Bolsonaro proíbe queimadas no Brasil durante dois meses

O presidente Jair Bolsonaro assinou na noite desta quarta-feira um decreto que proíbe as queimadas em todo o país durante dois meses, informaram fontes do governo citadas por vários meios de comunicação.

O decreto, que será publicado no Diário Oficial esta quinta-feira, suspende a utilização das queimadas nos próximos 60 dias em todo território nacional, mas admite algumas exceções. As queimadas controladas são permitidas pelo Código Florestal brasileiro em determinadas circunstâncias, desde que autorizadas pelos organismos de controlo.

Mas existem três exceções: o fogo poderá continuar a ser usado durante este período de tempo para “controlo fitossanitário quando autorizado pelo órgão governamental competente” — por exemplo, para combater pragas —, “para práticas de prevenção e combate a incêndios” e “para práticas de agricultura de subsistência executadas pelas populações tradicionais e indígenas”, de acordo com o Globo, que cita o decreto-lei.

Este decreto faz parte de um conjunto de medidas de proteção ambiental que serão anunciadas e formalizadas ao longo da próxima semana – uma resposta às críticas à gestão dos territórios amazónicos que se têm feito ouvir, tanto ao nível nacional como internacional.

Dentro do pacote de medidas estarão também o combate à desflorestação, como propostas de exploração mineral e vegetal no território da floresta amazónica, ou a regularização da atividade de garimpo.

Bolsonaro enfrenta uma crescente pressão interna e externa pelos incêndios que se multiplicaram na Amazónia nas últimas semanas. No passado fim-de-semana, Bolsonaro defendeu publicamente as queimadas, dizendo que são comuns e que são até “tradição” nalguns pontos do Brasil. “O pessoal mesmo faz essa queimada. É quase uma tradição. Não é apenas educar, não é fácil”, disse o Presidente brasileiro.

Desde janeiro, foram registados 83.329 focos de incêndio no Brasil, sendo 52,1% na floresta amazónica, segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Este número representa um crescimento de 77% em relação ao mesmo período do ano passado e constitui um recorde desde 2010.

A proliferação dos focos de incêndio na Amazónia provocou uma enxurrada de críticas a Bolsonaro, questionado por suas posturas favoráveis ao desenvolvimento da agropecuária e da mineração na região, inclusive em reservas indígenas e áreas protegidas.

Na passada segunda-feira e na sequência da cimeira do G7, que decorreu no passado fim de semana na cidade francesa de Biarritz, o Presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que o grupo disponibilizou uma ajuda imediata de 20 milhões de dólares (17,95 milhões de euros) para combater os incêndios na maior floresta tropical do mundo que Bolsonaro rejeitou por pôr em causa a soberania brasileira sobre a Amazónia.

Mas aceitou 11 milhões de euros do Reino Unido, explicando que o problema não é com o G7 mas sim com o presidente da França. Admitiu, no entanto, que se Macron retirasse o que considerou serem insultos à sua pessoa e não atentasse contra a soberania do país, aceitaria os donativos, pois o Brasil, afirmou, “não rasga dinheiro”.

EUA querem ajudar Brasil e deixam críticas ao G7

Os Estados Unidos expressaram a sua disponibilidade para ajudar o Brasil a combater os incêndios na Amazónia, mas mostraram-se contra o apoio financeiro oferecido pelos países do G7, por não terem consultado o Governo brasileiro.

Os EUA estão prontos para ajudar o Brasil nos esforços de combate aos incêndios na Amazónia. [Mas] Não concordamos com a iniciativa do G7, que falhou em consultar o Governo de Jair Bolsonaro”, escreveu na quarta-feira o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Garrett Marquis, na rede social Twitter.

Trump elogiou os esforços do seu homólogo brasileiro, Jair Bolsonaro, no combate aos incêndios na Amazónia. Donald Trump usou a sua conta pessoal no Twitter para congratular Jair Bolsonaro sobre a forma como tem reagido aos incêndios na Amazónia, considerando que o seu trabalho tem sido “muito bom para o povo brasileiro”.

Indústria nega suspensão de compras de couro

O Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), associação que representa produtores de couro do país, recuou e negou a informação vinculada  de que marcas internacionais iriam suspender compras do couro devido às queimadas na Amazónia.

“A carta foi divulgada antes da verificação com a empresa importadora. (…) Esse importador estaria supostamente a suspender as compras. Foi um equívoco nosso. Vamos corrigir a informação junto do Governo federal”, disse o presidente executivo do CICB, Fernando Bello, ao portal de notícias Estadão.

A imprensa brasileira tinha noticiado uma carta enviada pelo CICB ao ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, que informava que pelo menos 18 marcas de roupa e calçado internacionais pediram a suspensão de compras de couro ao Brasil por causa das queimadas na Amazónia.

Na carta, Fernando Bello disse que recebeu com muita preocupação o comunicado de suspensão de compras de couros. “Este cancelamento foi justificado em função de notícias relacionando queimadas na região amazónica ao agronegócio do país. Para uma nação que exporta mais de 80% de sua produção de couros, chegando a gerar dois mil milhões de dólares [1,8 mil milhões de euros] em vendas ao mercado externo num único ano, trata-se de uma informação devastadora”, escreveu o presidente do CICB.

