Esquema volta a angariar clientes no sector elétrico (sem os clientes saberem)

Novo relato de tentativa de fraude, logo na primeira semana de 2021. Ao longo do ano passado, foram registadas mais de 15 mil reclamações relacionadas com o sector elétrico.

Terça-feira, 5 de janeiro de 2021: Filipe (nome fictício) estava em casa, no concelho de Gondomar, quando recebeu a visita de duas pessoas jovens, antes de almoçar. Um homem e uma mulher. Só o rapaz falou: “Ele disse que era o dia de estarem na nossa zona de residência a verificar quem tinha direito a desconto na eletricidade. E acrescentou que já tinha falado com o Pinto da confeitaria. Sei lá quem é o Pinto. E nem temos confeitaria na nossa rua, nem nas ruas ao lado”, relata Filipe ao ZAP.

Desde início que Filipe e a sua esposa começaram a deixar algumas perguntas àquele rapaz, a levantar dúvidas sobre aquela visita. Mas, confessa Filipe, as máscaras e o próprio discurso do rapaz não proporcionaram um diálogo muito claro, nos segundos iniciais.

O rapaz pediu depois para ver uma fatura da eletricidade. O casal não tem porque recebe tudo pelo e-mail. A custo, a esposa foi procurar o seu telemóvel para analisar a fatura eletrónica e para dizer ao rapaz o que ele tinha pedido: a potência contratada e o custo por kilowatt (kW).

Enquanto a esposa deixou a porta de entrada se dirigiu à sala para pegar no telemóvel – o casal visitante nunca passou das escadas do prédio – Filipe lembrou-se e perguntou de que serviria analisar a fatura. O rapaz do casal visitante respondeu que era para ver se valia a pena o desconto que iriam propor. Filipe insistiu: “Mas vocês são de que empresa? Ele, primeiro, respondeu «Brabrabola…», ou uma coisa assim. Não percebi. Perguntei outra vez e ele, a hesitar, admitiu que vinham da parte da Iberdrola”.

Aí, Filipe ficou com ainda mais dúvidas. Porque sabia de casos de clientes que tinham mudado de fornecedora de eletricidade, para a Iberdrola, sem os próprios clientes saberem que tinham mudado de operadora. “Manobras, fraudes”, comenta.

A esposa de Filipe, já com a fatura eletrónica, deu os dados e só aí o rapaz apresentou papéis que, de facto, eram panfletos da Iberdrola. Sugeriu mudarem para a Iberdrola porque iriam pagar menos: “A diferença era quase nula, menos de um cêntimo por kW, acho. Eu disse-lhes que não valia a pena mudar de operadora. Mesmo assim, o rapaz (a rapariga foi embora e eu nunca ouvi a voz dela) insistiu e pediu o nome completo da titular da fatura, os dados da morada e pediu o cartão de cidadão para depois alguém nos ligar e confirmar a mudança”.

“Foi quando ele disse «cartão de cidadão» que a conversa acabou. Lembrei-me logo dos testemunhos que já tinha ouvido, em que comerciais da Iberdrola, ou alegados comerciais da Iberdrola, aproveitam os dados e até a assinatura (não sei se a falsificam, ou assim) para o cliente mudar de operadora. E eles foram embora”, lembra Filipe, que acrescenta: “O pior disto é que, comigo e com a minha mulher, não resultou. Mas com outras pessoas, sobretudo mais idosas ou isoladas, resulta“.

2021 igual a 2016

Resultou com Mário (nome fictício), que já ultrapassou os 80 anos de idade. Em Vila Nova de Gaia, no dia 17 de Março de 2016 – Mário sabe a data porque a registou na participação que apresentou mais tarde à Polícia de Segurança Pública – recebeu a visita de um jovem “aparentemente de vinte e poucos anos” que explicou que “vinha contar a luz” e, já junto ao contador, pediu uma fatura “para conferir elementos”.

Mário foi buscar uma fatura ao interior da casa e mostrou-lhe. De repente, já eram três jovens junto ao contador. Os três conversaram entre eles, algo afastados de Mário, e perguntaram se estavam realmente a conversar com o Mário. Aí, pediram o cartão de cidadão do titular da fatura, igualmente para conferir elementos. Mário deu o seu bilhete de identidade vitalício. Os três reuniram-se num pequeno círculo: “Logo na altura, fiquei com a sensação de que um deles tirou fotografia ao meu bilhete de identidade, meio às escondidas. Mas na altura não reagi, nem tinha a certeza”.

