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Como o BES “ajudou a subornar” um ministro venezuelano

Nisopedia / Wikimedia

Ricardo Salgado, ex-presidente do BES

Novas revelações dos Pandora Papers indicam que a construtora brasileira Odebrecht beneficiou da alegada “ajuda” do BES e do Grupo Espírito Santo (GES) para pagar subornos a um ministro da Venezuela, Haiman El Troudi, e, assim, garantir obras públicas naquele país.

A Odebrecht terá pago “mais de 90 milhões de dólares em subornos a um ministro de Nicolás Maduro através de um esquema montado no GES por colaboradores de Ricardo Salgado”, como avança o Expresso que está envolvido na investigação internacional dos Pandora Papers, a maior fuga de informação dos últimos tempos que expõe a riqueza oculta de vários lideres mundiais.

Um dos nomes que surge implicado no processo é o de Haiman El Troudi, antigo ministro das Obras Públicas de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.

El Troudi terá recebido mais de 92 milhões de dólares da Odebrecht, através de uma offshore que teria como beneficiária a mulher, Maria Eugénia Baptista Zacarias, para garantir a realização de “quatro grandes obras públicas do metro na Venezuela”, como aponta o Expresso.

Maria Eugénia tem um papel decisivo neste alegado esquema que começou logo depois de Maduro ter conseguido obter “poderes especiais” do Parlamento.

O “homem-chave nas operações mais obscuras do GES”

A mulher de El Troudi terá recebido as “luvas” destinadas ao marido através de uma offshore no Panamá, a Cresswell Overseas que era gerida pelo português Paulo Murta, outro nome fundamental em todo este processo.

Murta foi “um homem-chave nas operações mais obscuras do GES no período final do banqueiro Ricardo Salgado à frente do grupo e do BES”, aponta o Expresso.

O gestor português foi extraditado em Julho deste ano para os EUA devido a suspeitas do seu “envolvimento na lavagem de mais de mil milhões de dólares com origem na petrolífera estatal venezuelana PDVSA”, indica ainda o semanário.

Além de ter gerido contas da Cresswell Overseas no Espírito Santo Bankers Dubai (ESBD) e na Sucursal Financeira Exterior do BES na Madeira, também foi gestor da Gestar, uma empresa do universo GES constituída na Suíça que permitia gerir activos do grupo e de clientes do BES, “ajudando-os a ocultar as suas fortunas” através de offshores, vinca o mesmo jornal.

“Prova suficiente” implica Maria Eugénia

A Cresswell Overseas surge referenciada no inquérito-crime principal ao BES, implicando Ricardo Salgado como principal arguido, com a investigação de crimes como corrupção activa, burla, manipulação de mercado, falsificação de documentos, branqueamento de capitais e associação criminosa.

Contudo, a parte relativa à Cresswell Overseas não foi envolvida na acusação.

Há, porém, outro processo relacionado com o BES, e que envolverá suspeitas relacionadas com subornos pagos pela Odebrecht, que inclui um documento de uma das procuradoras do Ministério Público (MP) onde se nota que foi reunida “prova suficiente” que indicia que a offshore “pertence, na realidade, a Maria Eugénia Zacarias”, como cita o Expresso.

Assim, o semanário depreende que os 92 milhões transferidos para a offshore seriam “luvas” pagas a El Troudi pela Odebrecht pelas obras públicas no metro da Venezuela.

Além de ministro das Obras Públicas, El Troudi era também, na altura, presidente do metro de Caracas e presidente do metro de Los Teques, nos arredores da capital, e que faziam parte das obras atribuídas à construtora brasileira.

O documento do inquérito secundário ao BES aponta ainda a existência de reuniões entre responsáveis do BES e o advogado venezuelano, Luís Henrique Delgado Contreras, que seria o representante de Maria Eugénia Zacarias.

Contreras foi também denunciado no caso Lava-Jato, no Brasil, que implica igualmente a Odebrecht, como tendo sido o intermediário das negociações da construtora para a obtenção das obras públicas do metro na Venezuela.

Ministro terá ajudado GES com 50 milhões de dólares

O ofício do MP citado pelo Expresso nota ainda que a “Cresswell Overseas investiu entre Janeiro de 2013 e 2014 um total de 50 milhões de dólares em acções preferenciais da Espírito Santo Overseas Limited (ESIOL)”.

A ESIOL estava registada nas Ilhas Caimão e “tinha como único activo empréstimos concedidos à Espírito Santo International (ESI), a holding principal do GES, através da qual o BES era controlado pela família Espírito Santo”, refere o mesmo semanário.

O jornal ainda apurou que esses 50 milhões de dólares que chegaram à ESIOL foram totalmente injectados na ESI que estava “numa situação desesperada no final de 2013, depois de o Banco de Portugal (BdP) descobrir que a holding do grupo tinha uma dívida oculta de 1300 milhões de euros ao BES”.

Nessa altura, o BdP forçou o BES a capitalizar a ESI, mas exigindo que isso fosse feito com capitais próprios. Deste modo, a Cresswell Overseas, e, portanto, o ministro venezuelano, ajudou a “salvar”, pelo menos no imediato, o GES.

Nos documentos consultados pelo Expresso, nota-se ainda que a mulher de El Troudi abriu, em 2013, “uma pequena empresa em Lisboa, sem funcionários nem actividade, a Publicicorp”.

Esta empresa adquiriu ao GES, através de um empréstimo de 900 mil euros do BES, um apartamento num edifício de luxo, também em Lisboa, por 1,5 milhões de euros.

Nesse mesmo edifício, já o antigo CEO da Odebrecht, Pedro Novis, tinha comprado um imóvel.

  ZAP //

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