Web Summit volta atrás (outra vez) e retira convite a Marine Le Pen

Tiago Petinga / Lusa

O primeiro-ministro, António Costa, com o fundador da WebSummit, Paddy Cosgrave

O presidente executivo da Web Summit, Paddy Cosgrave, anunciou que decidiu retirar o convite à líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, depois das críticas de vários setores.

“É agora claro para mim que a decisão correta para a WebSummit é retirar o convite a Marine Le Pen”, escreveu Cosgrave na sua conta na rede social Twitter.

O Governo português, entretanto, esclareceu que não tem intervenção na “seleção de oradores” do Web Summit, a propósito de críticas sobre o convite à participação da dirigente política de direita Marine Le Pen no evento deste ano.

“O Governo português, estando, pelo seu impacto, empenhado no acolhimento deste evento privado, não tem, como em outros eventos, intervenção na seleção de oradores”, informou o Ministério da Economia em comunicado.

Na mesma nota, o ministério dirigido por Manuel Caldeira Cabral refere que a Web Summit é um evento tecnológico e de inovação, com milhares de oradores, que atrai anualmente a Portugal dezenas de milhares de empreendedores e investidores.

“Trata-se de um fórum alargado de discussão de tendências de mercado, cujo alinhamento – oradores e programa – é da exclusiva responsabilidade da organização“, justifica aquele ministério.

Na véspera, o presidente executivo da Web Summit, Paddy Cosgrave, respondeu às críticas sobre o convite à participação de Marine Le Pen no evento deste ano, dizendo que, se os anfitriões em Portugal pedissem, cancelaria imediatamente o convite.

Numa longa mensagem publicada esta quarta-feira no Medium, Cosgrave explica que é defensor da liberdade de expressão, para justificar a razão do convite à política de extrema-direita francesa, mas também se mostra disponível para aceitar as críticas e até retirar o convite, compreendendo as diferenças históricas entre o seu país, a Irlanda, e Portugal.

“Se os nossos anfitriões em Portugal, o Governo português, nos pedirem para cancelar o convite a Marine Le Pen, iremos, evidentemente, respeitar esse pedido e fazê-lo imediatamente”, afirma o cofundador da Web Summit, que este ano se vai realizar pela terceira vez em Portugal, no mês de novembro.

Para Cosgrave, os pontos de vista de Marine Le Pen “são errados”, mas o facto de que “mais de 30% dos eleitores franceses a escolheram na mais recente eleição presidencial da França não legitima”, afirma, “as suas opiniões”.

Acrescenta que também a ascensão ao poder de políticos igualmente de direita em Itália, na Áustria, na Hungria e em outros lugares “não legitima os seus pontos de vista repreensíveis”.

O criador do evento de tecnologias e empreendedorismo, que se vai realizar pela terceira vez em Lisboa, tenta explicar com profundidade as razões do convite a Marine Le Pen e, ao mesmo tempo, deixa uma margem ampla para esse mesmo convite ser retirado.

“Quando eu era estudante em Trinity, se alguma vez a universidade pedisse a um estudante que admitisse cancelar um convite a um terrorista, anarquista ou fascista para falar num evento, tenho certeza de que teríamos feito isso imediatamente. Teríamos protestado, por uma questão de princípio, mas teríamos respeitado os pedidos da nossa anfitriã, a universidade”, disse.

Paddy defende que a sua posição quanto aos limites do debate e discussão e sobre os méritos da proibição e silenciamento de dissidentes e militantes “são, em grande parte, moldados pela história única da Irlanda. E a Irlanda até há pouco tempo estava a lidar com um conflito terrorista incrivelmente violento e desumano”.

a história recente de Portugal “é um pouco diferente”, diz Cosgrave afirmando-se consciente e “sensível a esse fato”. “Em última análise, o interesse dos nossos anfitriões, Portugal, e o interesse do povo de Portugal, deve ser colocado muito acima dos da Web Summit”, clarifica.

André Kosters / Lusa

O fundador da Web Summit, Paddy Cosgrave

Bloco de Esquerda aplaude

O Bloco de Esquerda saudou a decisão da Web Summit de retirar o convite à líder francesa de extrema-direita, Marine Le Pen, defendendo que seria importante uma posição do Governo e da Câmara Municipal de Lisboa.

É a decisão mais acertada, também considerando as pressões que foram feitas e a própria pressão social que existiu à volta do convite feito à Marine Le Pen” para participar na Web Summit, disse à Lusa a deputada e dirigente do BE Isabel Pires.

No entanto, “apesar de saudarmos a decisão, a única incógnita que se mantém é de facto de que o Governo e a Câmara Municipal de Lisboa não tiveram uma única palavra sobre o assunto e isso lamentamos”, acrescentou.

Para Isabel Pires, “seria importante haver uma tomada de posição considerando que existem dinheiros públicos nesta organização”.

Antes, o Bloco de Esquerda (BE) tinha exigido que o Governo e a Câmara de Lisboa tomassem uma posição sobre o convite da Web Summit à líder da extrema-direita francesa, considerando inaceitável serem utilizados dinheiros públicos para passar mensagens de xenofobia e racismo.

Na lista de oradores do site do evento, o nome de Marine Le Pen esteve inicialmente entre os oradores convidados da edição deste ano, surgindo um pequeno texto identificando o cargo, formação e os últimos resultados eleitorais da líder do partido francês.

Depois de ter sido removido, o nome de Le Pen tinha voltado esta segunda-feira a estar listado entre os oradores, sem qualquer explicação por parte da organização. Desapareceu agora de novo, presumivelmente em definitivo, da lista de oradores do evento.

ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. E é isto o facismo. Uma ideologia inventada pelo socialista Mussolini, que advoga que só pode haver uma linha de pensamento aceite. A deles. O partido facista BE, a dizer que nao se pode dar plataforma para falar a Le Pen. Nada disseram quando Obama veio falar 2h por 500000 euros, o que é um claro caso de corrupção legalizada.

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