Joana Amaral Dias “descobre a careca” à CGD e revela auditoria com créditos e negócios ruinosos

Miguel A. Lopes / Lusa

Paulo Macedo, ex-ministro da Saúde do governo de Passos Coelho, é diretor executivo da Caixa Geral de Depósitos (CGD)

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) rejeitou enviar para o Parlamento as conclusões de uma auditoria que aponta que o banco público perdeu milhões com créditos de risco e negócios ruinosos. E foi Joana Amaral Dias, ex-deputada do Bloco de Esquerda, quem as divulgou na CMTV.

A auditoria à gestão da CGD nos últimos 16 anos, ou seja, no período de 2000 a 2015, foi solicitada pelo Governo em 2016, depois de um projecto de resolução aprovado no Parlamento, no seguimento da recapitalização do banco público.

O documento foi concluído em 2018, mas nunca chegou ao Parlamento porque a CGD recusou-se a enviar as conclusões da auditoria invocando o segredo de justiça, pelo facto de o relatório ter sido enviado para a Procuradoria Geral da República, como destaca o Observador.

E foi Joana Amaral Dias quem divulgou os dados da auditoria na CMTV, onde é comentadora. A ex-deputada do Bloco de Esquerda sublinhou no Fórum TSF que o fez porque o documento “era de interesse público” e “da máxima relevância nacional”.

Joana Amaral Dias também critica que está em causa a concessão de créditos de risco “a fundo perdido”, numa “rede de favores”, notando que os sucessivos Governos permitiram à Caixa atribuir “milhões aos seus amigos ou a outras pessoas por manifesto interesse, sem qualquer garantia”, “mesmo quando os pareceres técnicos eram desfavoráveis ou mesmo sem qualquer estudo”.

Perdas de 1.200 milhões de euros com créditos de risco

O relatório, uma versão preliminar da auditoria independente que foi realizada pela EY, foi, entretanto, divulgado por órgãos de comunicação social como o Expresso, o Eco e o Jornal Económico.

Estas publicações notam que a CGD perdeu 1.200 milhões de euros em créditos de risco entre 2000 e 2015, depois de as administrações do Banco terem ignorado pareceres de análise de risco, concedendo empréstimos sem garantias suficientes, conforme apurou a auditoria.

A EY detectou falhas em 46 créditos que geraram perdas assumidas pelo Banco, com o empréstimo à fábrica da ex-La Seda em Sines, a Artlant, a provocar o maior buraco – de um crédito de 350,8 milhões de euros, 211 milhões foram dados como perdidos.

O empresário madeirense Joe Berardo também surge entre os maiores devedores da CGD, com empréstimos de 267 milhões de euros à sua Fundação a resultarem em prejuízos de 124 milhões para a entidade financeira.

No caso do projecto Vale do Lobo, que envolve a imobiliária Birchview e o Grupo QDL, a CGD perdeu 30% dos 170 milhões de euros que concedeu de crédito.

A auditoria também assinala que a CGD perdeu milhões com vários negócios ruinosos, nomeadamente com o investimento em acções do BCP que resultou em perdas de 555 milhões de euros. O relatório da EY critica também o facto de o Banco do Estado ter aprovado a saída de lideres de topo para o BCP, como aconteceu com Armando Vara que, na semana passada, começou a cumprir pena de prisão pelo crime de tráfico de influências enquanto ex-ministro.

O investimento nas chamadas obrigações Caravela também provocou prejuízos de 340 milhões de euros à CGD, tal como a aquisição de acções na La Seda, o investimento em imobiliário em Espanha e as aplicações feitas no capital da Vista Alegre.

Administradores receberam bónus mesmo com prejuízos

O relatório da EY também aponta que os administradores da CGD receberam “remuneração variável” e “voto de confiança”, mesmo com resultados negativos.

As decisões de atribuição de bónus “foram tomadas de forma avulsa“, conclui ainda a auditoria.

A auditoria realça que “em nenhum momento foi identificada a atribuição de remunerações variáveis em forma de instrumento financeiro” que incentivassem a um equilíbrio entre capital e riscos, nem a implementação de cláusulas de ‘clawback’, que permitem vincular os gestores com as decisões passadas.

A EY acredita que estas medidas poderiam ter contribuído para um “processo de decisão de crédito mais sustentado e atento ao risco”, permitindo ainda apurar responsabilidades “nas perdas significativas verificadas entre 2011 e 2015”.

A consultora revelou ainda que “o volume de imparidades da CGD evoluiu de 46,9% em 2013 para 58,1% em 2015” no sector da construção e imobiliário. Os restantes bancos todos apresentaram a situação inversa, reduzindo as imparidades na concessão de crédito às empresas deste segmento.

O Governo já anunciou, através de uma nota do Ministério das Finanças enviada à agência Lusa, que “solicitou à Administração da CGD que fossem efectuadas todas as diligências necessárias para apurar quaisquer responsabilidades” pelos actos de má gestão assinalados pela auditoria.

