Livre mais forte em concelhos em que os jovens têm mais estudos, Chega onde há menos crime

Rodrigo Antunes / EPA

A candidata eleita pelo Livre à Assembleia da República, Joacine Katar Moreira

Os três novos partidos com assento parlamentar — Iniciativa Liberal, Chega e Livre — tem melhores resultados em concelhos com características muito diferentes.

Nas eleições Legislativas de domingo, com base nos resultados do território nacional (falta ainda apurar os votos e atribuir os quatro mandatos da emigração), o PS foi o partido mais votado, com 36,65% dos votos e elegeu 106 deputados, seguindo-se o PSD, com 27,90% e 77 eleitos, e o BE, com 9,67% e 19 deputados.

A CDU foi a quarta força mais votada, com 6,46%, elegendo 12 deputados, 10 do PCP e dois do PEV. O CDS-PP obteve 4,25% e elegeu cinco deputados, mais um do que o PAN, que recolheu 3,28% dos votos.

Chega, Iniciativa Liberal e Livre conseguiram, pela primeira vez, um deputado cada um, com votações entre os 1,30% e os 1,09%.

Mas como é que se distribuem os votos pelos concelhos? Onde é que os partidos tiveram os melhores resultados? O portal de dados estatísticos EyeData, da agência Lusa, cruzou os resultados com um conjunto de variáveis económicas e sociais e retirou daí algumas conclusões.

Iniciativa Liberal com mais votos nos concelhos industriais

Os concelhos onde o Iniciativa Liberal (IL) obteve resultados mais altos apresentam um volume de negócios na indústria e no comércio que ultrapassa a média nacional. O partido teve melhor votação em Lisboa e Porto, numa análise em distritos. Em termos de concelhos, Lisboa, Oeiras e Cascais estiveram em destaque.

Ambiente – A percentagem de despesas em ambiente dos municípios onde o IL obteve melhores resultados é superior à média nacional representando 10,34% do total da despesa, contra a média nacional de 8,9%. Também a percentagem de resíduos urbanos preparados para valorização e reciclagem é maior face à média. Por outro lado, o consumo de energia elétrica por habitante é maior.

Demografia – O saldo populacional migratório por 10 mil habitantes, ou seja, o peso do número de imigrantes e emigrantes na população residente nos concelhos onde o IL obteve votações mais altas é quase o dobro da média nacional. A população estrangeira legalmente residente também é mais elevada.

O número médio de filhos por mulher é de 1,5, acima da média nacional, de 1,42. O número de nascimentos fora do casamento também é mais elevado e o número de divórcios é ligeiramente superior.

A população residente com 65 aos de idade ou mais situa-se abaixo da média do país, enquanto a população residente com menos de 15 anos é superior à média.

Economia – O volume de negócios das empresas não financeiras dos setores secundário (indústria) e terciário (comércio e serviços) é superior à média nacional nos concelhos onde o IL obteve resultados mais elevados. No primeiro caso a diferença chega aos 17,7% e no segundo aos 24,5%. Já as empresas do setor primário (agricultura, pescas e pecuária) apresentam um volume de negócios inferior à média nacional de 22,9%.

O ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem é de 1.171,65 euros, mais elevado do que a média do país, de 1.108,56 euros, tal como o poder de compra per capita.

Há menos trabalhadores da administração local nestes concelhos face à média nacional e o número de desempregados inscritos nos centros de emprego também é menor.

Educação – Nestes concelhos a percentagem da população com mais de 15 anos com pelo menos o ensino secundário é mais elevada do que a média, apesar de haver menos escolas por cada 10 mil habitantes.

A percentagem de empregadores com pelo menos o ensino secundário é de 53,42%, superior à média nacional, de 50%.

Sociedade – A percentagem de casamentos não católicos é de 70,66% do total de casamentos, um valor superior à média nacional (67,71%). Há 6,4 médicos por cada 1.000 habitantes e mais unidades hospitalares, públicas e privadas.

Chega onde há menos poder de compra, serviços de saúde e crime

O Chega teve melhores resultados no distrito de Portalegre (e de uma forma geral no sul do país) onde há menos poder de compra, serviços de saúde, sendo a criminalidade mais baixa do que no resto do país.

Ambiente – Em termos de ambiente, os concelhos onde o Chega obteve os melhores resultados nas eleições legislativas de domingo caracterizam-se por um consumo de energia inferior em 4,3% à média nacional (4.424,66 kWh/hab comparados com 4.621,62 kWh/hab) e um baixo grau de área ardida (2,38%, o que compara com a média nacional de 6,06%).

A quantidade de resíduos urbanos recolhidos por habitante é superior em 8,6% à média nacional, sendo de 528,96 quilos por habitante no terço onde o Chega obteve melhor resultado e de 487,29 na média nacional, algo que também se reflete nas despesas por município em ambiente, já que corresponde a 9,79% do total onde a CDU tem melhor resultado, e 8,92% na média nacional.

Demografia – Nestes concelhos, a percentagem de população com mais de 65 anos é praticamente idêntica à da média nacional, sendo de 21,52%, quando a média nacional é de 21,67%. Já na percentagem de população com menos de 15 anos, a média nacional é de 13,77% e o terço onde o Chega tem melhor comportamento eleitoral é de 14,78%.

O número de divórcios em cada 100 casamentos é superior ao da média nacional, sendo de 71,27 nos concelhos com melhor performance do Chega, o que compara com 64,06 a nível nacional.

