Biden reconhece “genocídio arménio”. É o primeiro Presidente dos EUA a fazê-lo

Jim Lo Scalzo / EPA

O Presidente dos Estados Unidos descreveu o massacre de 1,5 milhões de arménios pelo Império Otomano, em 1915, como “um genocídio”, num gesto que pode aumentar a tensão com a Turquia.

Numa declaração para evocar o 106.º aniversário do início daquele massacre, que ocorre este sábado, Joe Biden tornou-se o primeiro Presidente dos EUA a reconhecer formalmente o que aconteceu como genocídio, algo que os seus antecessores evitaram para não colocar em causa a aliança com Ancara.

O dia 24 de abril marca o início dos massacres de arménios pelo Império Otomano, em 1915.

A Turquia recusa o termo “genocídio” e rejeita qualquer sugestão de extermínio, citando massacres recíprocos num cenário de guerra civil e fome que provocou centenas de milhares de mortes dos dois lados.

Apesar de anos de pressão da comunidade arménia nos Estados Unidos, nenhum Presidente norte-americano ousou irritar Ancara, um aliado histórico de Washington e membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

Esta semana, o Wall Street Journal e o New York Times, citando as autoridades norte-americanas, já tinham avançado que o democrata estava a preparar-se para fazê-lo.

Turquia “não tem nenhuma lição a receber de ninguém”

O Presidente turco já reagiu à declaração de Biden. Recep Tayyip Erdogan denuncia a “politização por terceiros” do debate sobre a questão do genocídio arménio e adianta que a Turquia não recebe lições de ninguém sobre a sua História.

“Ninguém está a aproveitar o facto de que os debates – que deveriam ser realizados por historiadores – são politizados por terceiros e tornam-se um instrumento de interferência no nosso país”, disse o Presidente turco numa mensagem ao patriarca arménio em Istambul.

O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, também afirmou que a Turquia “não tem nenhuma lição a receber de ninguém sobre a sua História”.

“As palavras não podem mudar ou reescrever a História”, prosseguiu o ministro turco, numa mensagem escrita no Twitter, que apontou que o “oportunismo político é a maior traição à paz e à justiça”.

E rematou: “Rejeitamos completamente esta declaração com base apenas no populismo”.

Logo depois, o Ministério dos Negócios Estrangeiros turco publicou no seu site oficial um comunicado a “rejeitar e denunciar de forma mais categórica” o comunicado de Biden, “feita sob pressão de círculos arménios radicais e grupos anti-turcos”.

O comunicado “não tem base académica ou jurídica, nem é sustentado por qualquer prova. Os acontecimentos de 1915 não cumprem nenhuma das condições para utilizar o termo ‘genocídio’, definido de forma precisa pelo direito internacional”, refere.

“Pedimos ao Presidente dos Estados Unidos que corrija este grave erro, que não serve nenhum fim, a não ser para satisfazer alguns círculos políticos”, acrescenta.

Joe Biden e Recep Tayyip Erdogan concordaram reunir-se em junho, paralelamente à cimeira da NATO, em Bruxelas. Enquanto a conversa entre os dois líderes foi anunciada, na capital da Arménia cerca de 10 mil pessoas marcharam para assinalar o massacre durante a I Guerra Mundial.

A multidão, carregando tochas, marchou do centro de Erevan até ao memorial dedicado às vítimas, com alguns manifestantes a entoarem canções patrióticas enquanto outros tocaram tambores, relataram jornalistas da agência France-Presse no local.

Arménia saúda “medida muito forte” de Biden

O primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pachinian, saudou a decisão histórica do Presidente dos Estados Unidos. Numa mensagem publicada no Facebook, agradeceu ao Presidente norte-americano pela “medida muito forte em termos da justiça e da verdade histórica”, que oferece um “apoio inestimável aos descendentes das vítimas do genocídio arménio”.

O reconhecimento do genocídio constitui “um exemplo encorajador para todos que querem construir uma sociedade internacional justa e tolerante”, adiantou ainda o chefe do governo arménio.

Três dezenas de países, incluindo Portugal, e muitos historiadores classificam o massacre como um genocídio, termo rejeitado com firmeza pela Turquia.

No ano passado, na comemoração do Dia da Memória do Genocídio Arménio, Biden afirmou que “silêncio é cumplicidade” e prometeu “reconhecer o genocídio arménio e fazer dos direitos humanos universais uma das principais prioridades” da sua administração, “para que tal tragédia nunca mais ocorra”.

ZAP // Lusa

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