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Apps de rastreio: não há evidências que estejam a ajudar a travar a covid-19

stayawaycovid.pt

Em Portugal, a aplicação de rastreio de contactos StayAway Covid não está a ser bem recebida, com muitos a temerem a sua ineficácia e problemas relacionados com a privacidade.

Durante a primeira vaga de covid-19, investigadores da Universidade de Oxford criaram um modelo computacional que sugere que se 56% do Reino Unido descarregasse e usasse a aplicação de rastreio (juntamente com outras medidas de controlo) poderia pôr-se um fim à doença no país.

Com a app em inglês disponível apenas desde setembro, é muito cedo para dizer como é que o sistema realmente está. Mas mesmo com base noutros países cujas aplicações estão disponíveis há muito mais tempo, ainda há poucas evidências de que podem fazer uma diferença real na luta contra a covid-19 – ou de que não podem.

Embora isso não signifique que devamos cancelar totalmente as apps de rastreio de contactos, a falta de evidências é uma preocupação, dado o foco e o dinheiro dedicado a essas aplicações e as decisões políticas tomadas em torno delas.

Este tipo de “solucionismo tecnológico” pode ser uma distração do desenvolvimento de sistemas comprovados de rastreio de contactos manual. Na verdade, o Conselho da Europa colocou a questão de saber se, dada a falta de evidências, as promessas feitas sobre essa apps “valem os previsíveis riscos sociais e legais”.

Apesar das previsões de que entre 67,5% e 85,5% dos potenciais utilizadores da aplicação fariam download dela, as taxas de download destas aplicações a nível mundial são bem mais baixas, rondando os 20%. Em Portugal, a app StayAway Covid já foi descarregada cerca de 2 milhões de vezes.

As taxas de download são importantes porque você precisa de muitas outras pessoas a usarem a aplicação para o telemóvel para aumentar a chance de que, se você entrar em contacto com alguém que tem o vírus, o sistema seja capaz de alertá-lo desse facto.

Trocado por miúdos, se houver 20% da população como utilizadores ativos, só há uma probabilidade de 4% de entrar em contacto com outro utilizador da app. Se a percentagem chegar aos 40%, a probabilidade atinge os 16%. A matemática é explicada num artigo publicado no jornal The Strait Times.

As aplicações podem não precisar de altas taxas de download para ter impacto. Um segundo relatório dos investigadores de Oxford sugere que se um sistema de rastreio de contactos com notificações digitais e manuais poderia reduzir infeções em 4%-12% e as mortes em 2%-15% com apenas 15% da população a usar a app.

Falta de confiança

Então, por que os aplicativos de rastreio de contactos não tiveram um sucesso mais demonstrável? Em primeiro lugar, parece haver falta de confiança do público na tecnologia e no uso de dados pessoais.

No início do ano, houve muita discussão sobre se as aplicações deveriam fazer upload de dados para um banco de dados central ou armazená-los nos telemóveis dos utilizadores para preservar a sua privacidade. A maioria dos países acabou por optar pelo último, embora a França tenha optado pelo primeiro, relatando uma aceitação muito baixa.

Na realidade, há boas razões para duvidar da eficácia das aplicações. A maioria dos países (com exceção da Islândia) também optou por usar o Bluetooth para registar quando é que os utilizadores da app entram em contacto, em vez de usar o GPS para rastrear a sua localização específica, novamente para proteger a privacidade. Mas o Bluetooth tem uma série de pontos fracos que significam que pode registar contactos que nunca aconteceram e perder outros que aconteceram.

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Um estudo, realizado num elétrico e comparando as apps italiana, suíça e alemã, concluiu que a tecnologia era muito imprecisa. Os alertas falsos resultantes provavelmente aumentaram a confusão e a falta de confiança nas aplicações de rastreio.

  ZAP // The Conversation

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