – é representada por oito advogados, que acusam a organização de 30 anos de abusos. Acredita-se que este processo é o primeiro de muitos que estão por vir.

Segundo revelou o Independent na quinta-feira, a mulher contou que foi colocada num programa de isolamento conhecido como “The Hole” (O Buraco, em tradução livre) depois de descoberto factos conjugais entre o líder da Igreja, David Miscavige, e a sua esposa.

A mesma acabou por fugir em 2016, quando foi designada para ajudar a filmar vídeos promocionais para a Igreja com um ator que não era cientologista. Depois de ter escapado, foi submetida a vigilância injustificada, intimidação e violência.

Num comunicado enviado à NBC News, a Igreja Internacional de Cientologia contestou as acusações, dizendo que o processo baseia-se em “alegações infundadas sobre todos os réus”, acrescentando que o mesmo “está repleto de insultos anti-religiosos extraídos dos tablóides e acusações antigas que não foram comprovadas em tribunal”.

Jane Doe passou então a trabalhar para a atriz Leah Remini, ex-cientologista que documentou as suas experiências ao deixar a igreja numa série intitulada “Leah Remini: Scientology and the Aftermath” (“Leah Remini: Cientologia e as suas Consequências”, em tradução livre).

Antes do “The Hole”, a mulher teria se juntado à Organização Marítima da Igreja Internacional da Cientologia, um grupo composto pelos “membros mais dedicados”, que se comprometem a seguir a Igreja por quase toda a eternidade como parte de um de contrato de mil milhões de anos.

Os advogados de Jane Doe disseram que este processo é o primeiro de vários que devem ser apresentados contra a Igreja, que “tentou anular a dissensão e encobrir uma longa história de abuso físico, emocional e sexual dos seus membros – incluindo os membros mais vulneráveis, os seus filhos”. Acusam-na ainda de utilizar “a sua doutrina contra aqueles que escapam e encontram coragem para falar”.

“Estamos confiantes de que a ação vai fracassar”, declarou Rebecca Kaufman, advogada da igreja, em entrevista à NBC News. “Os tribunais federais já determinaram que o serviço na ordem religiosa na Igreja de Cientologia é voluntário e protegido pela Primeira Emenda”.

E acrescentou: “Além disso, a evidência estabelecerá que, enquanto servia a Igreja, a queixosa ia e vinha livremente, viajava pelo mundo e vivia num ambiente confortável”. A igreja “defender-se-á vigorosamente contra essas alegações infundadas”.

A Igreja Internacional de Cientologia é reconhecida pela Receita Federal dos Estados Unidos (EUA) desde 1993 e foi fundada por L. Ron Hubbard 30 anos antes.

Nascer e crescer na Cientologia

Segundo o ATI, a Cientologia era tudo o que Jane Doe conhecia até há alguns anos. Nascida numa família de membros, morou na sede da igreja, em Clearwater, entre os seis e os 12 anos, tendo feito parte do clérigo infantil Cadet Org-Scientology, dirigido sob “condições de caráter militar”. Entre as 08:00 e as 00:00, sem frequentar a escola, trabalhava e limpava a Igreja.

Com 10 anos, foi forçada a aprender a prática de Bullbaiting, na qual é ensinado às crianças a não reagirem a insultos, ameaças ou vulgaridades, independentemente do quão ofensivas possam ser.

“Durante este processo, os adultos diziam coisas vulgares e sexualmente explícitas para as crianças e as puniam se demonstrassem alguma reação visível”, é apontado no processo, o constitui abuso infantil sob a lei da Califórnia.

Aos 15 anos, juntou-se à Organização Marítima da Igreja Internacional da Cientologia. Pouco depois, mudou-se para a Base Dourada da Igreja, na Califórnia, onde se tornou governanta de David Miscavige, recebendo um ordenado de 46 dólares (cerca de 41 euros) por cada 100 horas de trabalho semanais. Jane Doe alegou que muitas vezes foi mantida contra a sua vontade.

A ação contra a Igreja detalha os abusos ao longo de 30 anos, até ao momento em que a mulher fugiu e deixou oficialmente a Cientologia, em 2017. Foi seguida por agentes particulares e vítima de “um site de ódio”, onde era apontada como alcoólica e promíscua.

“Este não vai ser o último dos processos”, disse o advogado Brian Kent. “Já vimos o que pode acontecer quando há verdade exposta em termos de abuso infantil dentro das organizações”, prosseguiu, citando ações judiciais contra a Igreja Católica e a Convenção Batista do Sul, como outros exemplos dessa exposição.

Brian Kent explicou que a ocultação do nome da mulher foi motivada pelo facto de a Igreja Internacional de Cientologia assediar os  ex-membros que ousam falar mal do tratamento desumano ou das atividades imorais que experimentaram.

Scientology Media / Flickr

David Miscavige, líder da Igreja Internacional de Cientologia

“A Igreja da Cientologia mostra uma fachada para o mundo exterior para disfarçar o que, na realidade, nada mais é do que um culto construído sobre o controle da mente e destruição da independência e do auto-controle daqueles que são atraídos à sua esfera”, aponta o processo.

“Os membros são isolados do mundo exterior, o seu acesso à informação é fortemente monitorizado e controlado e estão sujeitos a abuso e agressão física, verbal, psicológica, emocional e sexual”, acrescenta.

Embora o FBI tenha investigado a Igreja em busca de tráfico humano em 2009 e 2010, a agência não registou nenhuma acusação. No entanto, como indica o ATI, isso não quer dizer que David Miscavige e a sua organização sejam inocentes.

Uma das alegações de Jane Doe é que através de alguns telefones nas instalações da Igreja é impossível contactar o 911 (equivalente ao 112, em Portugal). Isso reforça a ideia de que a Cientologia prioriza o sigilo sobre as liberdades pessoais. Entrar em contato com a polícia para obter ajuda “seria uma traição”.

Esse alto nível de sigilo é mais impressionante no caso da esposa de David Miscavige, Shelly Miscavige. Destituída de assistente do marido em 2005, desapareceu dois anos depois, sem deixar vestígios. Embora a polícia local alegue tê-la visto, o caso nunca foi realmente resolvido.

Jane Doe afirmou ainda que o relacionamento do casal Miscavige tornou-se cada vez mais hostil, e, como trabalhava perto deste na época, foi forçada a entrar no “The Hole”, onde os membros acusados ​​de violações de ética são mantidos em confinamento solitário.

Depois de três meses no local, fugiu quando surgiu a oportunidade de gravar os vídeos promocionais. Antes disso, e ao longo do tempo, pediu formalmente para deixar a Cientologia, pedido negado pelos superiores. Após a fuga acabou por retornar para “sair” da Igreja em melhores condições, visto que a organização havia contactado a sua família para instá-los a “desconetar-se” desta.

TP, ZAP //

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