“Estamos a um passo de um golpe de Estado”, diz Dilma no seu julgamento

Marcelo Camargo / Agência Brasil

A presidente afastada Dilma Rousseff faz a sua defesa diante dos Senadores durante sessão de julgamento do impeachment

A presidente afastada Dilma Rousseff faz a sua defesa diante dos Senadores durante sessão de julgamento de destituiçãoe destituição

A presidente afastada Dilma Rousseff fez o seu discurso de defesa no Senado esta segunda-feira citando a Constituição de 1988 e afirmando que “jamais atentaria contra o que acredito ou praticaria atos contrários aos interesses dos que me elegeram.”

Crise no Brasil

“Sei que, em breve e mais uma vez na vida, serei julgada. E é por ter a minha consciência absolutamente tranquila em relação ao que fiz, no exercício da presidência da república, que venho pessoalmente à presença dos que me julgarão. Venho para olhar diretamente nos olhos de vossas excelências e dizer, com a serenidade dos que nada têm a esconder, que não cometi nenhum crime de responsabilidade. Não cometi os crimes dos quais sou acusada injusta e arbitrariamente”, afirmou a presidente.

“Como todos, tenho defeitos. Mas entre os meus defeitos não estão a deslealdade e a covardia. Não traio os compromissos que assumo”, afirmou Dilma, que também lembrou o fato de ter sido torturada durante a Ditadura Militar. “Não luto pelo meu mandato por vaidade ou apego ao poder, luto pela democracia e pelo bem estar do povo.”

Dilma Rousseff mencionou governos que sofreram forte oposição como o de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart e classificou como golpe o processo de destituição contra si, afirmando ser um pretexto para derrubar um governo legítimo.

“O governo de uma mulher que ousou ganhar duas eleições presidenciais consecutivas. São pretextos para viabilizar um golpe na Constituição. Um golpe que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador”, afirmou.

A presidente afastada disse ainda estar a sentir “um gosto amargo” na boca diante das acusações que estão a ser feitas contra si no processo do impeachment e afirmou: “Não esperem de mim o obsequioso silêncio dos covardes.”

Dilma reforçou que “não cometeu nenhum crime de responsabilidade” e que a perda do apoio parlamentar não seria suficiente para justificar seu afastamento.

“As provas deixam claro que as acusações contra mim dirigidas não passam de pretextos, embasados por frágil retórica jurídica”, disse Dilma. “Quem afasta o presidente pelo ‘conjunto da obra’ é o povo, nas eleições”, defendeu.

A presidente afastada citou o resultado da eleição de 2014 como um rude golpe contra setores das elites conservadoras, que desde então estariam a tentar “tirá-la do poder”. “Tudo fizeram contra o meu governo”, afirmou.

“Contrariei muitos interesses. Por isso, paguei e pago um elevado preço pessoal pela postura que tive. Arquitetaram a minha destituição, independentemente da existência de quaisquer fatos que pudesse justificá-la perante a nossa Constituição”

A petista fez menção ao ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, alegando que o processo de destituição contra ela foi aberto por “chantagem explícita”. “Articularam e viabilizaram a perda da maioria parlamentar. Estamos a um passo de uma grave ruptura institucional. Estamos a um passo da concretização de um verdadeiro golpe de Estado.”

Crimes

Durante a defesa, Dilma questionou os crimes sobre os quais estaria a ser acusada. “Quais foram os crimes hediondos que pratiquei?”, perguntou, afirmando em seguida que a edição dos decretos de créditos suplementares assinados por elas seguiram as regras constitucionais.

“Querem me condenar por decretos que atendiam as demandas da população?”, disse, reforçando que o Tribunal de Contas da União já havia aprovado contas de outros presidentes que editaram decretos iguais, sem ter identificado qualquer irregularidade.

Já na parte final de seu discurso, Dilma disse que ficou magoada com as “agressões verbais e com a violência do preconceito” que sofreu durante o processo de destituição, mas que conseguiu superar tudo isso com “o apoio e a disposição de luta de milhões de brasileiros na rua”. A presidente afastada mencionou principalmente a força que recebeu das mulheres.

“As mulheres brasileiras foram parceiras incansáveis de uma batalha em que a misoginia e o preconceito mostraram suas garras. Bravas mulheres brasileiras que tenho a honra e o dever de representar como primeira mulher Presidente da República. Diálogo, participação e voto direto são as melhores armas que temos para preservar a democracia. Confio que as senhoras e senhores senadores farão justiça.”

Ao finalizar a defesa, Dilma pediu aos senadores que considerassem o “precedente” que poderia ser aberto com “a condenação de um inocente”.

“Sofro de novo com o sentimento de injustiça e o receio de que, mais uma vez, a democracia seja condenada junto comigo. Faço um apelo final a todos os senadores: não aceitem um golpe que, em vez de solucionar, agravará a crise brasileira”, pediu Dilma.