No mês seguinte, abril de 2016, Mário começou a perguntar a si próprio porque ainda não tinha recebido pelo correio a habitual fatura da luz. Em maio a Iberdrola deu a resposta: “Enviaram-me uma carta de boas-vindas. Informaram-me que eu tinha passado a ser cliente da Iberdrola e que o meu contrato tinha sido iniciado em abril de 2016. Eu nem sabia o que era a Iberdrola!“, assegura Mário, que hoje tem praticamente a certeza de que fotografaram o seu bilhete de identidade e que aproveitaram os dados e aproveitaram ou falsificaram mesmo a assinatura para o contrato – um contrato com o seu nome e com os seus dados, que Mário nem sabia que existia.

Mal recebeu essa carta de boas-vindas, Mário “passou a pasta” a um familiar, que tratou de anular o processo. A Iberdrola reconheceu que tinha havido fraude, explicou que recorre a empresas externas para angariar clientes porta-a-porta e assegurou que não se revê nestes métodos. O contrato foi anulado e Mário voltou a ser cliente da operadora anterior.

“Posteriormente, tive conhecimento de que esta situação aconteceu noutras casas aqui do lugar onde moro”, diz Mário. Um cenário repetido no discurso de Filipe, quase cinco anos depois: “Eu vi-os pela janela, depois de terem vindo cá. Eles foram a todos os prédios e a todas as moradias da minha rua, no mínimo. A tentar enganar as pessoas com o mesmo sistema”.

Reação da Iberdrola

A Iberdrola, em resposta ao ZAP, explicou que não tem conhecimento do caso mais recente, em Gondomar (não houve qualquer reclamação oficial). E reforçou a ideia de que não se revê nas práticas descritas: “Procederemos a averiguações internas com vista a apurar o sucedido e agir em conformidade. A Iberdrola trabalha com empresas parceiras para efeitos comerciais, zelando pelo cumprimento de boas práticas. Todas recebem formação e estão obrigadas ao cumprimento do nosso Manual de Ética, que assinam. Existem regras estritas e penalizações para o seu incumprimento“, acrescenta.

Sempre que a empresa toma conhecimento destes métodos, passa à correção de “eventuais falhas” e trata de “compensar clientes, caso se aplique compensação. Quando são identificados incumprimentos aplicam-se penalizações à empresa parceira“.

A Iberdrola reforça ainda que “os contratos assinados só são validados após chamada por call center independente, na qual o cliente é informado dos termos e condições contratuais. Só com o acordo do cliente nesta chamada se procede ao início da relação contratual”.

Milhares de reclamações no sector elétrico

As reclamações por parte dos consumidores atingem todas as maiores empresas ligadas ao sector elétrico em Portugal. Nos números publicados nesta segunda-feira, pela ERSE – Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, verifica-se que no quarto trimestre de 2020 a EDP registou o maior número absoluto de reclamações: EDP Comercial (2.666) e EDP Distribuição (E-Redes), com 1370. Seguem-se a Endesa Energia (1.009), a Galp Power (368) e depois a Iberdrola Clientes Portugal, com 352 registos.

Mas tendo em conta o universo de clientes de cada empresa, a Endesa destaca-se: é a empresa com o índice mais alto de reclamações por mil clientes (2,56). A Goldenergy, que registou 239 reclamações no último trimestre, surge no segundo posto entre as cinco maiores empresas (1,72 por mil clientes). A Galp Power tem um índice de 1,35 e a Iberdrola registou 1,08 reclamações por cada mil clientes.

Tentativas de fraude generalizadas

O esquema é semelhante ao que continua a ser usado por pessoas que se apresentam em nome das operadoras de telecomunicações.

“Estava em casa da minha mãe e bateram à porta a perguntar se a internet estava a funcionar bem, porque tinham informações de que outras pessoas no prédio estavam com problemas”, conta ao ZAP André B. (nome fictício). “Quando perguntei de que empresa eram, responderam que trabalhavam com todas, a Vodafone, MEO e NOS”.

Estas tentativas de fraude porta-a-porta começaram a multiplicar-se há pouco mais de uma década, quando a crise financeira chegou a Portugal. Fonte próxima do meio conta ao ZAP que muitos jovens aceitaram ser comerciais e sabiam que iam angariar clientes desta forma. Para quê? “Muitos deles é para arranjarem uns trocos para, ao fim do dia, terem dinheiro para os seus vícios. Pouco mais”.

