Há 20 anos, o “TGV morreu da crise”, mas “agora, em princípio, há dinheiro”

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João Cravinho, ex-ministro das Obras Públicas

A ligação de alta velocidade entre Porto e Lisboa anunciada, nesta semana, pelo Governo de António Costa, surgiu como um projecto para o país há 20 anos, durante o Executivo de António Guterres, mas “morreu da crise” no tempo de José Sócrates. É o mentor da ideia, João Cravinho, quem o conta.

O ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, anunciou a aposta numa ligação ferroviária de alta velocidade entre Lisboa e Porto como um dos grandes investimentos do Governo na ferrovia para os próximos anos.

Há 20 anos, João Cravinho, então ministro do Planeamento no Governo de António Guterres, fazia o mesmo anúncio, falando no “TGV” entre Porto e Lisboa.



O projecto que nasceu como ideia em 1999 acabou por não avançar e Nuno Santos assume que é preciso “saber fazer, enquanto país, uma autocrítica“.

“Em 1999 chegámos aquela que era a melhor solução para aproximarmos as principais cidades do país, para encurtarmos a distância e tempo dentro do nosso território”, salienta o ministro, salientando que é preciso fazer uma “homenagem” a João Cravinho porque o Governo actual não está “a inventar nada”.

“O Engenheiro João Cravinho já tinha chegado a isto. Infelizmente perdemos tempo“, salienta ainda Pedro Nuno Santos.

“Desta vez não há recuo”

Em declarações ao Eco, o antigo ministro de Guterres refere que a ideia para o TGV entre Porto e Lisboa lhe surgiu em 1995, quando entrou no Governo, numa altura em que “havia a Rede Europeia de Transportes que no caso português previa só uma ligação via rápida, de autoestrada, entre Lisboa e Valladolid”.

“Pareceu-me que estávamos muito mal colocados, e que era fundamental alterar a Rede Europeia de Transportes de forma a valorizar a costa atlântica, criando uma rede multimodal, com várias modalidades de transportes (rodoviário, aéreo, marítimo e ferroviário)”, destaca ainda Cravinho.

O Governo português reuniu-se então com o homólogo espanhol e juntos pressionaram a União Europeia a alterar a Rede Europeia de Transportes para “contemplar uma ligação TGV Lisboa-Porto, Lisboa-Madrid e Porto-Madrid“, como relata Cravinho ao Eco.

Após a saída de Cravinho do Governo, “já estavam todos os estudos feitos para o TGV e para o aeroporto da Ota“, uma obra que era vista como fundamental para substituir a Portela, refere ainda o ex-ministro.

Ora, a Ota não avançou, muito por culpa de “interesses imobiliários”, seguindo Cravinho, que destaca que, nessa altura, “começaram-se a fazer coisas soltas e não ligadas”. “O país não percebia a ligação profunda entre as diferentes peças”, sublinha.

“O TGV iria ligar Lisboa e Porto, mas não se sabia como ia ligar a Alcochete. Na altura as duas peças não encaixavam“, acrescenta.

Já com José Sócrates no Governo e depois de ter sido lançado o primeiro concurso para o TGV entre Poceirão e Caia, “o TGV morre da crise”, conclui o antigo ministro.

Mas, “agora, em princípio, há dinheiro”, sublinha Cravinho referindo-se à “bazuca” europeia que vai fazer chegar a Portugal milhões de euros, nos próximos anos, no âmbito do Plano de Recuperação por causa da pandemia.

“Desta vez não há recuo”, acredita Cravinho que não entende “que se tenha levado tanto tempo a perceber que Lisboa-Porto é fundamental”.

“Não temos propensão para organizar e para pensar o que será estrategicamente o país daqui a 10 ou 20 anos”, constata ainda.

“O tempo das autoestradas terminou”

Pedro Nuno Santos realça, por seu lado, que “o tempo das autoestradas terminou” e que a alta velocidade Porto-Lisboa “é uma revolução na forma como o país se relaciona”.

Trata-se de uma “linha cara e altamente dispendiosa, mas que tem um contributo relevante” para o país, sustenta.

O Estado prevê investir mais de dez mil milhões de euros na ferrovia até 2030 e o ministro das Infraestruturas destaca “a importância da ferrovia para um país como o nosso”.

“A ferrovia é hoje uma prioridade europeia, mas em Portugal não temos o melhor histórico”, assume ainda.

“Durante décadas achou-se que a ferrovia era passado. Mas o que torna mais estranha esta falta de aposta nacional são as mais-valias que a ferrovia pode dar“, sublinha também Pedro Nuno Santos, recordando que “a substituição do automóvel permitirá ao país ficar menos dependente das importações”.

  ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Outra vez o TGV? E porque não modernizar as linhas existentes e electrificar as que não são electrificadas? Já estou a ver a guerra dos Autarcas como foi no tempo do Sócrates de má memoria, em que até o senhor Fernando Ruas queria uma estação em Viseu Ribau Esteves queria uma estação em Aveiro na altura dizia eu os autarcas não querem um TGV querem um comboio do Katanga com paragem em todas as estações e apeadeiro, Portugal não tem distancia para ter um TGV quando ele fosse a ganhar velocidade Cruzeiro tinha que para porque já estava em cima de uma estação, modernizem os comboios poupam muito dinheiro aos contribuintes, ou será que há clientelas políticas à espera para meter uns largos milhares de euros no bolso?

  2. Crise há 20 anos? Qual crise? Quando o Guterres deixou o país no pântano? Maior crise foi no fim do reinado do 44 quando ele foi chamar a troika. Alguém acredita nessa gente??

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