O Executivo também refere que recomendou ao Conselho de Administração da CGD “a necessidade de tomar as medidas adequadas para a defesa da situação patrimonial” do Banco.

Marcelo Rebelo de Sousa também já se pronunciou sobre o caso, recusando-se a fazer considerações. “Isso há-de chegar às minhas mãos. Vou ter de me pronunciar, vou esperar por esse momento”, notou o Presidente da República.

ZAP // Lusa

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34 COMENTÁRIOS

  1. Quem paga todos esses milhões? Serão sempre aqueles que menos têm, porque os barões estão isentos dessas “obrigações”. E porque será que é sempre o Povo a pagar estes prejuízos quando são os políticos que governam, os administradores, gestores & Companhia, os únicos responsáveis por toda esta situação?

  2. Eu ouvi dizer que havia empréstimos a empresas já falidas (com empresas espalhadas por ai com contabilidades certificadas e nada fantasiosas e para terem empréstimos semelhantes têm de dar garantias reais,avais etc) e que um alto dirigente do PS que já faleceu, recebia a sua comissão nas áreas de serviço aos milhares de euros em envelopes.
    Mas isto até pode nem ser verdade, afinal estamos num País transparente e eticamente exemplar…

  3. Tudo a saque… e sem pena ou castigo que se aplauda.
    .
    O povo que vive nos brandos estrumes, continua a ter de pagar sem fazer barulho e sem polícias e juízes que os defendam dos ladrões que chegam ao poder.
    .
    O jardim que produziu os cravos vermelhos de Abril, afinal estava infestado de vermes, e até parece que
    foram cair todos na pia da política.
    .
    Não haverá um que se aproveite?!
    .
    Quiseram acabar com a ditadura para que ninguém mais morresse na guerra, mas de facto, estão a matar-nos de desilusão e nas vidas sem esperança estão a semear o desejo de um tirano justiceiro e impiedoso.

  4. Este antro de gandins armado em país, só mesmo com um reset! Pode ser que o Apophis acerte em Portugal já em 2029. Enquanto há vida, há esperança…

  5. Joana Amaral Dias está a prestar um verdadeiro serviço ao pais por isso ponha-se a pau… esta-se a meter com eles…!
    E tenha cuidado com o alerta de José Carlos 23 Janeiro, 2019 at 16:15… ainda a metem na cadeia por dizer verdades e abrir os olhinho ao povo, este mesmo povinho que “por da cá aquela palha” ou por um balde de agua mata o vizinho à sacholada mas que tolera que estes bandalhos que nos desgovernam hipotequem o futuro dos nossos descendentes. O da actual geraçao já ja esta na penuria há muito!
    Precisamos de um novo estado (para nao dizer estado novo e ferir susceptibilidades). Se olharmos à volta do mundo já se notam as evidencias do radicalismo que por aí vem, por cansado do povo com tanta gatunagem.

    • Hahahaaaa!…
      Claro, até porque quem desapareceu com o dinheiro da CGD nem foram empresas privadas, nem nada!!
      Mas bons, mesmo bons, são os bancos privados – tipo BES, Banif, BPN, BPP, etc – onde a magnífica gestão privada sempre foi exemplar!…
      Isto já para não falar no Lehman Brothers e de outra centena de bancos pelo mundo fora!
      Foram todos gerido exemplarmente por gente paga a peso de ouro – que ainda foi premiada pelo excelente trabalho!

      • Governadas por ex-politicos ou protegidos por politicos. A falencia do BANIF foi decidida pelo governo. O BES a mesma coisa. Há empresas privadas que dão prejuizo, mas em média, as empresas privadas dão lucro. Coisa que não acontece no Estado a unica maneira de alguma empresa dar lucro no Estado é se o Estado garantir que tem um monopólio

        • Claro; políticos (e companhia!) que trabalham para os interesses de empresas PRIVADAS!!
          As empresas do Estado devem estar apenas nos sectores essenciais e o importante não é dar lucro; é servir a população!
          Os CTT davam lucro e serviam relativamente bem a população; agora estão a ser deslapidados, com os preços sempre a aumentar, os serviços sempre a piorar, não servem a população – principalmente a do interior, porque não dá lucro!!!
          Isto já para não falar em águas, saneamento, energia, transportes, etc, etc…
          .
          Um artigo muito interessante, onde se vê a “qualidade” do serviço e da gestão privada num dos sectores essenciais (água):
          “Privatizações revertidas em 35 países – 180 cidades recuperam gestão da água”
          http://www.aia-regiaosetubal.pt/index.php?q=noticia/privatizacoes-revertidas-em-35-paises-180-cidades-recuperam-gestao-da-agua

