Denis Mukwege. O Nobel da Paz de 2018 está “preso” no seu próprio hospital

Denis Mukwege, que recebeu o Nobel da Paz em 2018, já tratou dezenas de milhares de sobreviventes de violação de guerra no Hospital Panzi, na República Democrática do Congo. Mas, agora, mal consegue sair do hospital por causa de ameaças de morte. 

Os esforços de Denis Mukwege para tratar milhares de sobreviventes de violação de guerra valeu-lhe o Prémio Nobel da Paz em 2018. Contudo, atualmente, o genecologista recebe tantas ameaças de morte que mal consegue sair do hospital.

“Parece uma prisão”, disse Mukwege no seu escritório, em declarações ao jornal britânico The Telegraph. “As ameaças são escritas e verbais. Há momentos em que homens armados aparecem na minha casa e disparam noite adentro apenas para nos traumatizar e criar medo”.

O médico não diz quem o quer matar. Porém, é claro que há quem gostasse de o silenciar por ousar falar contra os vários grupos que lutam pelo poder no leste do Congo, uma paisagem de colinas “amaldiçoada” por algumas das maiores reservas minerais da Terra.

“Não posso dizer quem é exatamente. Mas o que sei é que as pessoas que fazem todas as coisas más nesta área são as que me estão a ameaçar”, afirmou.

Do genocídio de Ruanda em 1994 a 2003, as grandes guerras da África ocorreram em todo o Congo. Oito exércitos africanos e dezenas de grupos armados lutaram pelo futuro da vasta nação e pelo acesso a algumas das suas lucrativas zonas de mineração. Quase seis milhões de pessoas morreram no conflito mais mortal desde a II Guerra Mundial.

Mukwege fundou o Hospital Panzi em 1999 para impedir que mulheres e crianças morressem durante o trabalho de parto. Contudo, a instituição foi rapidamente dominada por por mulheres e meninas com ferimentos de violência sexual e violação em gangue nas mãos de soldados saqueadores, milícias étnicas e ladrões.

No passado, o médico criticou o Ruanda e o Uganda pelo papel que desempenharam no saqueio do leste do seu país através de milícias, fez do ex-presidente Joseph Kabila um inimigo por reprimir a cultura de violação e impunidade e apelou a um tribunal especial para obter justiça pelos crimes cometidos no país ao longo das décadas.

As suas palavras quase lhe custaram a vida. Em 2012, cinco homens armados em roupas civis foram à sua casa para matá-lo. Mukwege só sobreviveu quando o seu guarda-costas distraiu os homens armados. Embora se tenha conseguido esconder, o seu segurança foi baleado e morto.

As ameaças diminuíram durante um tempo mas, em julho do ano passado, o médico pediu justiça para os crimes divulgados por uma investigação histórica da ONU em 2010. O relatório documentava mais de 600 crimes de guerra “indescritíveis” e crimes contra a humanidade de 1993 a 2003, implicava mais de 20 grupos de milícias e oito exércitos estrangeiros, incluindo Ruanda e Uganda, e pedia mais investigações e processos.

Muitas figuras poderosas da região prefeririam que o mundo esquecesse as conclusões do relatório e, desde setembro, o Nobel tem de ter proteção constante de um esquadrão de soldados da paz da ONU. Porém, há agora rumores de que a ONU quer retirar as tropas.

“Acho que, sem a proteção da Monusco [soldados da paz] aqui no hospital, teria sido praticamente impossível para mim continuar a trabalhar”, disse, explicando que quase nunca sai do hospital, exceto em ocasiões “muito raras”.

O médico dorme e come dentro do hospital. Embora a Segunda Guerra do Congo tenha acabado há mais de uma década, o trabalho mal pára para o homem de 66 anos. Um conjunto de milícias, grupos de guerra e bandidos armados ainda prejudicam vida de milhões de civis.

O Hospital Panzi ainda funciona com capacidade quase total como maternidade e como clínica para vítimas de violência sexual.

Mesmo depois de tantos anos, as feridas infligidas a alguns dos pacientes ainda chocam Mukwege. “No início de 2021, havia uma menina de três anos que foi violada na sua aldeia por um soldado [do governo]. Quando a menina foi trazida para aqui, todos os seus intestinos tinha caído. Estava inconsciente e a sangrar. Nunca pensámos que sobreviveria”.

Mukwege operou-a duas vezes, trazendo-a milagrosamente de volta à vida. Contudo, o médico não consegue parar de pensar na menina.

“Eu acredito que é revoltante. É uma perda total da humanidade… Acho abominável. Inaceitável. Pergunto-me o que estamos a fazer se as crianças não são protegidas na nossa sociedade”, disse.

Vinte anos depois de abrir o hospital, o médico ainda não consegue entender por que os grupos armados usam a violação como arma de guerra.