A mesma fonte lembra que o caso piora quando esses comerciais que enganam as pessoas falam em nome das operadoras de comunicações: “O que é que eles fazem: deixam um contacto, um número de telemóvel alegadamente da empresa, para o futuro cliente telefonar se tiver dúvidas. Depois criam contratos para os clientes sem os clientes saberem. Quando um familiar mais novo, ou mais esclarecido, vê que algo errado se passa, liga para o tal número que o comercial deixou. Só que ninguém atende, nos primeiros dias. No dia em que atendem, já passaram os 14 dias que cada pessoa tem direito para resolução do contrato. E aí o problema agrava-se. Segue para tribunal ou a pessoa até tem de pagar para rescindir um contrato que nunca assinou“.

ERSE publicou números atualizados

Nesta segunda-feira, a ERSE enviou ao ZAP um comunicado com os números mais recentes de reclamações e pedidos de informação: em 2020 foram emitidas 23.706 reclamações e pedidos de informação, mais 11% do que no ano anterior. A maioria (quase 70%) está ligada ao setor elétrico.

A ERSE recorda que celebrou protocolos com centros de arbitragem de conflitos de consumo, os quais apoia financeiramente, para tentar a “resolução extrajudicial de conflitos emergentes do relacionamento comercial e contratual entre operadores dos setores por si regulados e entre estes e os consumidores de energia”.

E entidade tem uma página, na qual deixa aos consumidores de energia uma série de alertas de más práticas. Aqui o consumidor encontra diversas dicas precisamente em relação ao pedido de documentos, à mudança de comercializador e à assinatura de documentos, entre outros avisos.

Fonte da ERSE disse ao ZAP que, ainda antes do início de eventual conflito com uma empresa, um gesto fundamental deve acontecer logo na receção a estes supostos comerciais: “Têm sempre de pedir o cartão de identificação à pessoa que os aborda. Não tem de ser o cartão de cidadão. O comercial tem que ter um cartão da empresa, de preferência com fotografia, que comprova a que entidade pertence. Em caso de queixa posterior, é essencial termos nomes”.

E deixou também o aviso mais importante: não fornecer dados ou informações pessoais, caso o consumidor não esteja seguro diante da pessoa com quem está a falar.

(artigo atualizado às 18h25 do dia 19/01, com a reação oficial da Iberdrola)

Nuno Teixeira Nuno Teixeira, ZAP //

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5 COMENTÁRIOS

  1. Como já estava a par destas trafulhices, tenho sempre cuidado ao atender, e avisei os meus familiares de mais idade para nunca mostrar facturas e muito menos os documentos de identificação a quem lhes aparecer à porta, mesmo com identificação da EDP, não vá algum armar-se em esperto com credenciais falsas – a EDP nunca faz nada sem mandar comunicação por escrito primeiro.

    Só nos últimos 2 ou 3 meses já me apareceram à porta 2 destes “artistas”, e já nem estranho quando aparece uma nova vaga. Quase se torna divertido imaginar o que vão dizer desta vez.
    Quando pergunto, através da porta fechada, “Quem é?”, respondem invariavelmente “É da luz!”. Faço mais duas ou três perguntas e lá admitem que são da Iberdrola ou da Gold ou o que calhar naquele dia.

    Mas quem leva o prémio é uma sujeita (recuso-me a chamar-lhe “senhora”) em meados do ano passado, que à primeira respondeu “É da luz”, e quando perguntei “Mas de que empresa?” respondeu “Já disse que é da luz!”.
    Quando perguntei de que se tratava respondeu com ar irritado “Eu não falo com pessoas por portas fechadas!”. Eu não ia abrir de qualquer maneira, mas a falta de educação não me assentou nada bem: “E eu não sou obrigada a atender quem não se identifica. Tenha um bom dia!”
    Ela refilou mas eu já nem estava ao pé da porta, e acabou por ir-se embora. Liguei de imediato para os meus familiares para avisar que “eles andem aí outra vez”…

  2. Estas empresas em Portugal fornecedoras de comunicações, água, gás ou eletricidade são um poder dentro do poder de Estado, parecem mandar mais do que o próprio Estado e tudo porque não temos governos com eles no sítio para pôr cobro a estas situações, mais parece haver aí interesses por parte dos governantes com a situação existente, quanto a deputados também não tocam no assunto, pois mais parecem peças decorativas no parlamento e certamente também eles partilham dos mesmos interesses embora finjam representar o povo.

  3. Comecem por tirar foto a essas pessoas e a solicitar um cartão de empresa que também devem tirar foto… verão que os desonestos vao inventar desculpas e vão embora.
    Já agora… podem apresentar queixa na policia com essa foto 😉

  4. O mesmo acontece por telefone, onde são muito subtis pois não necessitam de assinatura.
    Quase me acontecia o mesmo.
    A coisa parou quando me pediram o n.º de contribuinte!!!
    Mesma empresa.

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