          • O importante nao é dar lucro? Depois quem paga as despesas do Estado? A classe média. Os CTT estavam pendurados num monopólio em que podiam cobrar caro e havia o serviço de cartas que teve um decrescimo natural. Transportes dao sempre prejuizo e o prejuizo tem de ser coberto com “subsidios” ou seja a classe média a pagar. Energia a 2a mais cara da Europa devido à intervenção estatal de subsidiar renováveis. Paga classe média. Água o desperdicio da agua pelo país é qualquer coisa à volta de 50%. O que vale é que Portugal é um país rico em água senão neste momento já havia racionamento. Saneamento outro monopolio

            • Não, não é!
              Classe media?! Não, pagam todos!…
              Como andam a pagar prejuízos PRIVADOS do BES, BPN, etc…
              .
              Os CTT podiam cobrar caro?
              Mas não cobravam e trabalhavam bem!
              Agora, que são PRIVADOS, é que cobram caríssimo (aumentaram mais os preços em 3 anos, do que nos 10 anos anteriores!) e o serviço está cada vez pior (e menos acessível à população)!…
              .
              “Transportes dao sempre prejuizo e o prejuizo tem de ser coberto com “subsidios” ou seja a classe média a pagar”
              Pagam todos – principalmente quem não vive na área do grande Porto e Lisboa (eu não me lembro da ultima vez que andei de transportes públicos)!..
              .
              “intervenção estatal de subsidiar renováveis”
              Claro – mais uma vez, o Estado a subsidiar PRIVADOS!!
              .
              “Saneamento outro monopolio”
              Monopólio onde?
              Não faltam concelhos em Portugal onde água e o saneamento foram PRIVATIZADOS (normalmente com consequências ruinosas para o município e os munícipes!) – onde eu moro é há uma dessas “mega burlas” que se arrasta nos tribunais há anos…
              Mas, não é só em Portugal – o caso das águas da cidade de Berlim é um dos mais caricatos e mostra bem quão bem funciona a gestão PRIVADA de serviço publico essencial:
              https://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/05/politica/1433533748_741282.html

            • Mais uma vez não soube interpretar português e volta a dizer coisas que não são verdade. Intervenção estatal de subsidiar renováveis, não quer dizer intervenção estatal para o Estado pagar as renováveis, quer dizer intervenção estatal para obrigar as pessoas a pagarem obrigatoriamente as renováveis através da factura da electricidade. Depois diz que pagam todos não é só a classe média. Mentira. Muita gente não paga IRS está isenta. Depois o fundo de resolução q vai pagar o BES não é Estatal. O Estado pode ter emprestado o dinheiro ao fundo de resolução agora, mas quem vai pagar o buraco do BES vai ser o BCP e companhia que são quem vai capitalizar o fundo de resolução. Os CTT sabiam que a correspondência estava a cair de ano para ano e você como bom demagogo q é ignora isso. E não vejo qq qualidade a cair. Monopólios privados garantidos pelo Estado ou monopólios do Estado são igualmente maus.

    • .. quer empresas privadas para o saque ser ainda pior ? se escrevesse que era de os colocar no Campo Pequeno com uma manada á deriva aí sim.

  6. está mais que evidente,as mãos se socrates.por aqui…agora é partir para confiscar tudo e todos envolvidos…as riquezas não desaparecem…estão escondidas…é procura-las.

  7. O povo aguenta ai aguenta ,aguenta , mas talvês haverá um dia em que se nos esgote a paciência , até lá vamos continuando a discutir o futebol !

  8. É o que faz contratarem administradores de fraca qualidade. Qualquer recém licenciado faria um trabalho bem melhor e com um salário bem mais baixo. A CGD só em salários poupava uns bons milhões. A solução está em cortar nos salários e prémios dos administradores e no caso de fazerem aldrabices, metê-los na cadeia.

  9. Quantos M€ terão sido desviados para contas particulares, cujos donos estão com a família neste momento a banhar-se de sol e a divertir-se com as asneiradas deste país?

  10. Todos opinam sobre o assunto, mas alguém já passou a vista por um pdf do documento de que toda a gente fala? Quem tera a coragem de o disponibilizar?

  11. Isto deve ter havido algum concurso entre banca privada e pública para ver qual ganharia o prémio de pior gestão, estranho em todo o caso a banca pública que muitos imaginam imaculada se meter numa trapalhada destas.

  12. A CGD, como grande parte dos organismos públicos auto-promove-se sem mexer uma palha e muitas vezes tem gestão danosa. Cá por mim acabava-se com a CGD e com aquele antro de amiguinhos que nada fazem e quando fazem algo é para seu próprio proveito. Abaixo a CGD!!!

  13. chama-se a isto entregar o ouro aos bandidos ou pôr os lobos a guardar os rebanhos. apontem-me um único destes, como dizia a Mortágua “o melhor ceo da europa e arredores” que defenda a coisa pública. só pode bem gerir um negócio quem realmente o defende e não quem o quer ver acabado sem possibilidades de fazer frente à ideologia que defende que é a ganancia do lucro desmedido.

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