“Geralmente é violação coletiva, violação em massa. Violam muitas mulheres ao mesmo tempo e também violam publicamente com extrema violência. Acho que o objetivo principal é traumatizar a população, fazendo coisas que um ser humano não pode fazer com outro só para mostrar poder, força”, disse.

“Acho que a violação como arma é aquele que, quando ocorre numa sociedade, destrói a capacidade de uma sociedade; destrói a identidade”, rematou.

Maria Campos, ZAP //

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7 COMENTÁRIOS

  1. … com isto é que as Metoos se deveriam preocupar, não encontro palavras para descrever isto, nenhum animal por muito irracional que seja faz isto, dizer que são consequências da guerra não é justificação, crianças de 3 anos NADA têm a ver com política.
    Mas quantas notícias lemos sobre isto? Para mim racismo é isto, o desprezo que os media dão ao sofrimento e atrocidades que sofrem estas pessoas (porque simplesmente NINGUÉM quer saber e nâo vende)
    Transformamos numa sociedade capitalista, mesquinha, egoísta, e gostava de dizer vazia, mas não, esta sociedade está na verdade tão cheia de m… que não interessa nada que é um insulto ao fertilizante animal.

  2. Isto é África no seu melhor e assim irá continuar através dos séculos até possivelmente que se exterminem uns aos outros! Têm o que escolheram, ou antes, o que o comunismo lhes impôs e agora é o que está à vista!

    • …isso é a velha justificação fácil usando decisões políticas do passado para justificar os danos em gerações seguinte. Já nem falo na actual geração de mulheres que está a ser violada sistematicamente, e sim “Metoos” violada MESMO com a maior brutalidade e humilhação que possam imaginar, não na verdade não conseguem, é muito pior que isso!
      Mas caro “de mal a pior” o que foi que as crianças escolheram? como se pode assobiar para o lado perante isto?
      E já agora porque é que NINGUÉM quer saber? Porque é que os media não estão lá? Porque não há movimentações internacionais com dimensão suficiente para por um travão nisto?
      Porque são, como bem disse, AFRICANOS!
      Defendem-se direitos de criminosos usando a cor de pele ou etnia como justificação, e ninguém quer saber dos inocentes.

      • Meu caro penso eu de que, o que diz não deixa de ter sentido, não sei a idade que tem, mas eu já passei pelos nossos dois regimes e cumpri dois anos de serviço militar em Angola, nada tenho contra pessoas de qualquer raça, só tenho é contra pessoas mal comportadas, mas tanto no nosso caso como o de outras nações fomos expulsos de África devido à infiltração comunista e outros também pela força do islamismo cada vez mais a descer pelo continente africano. Partidos aqui em Portugal amigos e defensores de uma descolonização brutal como o que nos aconteceu, não faltam, impor aos africanos ordem e respeito é sermos conotados de imediato de colonialistas e racistas, portanto a nossa margem de manobra é escassa e nem os que estão desse lado e seus apoiantes conseguem compreender serem afinal eles os maiores encorajadores do ódio e racismo. Repare no caso atual em Moçambique onde um governo saído do apoio comunista e que praticou terrorismo tal como o que estão agora a sofrer, se recusa a uma intervenção internacional para os ajudar, enquanto o povo é degolado ou morre de fome, a culpa é nossa?

        • … desde já (muito) agradeço o esclarecimento, e louvo o serviço que prestou, mas a minha revolta não foi, nem é, no sentido de imputar culpas políticas.
          Pretendo sim fazer ver à maioria dos ovinos reféns dos media e redes sociais, que ignorar o que se está a passar em tantos países africanos, é um racismo muito maior do que chamar de “preto” a alguém (que na maioria das vezes nem é racismo algum).
          No entanto as reacções inflamadíssimas da grande maioria a um tipo de discriminação (insulto), ou outro (centenas de mortes de inocentes), é perfeitamente descabida e irracional, mas se calhar eu é que estou errado.

          Só dois pontos que queria destacar nas suas palavras, deveria ser muito melhor divulgado como decorreu o processo de colonização e descolonização e não completamente esquecido (como foi), mas de forma justa e imparcial, o que será sempre difícil pois somos uma das “partes”.

          O outro ponto é o da “culpa”, podemos não ser culpados, mas não consigo ver como diz, povo a ser degolado, ou crianças a morrer à fome e não sentir uma profunda culpa da minha indiferença. Não pense que sou ingénuo ou que ache que as coisas se resolvem facilmente, já fiz parte de duas colaborações no sentido de os ajudar (uma de colaboração empresarial e outra de oferta gratuita de material informático às crianças, projecto OLPC) que fracassaram redondamente devido ao radicalismo das posições deles.
          Mas enquanto houver inocentes a morrer aos milhares de forma tão horrível com um interesse por parte da população portuguesa, absolutamente inexistente, comparado com a bola ou um “big brother” eu não consigo deixar de me sentir envergonhado e culpado.

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