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Algumas cidades europeias querem manter os turistas afastados (e Veneza até considera taxas de acesso)

A pandemia de covid-19 provocou uma descida abrupta no turismo em todo o mundo. Agora, alguns países europeus estão a tentar que o número de turistas não volte a atingir as mesmas proporções.

O setor do turismo foi um dos mais afetados pela pandemia de covid-19 e pelas medidas adotadas um pouco por todo o mundo para evitar a transmissão do vírus.

Amesterdão, que atrai anualmente milhões de pessoas para os bairros pitorescos da cidade, viu acumular, nas últimas décadas, cada vez mais barulho, lixo e violência, provocados pela crescente vaga de turismo.

Por esta razão, antes de surgir a pandemia do novo coronavírus, a capital holandesa já procurava (e aplicava) restrições com vista à diminuição do número de turistas. Algumas passavam por multas pesadas por consumo de álcool na via pública, restrições apertadas aos alugueres a curto prazo e proibições absolutas a certos tipos de lojas.

Mas nem assim conseguiram atingir o objetivo – até chegar a pandemia.

Durante meses, as fronteiras estiveram fechadas e as ruas da cidade despiram-se de turistas. E, mesmo com o regresso da atividade no setor, registaram-se menos cerca de 25% de turistas em estabelecimentos comerciais.

Agora, a cidade só quer receber turistas com moderação, deixando de lado a confusão típica dos tempos áureos da cidade e colocando o foco nos aspetos culturais da cidade, e menos na tolerância ao consumo de canábis ou nas visitas ao Red Light District, o famoso bairro de prostituição holandês.

Mas Amesterdão não é a única cidade que quer ver a vaga de turismo diminuir. Há várias cidades europeias que querem diminuir o turismo para que seja menos incomodativo para os residentes e mais lucrativo para os negócios.

“Encontrámo-nos com representantes de Amesterdão, Barcelona e Florença durante a pandemia e todos nós pensávamos o mesmo. Antes da covid-19, o sobre-turismo tinha-se tornado quase insuportável”, disse Hana Třeštíková, conselheira de turismo de Praga, na República Checa.

“A covid-19 deu a oportunidade para tentar fazer algumas mudanças no que as nossas cidades representam, na forma como nos promovemos e como devemos concentrar-nos na qualidade das visitas e não na quantidade”, continuou, citada pelo jornal britânico The Independent.

Todas estas cidades atraem milhões de turistas devido às características que possuem: em Amesterdão, os turistas sentem-se atraídos pelo Red Light District e pelo facto de a canábis ser legal; Barcelona é conhecida pelas praias urbanas e Praga pelos famosos salões de cerveja. Geerte Udo, diretor da Amsterdam & Partners, considera que o turismo provocado por estas particularidades é um “efeito negativo”.

Quando grande parte da Europa fechou no ano passado, o centro medieval de Amesterdão – Património Mundial da Unesco – assumiu “uma beleza de cortar a respiração”, diz Udo. Além disso, “o vazio revelou o quão poucos habitantes vivem realmente ali”, acrescenta.

No entanto, a economia de algumas cidades europeias depende do turismo: cerca de 13% da economia de Barcelona e 11% dos empregos de Amesterdão estarão ligados aos visitantes.

Nos últimos anos, o problema turístico de Praga começou a assemelhar-se ao de Amesterdão, diz Třeštíková. A capital checa recebia oito milhões de visitantes por ano, quase duplicando entre 2012 e 2019 e, tal como Amesterdão, a maioria dirigia-se para os mesmos bairros.

“O centro da cidade já não é uma localidade residencial (…) Temos de nos concentrar no que os residentes precisam e mostrar uma cidade que não seja um cenário de cinema, mas sim que viva com pessoas de Praga”, diz Třeštíková.

Para a conselheira de turismo, o custo dos bilhetes em companhias aéreas low cost, o número de apartamentos Airbnb e mesmo o preço da cerveja são os fatores que mais influenciam as visitas de “baixa qualidade”.

Veneza estuda taxas de acesso para controlar número de turistas

Em Itália, a cidade de Veneza também procura controlar o turismo e está até a planear introduzir um sistema de reservas e taxas de acesso já a partir do próximo verão.

A informação é avançada pelo jornal italiano La Stampa, que escreve que, a partir do verão de 2022, a experiência passará a ser semelhante à visita a um museu, cita o Jornal de Negócios.

Apesar de ser melhor restringir os turistas à mesma zona da cidade, para que o restante fique por conta dos habitantes locais, o vice-presidente da Save Venice, Alberto Nardi, avisa que o turismo é fundamental para a sobrevivência da cidade.

Nardi sublinha que a população de Veneza tem vindo a diminuir, o custo de vida a aumentar e os empregos não turísticos a desaparecer.

Veneza deve “desenvolver negócios que sejam diferentes do turismo”, considera.

Agora, além da obrigatoriedade de reserva, a autarquia está a planear a exigência de uma taxa, entre os 3 e 10 euros, dependendo da estação do ano, para aceder à cidade de Veneza.

Os residentes e a respetiva família, as crianças com menos de seis anos e ainda quem fique nos hotéis da cidade poderá estar isenta do pagamento da taxa.

Já o jornal britânico The Times escreve que serão instalados torniquetes eletrónicos nos principais pontos de entrada da cidade.

  Sofia Teixeira Santos, ZAP //

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