Enterros expresso e mortes sem explicação. Neste país, a pandemia tem “duas realidades”

Carlos Herrera / EPA

Perante a pandemia de covid-19, o Governo da Nicarágua tem sido criticado pela sua abordagem casual para responder à crise. Há enterros expresso a acontecer durante a noite, mortes de políticos inexplicadas e dúvidas quanto aos números divulgados pelo Governo. 

Nos últimos três meses, pelo menos seis políticos morreram, embora os detalhes sejam vagos nas causas. Há “enterros expressos” estão a acontecer durante a noite e médicos foram despedidos por darem o alarme sobre a propagação do vírus. Especialistas questionaram detalhes divulgados pelo Governo sobre a taxa de infeção no país.

“Há sempre duas versões. A não oficial é mais fiel à realidade e a [versão] do Governo é motivo de confusão”, disse um médico, em declarações à CNN.

O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, recusou-se a impor medidas restritivas e preventivas de quarentena observadas nos países vizinhos. As escolas públicas permanecem abertas, as empresas continuam a funcionar, os festivais e eventos culturais acontecem quase semanalmente.

No início da pandemia, Ortega passou mais de 40 dias sem aparecer em público e nenhuma explicação foi dada para sua ausência.

O país está a sofrer uma queda económica após a agitação sociopolítica em 2018 e as sanções dos Estados Unidos que estão a prejudicar o país. Durante seu discurso, Ortega disse que o encerramento da fronteira com a Costa Rica, a partir de 30 de junho, criou uma “situação muito difícil”. Cerca de 1.000 camiões ficaram presos na fronteira, paralisando o comércio em toda a região.

A Costa Rica adotou medidas preventivas para controlar a disseminação da covid-19 depois de 50 motoristas terem testado positivo. Onze deles eram da Nicarágua.

Enterros expresso e mortes inexplicadas

De acordo com a CNN, muitas das pessoas que morreram infetadas com covid-19 não tiveram direito a missa, velório nem funeral. Há apenas o que ficou conhecido como “enterros expresso”: uma rápida visita ao cemitério à noite acompanhada por polícias.

Além disso, nas certidões de óbito de algumas pessoas que padeceram devido à doença, lê-se apenas “pneumonia atípica”. Quando as autoridades são questionadas sobre o assunto, dizem apenas que estão a seguir ordens.

Embora as igrejas nunca tenham sido oficialmente fechadas por ordem do Governo, muitas paróquias da Nicarágua decidiram pedir aos seus fiéis que ficassem em casa. O Monsenhor Aviles Cantón dá duas missas por semana no Facebook. Quanto aos “enterros expresso”, Cantón disse à CNN que são tão rápidos que não consegue chegar a tempo de fazer o funeral no cemitério. Por vezes, conversa com a família e rezam.

Além disso, seis políticos na Nicarágua faleceram desde meados de maio, embora a causa da morte de alguns não seja clara. Dois autarcas morreram por causa de um aumento do açúcar no sangue e uma deputada morreu com cancro.

Segundo os números do Governo, há 1.823 casos de coronavírus no país e 64 mortes. Porém, especialistas garantem que o número é muito maior. “Há duas realidades: o que o Governo diz e o que estamos a ver”, disse o epidemiologista Leonel Argüello Yrigoyen. “O que o Governo relata é pelo menos quatro vezes menor”.

De acordo com o Covid-19 Citizen Observatory da Nicarágua, a 10 de junho havia 4.971 casos e 1.398 mortes suspeitas pelo vírus.

Na segunda-feira, um grupo de pelo menos 33 organizações médicas independentes na Nicarágua divulgou um comunicado conjunto a dizer que a transmissão da comunidade era uma ameaça séria. “A primeira coisa que o Governo precisa de fazer é admitir que há um problema de saúde e não torná-lo um problema político“, disse Argüello Yrigoyen. “Precisam de abrir espaço para resolver o problema e reconhecer que existe uma epidemia. Muitas mortes podem ser evitadas”.

As organizações médicas também destacaram as demissões de profissionais da saúde que deram o alarme ou exigiram melhores equipamentos de proteção individual.

Segundo o presidente da Unidade Médica da Nicarágua, José Antonio Vásquez, pelo menos 15 profissionais médicos foram forçados a desistir ou foram demitidos recentemente. Muitos deles trabalhavam há mais de 20 anos. O Centro Nicaraguense de Direitos Humanos também condenou as ações do governo, descrevendo as demissões como “incomuns e ultrajantes”.

De acordo com o Observatório, pelo menos 536 profissionais de saúde apresentaram sintomas do covid-19 e 61 são suspeitos de terem morrido por causa do vírus. O Governo da Nicarágua não reconheceu nenhuma dessas mortes ou infeções no setor de saúde.

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