A presidente afastada encerrou o seu discurso de cerca de 45 minutos ao som de aplausos e gritos no Senado. Logo em seguida, o pesidente do STF, Ricardo Lewandowski, suspendeu a sessão por alguns minutos, antes de retomá-la com as perguntas dos senadores.

A primeira inscrita foi a senadora Katia Abreu, do PMDB, que discursou em defesa da permanência de Dilma no poder.

Dia D

Dilma Rousseff chegou ao Senado pouco depois das 9h da manhã desta segunda-feira para apresentar a sua defesa no julgamento final do processo de destituição está em andamento desde maio. Hoje é um dia chave para a presidente afastada, que chegou acompanhada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do cantor e compositor Chico Buarque.

Marcelo Camargo / Agência Brasil

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assiste a presidente afastada Dilma Rousseff fazer sua defesa diante dos Senadores durante sessão de julgamento do impeachment

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assiste a presidente afastada Dilma Rousseff fazer a sua defesa diante dos Senadores durante sessão de julgamento do impeachment

Por volta de 9h45, Dilma foi conduzida para a mesa do Senado pelo presidente da Casa, Renan Calheiros – sem aplausos, nem vaias. Ela tem 30 minutos para falar, prorrogáveis por mais 30. Enquanto isso, do lado de fora do Congresso, algumas dezenas de manifestantes pró e contra a destituiçãoa destituição se dividem entre os lados do muro colocado ali para separar apoiadores e críticos de Dilma.

Depois do discurso, terão início os questionamentos dos senadores – 47 dos 81 já se inscreveram.

O ex-presidente Lula da Silva vai assistir à defesa de Dilma acompanhado de um grupo de 20 a 30 aliados, como ex-ministros dos governos petistas e assessores, mas lideranças e autoridades pró-impeachment também estão no Senado.

A expectativa é que o depoimento se estenda até parte da noite. A votação final que definirá o impeachment deverá acontecer na terça ou na quarta-feira desta semana.

ZAP / BBC

PARTILHAR

RESPONDER

Marques Mendes elogia "voz independente" de Medina (e diz que a TAP pode ser um crematório político)

Luís Marques Mendes elogiou neste domingo as críticas que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, fez ao combate à pandemia, considerando ainda que a resolução da TAP, que culminou na saída de David …

O “Grenadier” já não vai ser português. Fabricante automóvel Ineos desiste de fábrica em Estarreja

A INEOS Automotive, empresa do ramo automóvel, transmitiu à Câmara de Estarreja que vai suspender o investimento de 300 milhões de euros numa fábrica no concelho, revelou este domingo fonte municipal. "A empresa transmitiu à Câmara …

Grécia e Austrália recuam na abertura de fronteiras. Marrocos isola cidade após recorde de casos

Grécia e Austrália anunciaram neste fim-de-semana um recuo na abertura das suas fronteiras, enquanto que Marrocos isolou uma cidade após um número recorde de novas infeções de covid-19 registadas em 24 horas. A Grécia anunciou …

Dinheiro dos pobres usado para "vida de luxo". Presidente, mulher e filha da Mão Amiga acusados

O presidente da Associação Mão Amiga, em Gulpilhares, Vila Nova de Gaia, a mulher e a filha foram acusados pelo Ministério Público (MP) de usarem o dinheiro da instituição para pagarem uma "vida de luxo". …

Fisco tem por cobrar 15 mil milhões de euros em impostos

O Jornal Económico escreve esta segunda-feira que a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) tem por cobrar 14.919 milhões de euros em impostos. De acordo com o diário de economia, mais de metade da dívida dos contribuintes está …

"Armada espanhola" assegura 70% do mercado das obras públicas em Portugal

As empresas espanholas estão a assegurar 70% do mercado das obras públicas em Portugal, escreve esta segunda-feira o jornal Público, citando uma análise ao Portal Base, às obras públicas acima de sete milhões de euros No …

"Oitavos" da Liga dos Campeões não vão ser jogados em Portugal

A UEFA cedeu à pressão dos clubes e decidiu que os encontros da segunda mão dos oitavos-de-final vão ser disputadas nos respetivos estádios dos clubes. Os encontros por jogar relativos aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões …

Turmas repartidas e aulas ao sábado. O que muda no novo normal do Ensino Superior

Para o regresso às aulas do Ensino Superior no próximo ano letivo, as universidades estão a preparar medidas que permitam cumprir as regras sanitárias e zelar pela aprendizagem dos seus alunos. Se tudo correr como planeado, …

Presidente do Barcelona afasta interessados em Messi e desfaz mito

Rumores sugeriam que Lionel Messi estava decidido a sair do Barcelona. Não tardou a aparecerem interessados no argentino, mas o presidente do Barça já veio deixar um recado. Na semana passada, o mundo do futebol foi …

Doze jovens infetados após festa na Guarda. Politécnico suspende exames presenciais

Doze jovens, oito dos quais alunos do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), testaram este fim de semana positivo para o novo coronavírus (covid-19). De acordo com a SIC Notícias, as infeções deram-se na sequência de uma …