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Bruxelas responde à AstraZeneca. “Essa lógica pode funcionar no talho do bairro, mas não em contratos”

A Comissária da Saúde europeia apelou, esta quarta-feira, à AstraZeneca que se empenhe “na reconstrução da confiança” com Bruxelas e que seja o “mais transparente possível” no fornecimento de informações.

O clima de tensão entre a União Europeia e a AstraZeneca continua. Depois de a farmacêutica ter revelado que iria reduzir as entregas da sua vacina devido a problemas de produção, a Comissão Europeia fez pressão.

Entretanto, numa entrevista a um jornal italiano, o CEO da farmacêutica britânica, Pascal Soriot, disse que estavam a fazer o melhor que podem e que o Reino Unido não estava a ter estes problemas porque esse contrato “foi assinado três meses antes do europeu”.

O Executivo comunitário não se deixou ficar sem uma resposta. “Rejeitamos a lógica do ‘primeiro a chegar é o primeiro a ser servido’. Isso pode funcionar no talho do bairro, mas não em contratos, e não nos nossos acordos prévios de aquisição”, afirmou Stella Kyriakides, Comissária da Saúde.

“Apelo à AstraZeneca que se empenhe totalmente na reconstrução da confiança, no fornecer de informações completas e cumprindo as suas obrigações contratuais, societárias e morais”, acrescentou.

A possibilidade de se atrasar nas entregas, segundo a empresa, está prevista numa “cláusula de melhores esforços” no contrato assinado com Bruxelas, algo que o Executivo comunitário rejeita.

“A visão de que a empresa não está obrigada a cumprir porque assinámos um acordo de melhor esforço, não é correta nem aceitável. Assinámos um acordo prévio de aquisição para um produto que ainda não existia e que ainda hoje não está autorizado. E assinámo-lo precisamente para garantir que a empresa adquire capacidade produtiva para produzir a vacina mais cedo, a fim de poder distribuir um certo volume de doses no dia em que tiver autorização”, disse ainda a comissária.

“Nenhuma empresa deve alimentar qualquer ilusão de que não temos meios para perceber o que se está a passar, assim, pedimos a todas as empresas que sejam o mais transparentes possível com as informações para termos noção – e é o que pedimos à empresa – da produção de doses, onde foram produzidas e se foram enviadas para algum lado”, apelou.

A Agência Europeia do Medicamento (EMA) prevê aprovar, até ao final desta semana, a vacina da AstraZeneca, apesar dos problemas de fornecimento.

Segundo o semanário Expresso, a AstraZeneca prevê entregar 31 milhões de doses à UE até final de março mas, de acordo com uma fonte comunitária, o contrato apontava para “os três digitos” (algo mais perto dos 100 milhões). No total, o contrato prevê a compra de 300 milhões de doses, com possibilidade de aquisição de mais 100 milhões adicionais.

A reunião entre a farmacêutica, a Comissão Europeia e representantes dos 27 Estados Membros marcada para esta quarta-feira esteve em risco de não se realizar, mas acabou por ir para a frente.

  Filipa Mesquita, ZAP //

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