A carta concluía, pedindo ao Ministério do Meio Ambiente brasileiro uma atenção especial à situação do setor e que seja feita uma “contenção de danos à imagem do país no mercado externo”.

Foram citadas na carta as marcas Timberland, Dickies, Kipling, Vans, Kodiak, Terra, Walls, Workrite, Eagle Creek, Eastpack, JanSport, The North Face, Napapijri, Bulwark, Altra, Icebreaker, Smartwoll e Horace Small.

Porém, Fernando Bello recuou, declarando que se tratou de um erro de “pré-avaliação”. “Recebemos este relato de uma indústria brasileira e, quando esclarecemos o facto com o cliente internacional, obtivemos a informação de que não haverá cancelamentos”, acrescentou o presidente do CICB. Bello disse ainda que não há intenção dos importadores boicotarem ou restringirem compras do produto brasileiro.

Segundo o CICB, os importadores de couro do Brasil afirmaram que vão continuar com os pedidos que já foram feitos, mas que gostariam de “esclarecimentos adicionais” sobre a origem e rastreabilidade do produto.

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, comentou a situação e garantiu que as “exportações seguem normais”. “Jornais publicaram que 18 marcas suspenderam a compra de couro brasileiro. Àqueles que torcem contra o país e que, vergonhosamente, divulgaram felizes a notícia, informo que o Centro de Indústria de Curtumes do Brasil negou tal suspensão. As exportações seguem normais”, escreveu Bolsonaro na rede social Facebook.

– Mais cedo jornais publicaram que 18 marcas suspenderam a compra de couro brasileiro. Àqueles que torcem contra o país…

Publicado por Jair Messias Bolsonaro em Quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Os incêndios registados na Amazónia mobilizaram a opinião pública mundial sobre a aceleração da destruição do meio ambiente no Brasil, mas a venda de produtos de couro do Brasil não foi afetada, segundo a CICB.

Fumo dos incêndios cobre Argentina e Uruguai

O fumo dos incêndios na Amazónia cobre esta quarta-feira metade da Argentina, de norte ao centro do país e inclusive o Rio da Prata, atingindo a capital, Buenos Aires, assim como Montevidéu, no Uruguai.

As partículas vindas da Amazónia formam uma densa camada de fumo sobre a cidade de Buenos Aires numa combinação de sol com céu nublado sem, no entanto, afetar a visibilidade. O fumo chegou à capital argentina empurrada pelo vento de norte, pouco comum nesta época invernal do ano.

O Serviço Meteorológico argentino informou que a nuvem de fumo proveniente dos grandes incêndios na Amazónia fez com que o dia de hoje estivesse “na maior parte nublado com fumo”.

Na margem oposta do Rio da Prata, o Uruguai permanece coberto pelo fumo, atingindo a visibilidade na capital, Montevidéu. Nos bairros próximos do litoral, como Barrio Sur, Punta Carretas, Trouville, Pocitos, Buceo e Malvín, a nuvem forma uma densa cortina que impede a visão a poucos metros de distância. A mínima visibilidade chegou a provocar problemas no tráfego aéreo do aeroporto de Carrasco. Segundo o Instituto Uruguaio de Meteorologia, trata-se de “uma névoa intensa combinada com o fumo amazónico”.

Na Argentina, através de fotografias obtidas por satélite, é possível ver metade do país coberto pelo fumo dos fogos na Amazónia, que começou a entrar no país na última sexta-feira. “O fumo é uma combinação dos incêndios no Brasil, mas também dos incêndios na Bolívia, no Paraguai e no norte da Argentina”, destacou Cindy Fernández, porta-voz do Serviço Meteorológico argentino.

A província argentina de Tucumán foi a mais atingida pela falta de visibilidade. Já em Mendoza, no oeste, fronteira com o Chile, o fumo manteve-se a 1.500 metros de altura sem afetar a visibilidade. O Serviço Meteorológico prevê uma mudança a partir de quinta-feira, quando se prevê a chegada de chuvas, vindas do sul do país.

A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta. Tem cerca de 5,5 milhões de quilómetros quadrados e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

 

ZAP // Lusa

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5 COMENTÁRIOS

    • para inglês, para francês, pra todo mundo ver o quanto o palhaço, agora de fama internacional por sua estupidez, é altamente nocivo não mais somente para o Brasil. De capitão expulso do exército, agora foi promovido a bobo da corte do Trump!

    • Os incendiários são os mesmos de sempre, inflamados pela ausência de fiscalização e pela impunidade: grileiros, madeireiros, garimpeiros e fazendeiros pecuaristas – o movimento para queimar a floresta foi inclusive combinado em rede social. Muitas ONGs (não todas, acredito) têm segundas intenções, claro, mas não querem queimar nada, apenas roubar algumas espécies raras, sementes, informar onde tem minerais preciosos… apenas saquear!

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