A nível de nascimentos fora do casamento, o valor é superior em 13,6%, correspondentes a 63,45% no terço onde o Chega teve melhores resultados, e 55,87% a nível nacional.

A população estrangeira residente corresponde a 6,83% do total, ao passo que corresponde a 4,64% em termos nacionais, e o número médio de filhos é de 1,42 por mulher, em média, a nível nacional, sendo de 1,54 no terço de concelhos onde o Chega obteve melhor resultado.

Economia – O poder de compra per capita (por pessoa) é inferior em 0,9% à média nacional (número índice de 99,30 face a 100,22 a nível nacional).

O volume de negócios de empresas do setor secundário e terciário é inferior à média nacional (em 31,9% e 13,1% respetivamente), mas as empresas do setor primário têm um volume de negócios superior à média nacional em 25,2%. Já o número de desempregados inscritos é menor (4,66%).

A média do número de empresas com atividades de saúde humana e apoio social por 1.000 habitantes é menor, sendo de 8,33 nesses concelhos e 9,21 na média nacional.

Educação – A taxa de retenção no ensino básico (6,22%) é superior à média nacional (5,10%) enquanto a percentagem de população com mais de 15 anos que tem o ensino secundário é superior em 19,9% à média nacional nos concelhos onde o Chega tem o melhor resultado (33,55% face a 30,53%).

Esta tendência é repetida também na percentagem de empregadores com pelo menos o ensino secundário, já que a média nacional é de 50%, mas de 52,82% nos concelhos onde o Chega obtém melhor resultado.

O Chega tem ainda melhores resultados onde o número de escolas secundárias por 10 mil habitantes é menor face à média nacional (0,75 para 0,94), o mesmo sucedendo com as escolas básicas (6,02 para 6,66) e com as creches (5,17 para 5,67).

Sociedade – O número de hospitais (públicos ou privados) é menor, sendo de 1,53 nesses concelhos e a média nacional de 2,19.

A saúde é um fator determinante ainda no número de médicos por 1.000 habitantes, que é de 3,65 onde o partido liderado por André Ventura obteve melhores resultados e de 5,22 a nível nacional, em média.

A percentagem de beneficiários de Rendimento Social de Inserção é menor em 17,1% nestes concelhos , já que é de 2,65% nestes casos e de 3,20% a nível nacional.

O crime é também menor, já que os delitos criminais registados na Polícia Judiciária (PJ) por 10.000 habitantes são, em média, de 15,36 nestes concelhos e 18,81 a nível nacional.

O mesmo sucede com os crimes registados por todas as forças policiais por 10 mil habitantes, sendo de 317,07 em relação aos 321,58 na média nacional.

A despesa em cultura e desporto é também menor nessa região (9,56%) do que a nível nacional (10,26%).

Livre em concelhos onde os jovens têm mais estudos

Nos concelhos onde o Livre obteve os resultados mais elevados — Lisboa, Oeiras e Cascais — há uma percentagem maior de jovens com o ensino secundário do que no conjunto do país.

Ambiente – Estes concelhos registam uma área ardida média equivalente a 3,17%, o que corresponde a cerca de metade da média de 6,06% de área ardida a nível nacional em 2017. Verifica-se ainda que a quantidade de resíduos urbanos recolhidos por habitante e a percentagem de resíduos urbanos reciclados superam a média registada no conjunto do país em 7,3% e 6,0%, respetivamente.

Demografia – A percentagem de pessoas com menos de 15 anos residente em Lisboa, Oeiras e Cascais ascende a 14,61, sendo mais alta do que o valor médio nacional que é de 13,77.

O partido que elegeu Joacine Catar Moreira para deputada na Assembleia da República, registou melhores resultados nos concelhos onde a população estrangeira legalmente residente é de 6,17, acima da média nacional de 4,64.

Economia – Em média, nos concelhos em que o Livre conseguiu resultados mais elevados nestas eleições, contam-se 10,84 trabalhadores da administração pública local por cada 1.000 habitantes, o que reflete um valor mais baixo do que a média nacional, que é de 11,62 daqueles funcionários públicos.

Inversamente, no que ao ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem diz respeito, o valor registado nestes concelhos é de 1.200,34 euros, superando os 1.108,56 euros médios observados em Portugal.

Educação – Nestes três concelhos, 35,06% dos jovens com menos de 15 anos tem pelo menos o ensino secundário, valor que ultrapassa em quase cinco pontos percentuais a média nacional (de 30,53%).

Também no que diz respeito aos empregadores com pelo menos o ensino secundário, a percentagem atinge os 55,28 nestes concelhos – no conjunto do país esta média é de 50.

Sociedade – Os beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI) são 3,46% da população com mais de 15 anos aí residente, sendo que, no conjunto do país, a percentagem dos beneficiários desta prestação social é ligeiramente inferior (3,20).

Os dados mostram ainda que o número de casamentos não católicos é, nestes municípios, de 72,38% quando a média nacional é de 67,71%.

Em Portugal, a disparidade no ganho médio mensal entre níveis de habilitação é de 27,58%, mas nos concelhos onde o Livre obteve melhores resultados, esta disparidade é de 29,17%.

ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. E é engraçado ver que o PSD ganhou praticamente em todas as freguesias com maiores níveis habilitacionais do país. É assim em Lisboa e Porto e em Coimbra empatou na freguesia mais desenvolvida da cidade.

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